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O silêncio do lado de fora era assustador. Sanji se afastou de mim, seus olhos focados na porta do quarto de Zoro, como se pudesse ver através dela o que acontecia no quarto de Luffy. Ele parecia dividido entre a necessidade de cuidar de mim e a urgência de ir ver o Capitão.

— Ele... ele vai ficar bem? — perguntei, minha voz ainda embargada, sentindo a culpa pesar.
Sanji hesitou por um momento, então virou-se completamente para mim, sua expressão séria e decidida. Ele estendeu a mão e gentilmente enxugou uma lágrima do meu rosto com o polegar.

— Senhorita, o Luffy é um idiota, mas é o capitão mais forte que existe — ele disse, sua voz firme, tentando me tranquilizar. — Ele vai ficar bem. Mas agora, o mais importante é você.

Ele se levantou, caminhando até uma pequena cômoda no quarto de Zoro. Pegou uma toalha limpa e uma garrafa d'água.

— Beba um pouco disso — ele ofereceu a água, e depois umedeci a toalha, delicadamente a aplicando no meu rosto. — Você precisa se acalmar. Depois, vamos conversar de verdade sobre tudo isso.

Enquanto Sanji cuidava de mim, a porta do quarto de Luffy se abriu. Ouvimos passos pesados no corredor. Zoro, com a expressão tensa, apareceu na porta do quarto de Zoro, seu olhar sério encontrando o nosso.

— Como ele está? — Sanji perguntou, a voz baixa, mal contendo a ansiedade.

Zoro soltou um suspiro, passando a mão pelo cabelo. — Ele está... quieto. E bagunçou o quarto todo. Mas ele não está mais quebrando nada.
A notícia, embora não fosse um alívio completo, trouxe uma pontada de esperança. A fúria de Luffy parecia ter se esvaído, substituída por algo mais profundo.

Sanji assentiu. Ele me olhou com uma compaixão que me fez sentir um pouco menos sozinha.
— A senhorita precisa descansar. O amanhã será um dia difícil para todos nós.
Eu balancei a cabeça, sentindo o peso da culpa e da preocupação. Meu plano havia funcionado, mas as consequências foram muito além do que eu esperava. A vingança, que eu pensei que traria uma sensação de alívio, tinha me deixado vazia

A manhã seguinte no Sunny foi a mais silenciosa que eu já havia presenciado. O sol brilhava, mas o navio parecia envolto por uma névoa de tristeza. Sanji preparou o café da manhã, mas a mesa estava vazia, exceto por alguns poucos. Zoro estava de pé no convés, com o rosto virado para o mar, em sua guarda silenciosa.
Eu saí do quarto, sentindo o peso da culpa em cada passo. Nami me viu e, com um olhar de preocupação, apenas me ofereceu uma xícara de chá. Ninguém disse nada sobre a noite anterior. A ausência de Luffy era como um buraco visível, e todos sentiam o peso da situação.
O silêncio foi quebrado por um rangido. A porta do quarto de Luffy se abriu, e ele saiu. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e havia uma tristeza profunda em seu rosto que eu nunca tinha visto. Ele parecia cansado, como se não tivesse dormido.
Ele caminhou em direção à cozinha, mas parou no meio do caminho. Seu olhar se encontrou com o meu. O ar ficou tenso. Não havia mais raiva em seus olhos, apenas uma dor profunda e uma vulnerabilidade que me partiu o coração.
Eu não sabia o que fazer. Se eu me aproximasse, ele me rejeitaria? Se eu ficasse parada, o silêncio se tornaria um abismo entre nós? O que eu sabia é que o jogo que eu havia iniciado tinha acabado. Agora, era a hora de lidar com as consequências.

A angústia me atingiu com força total. Eu estava pronta para me desculpar, para tentar consertar as coisas, mas ele me evitou de novo. A dor em seus olhos ainda estava presente, mas ele se virou, fugindo da conversa que eu sabia que ambos precisávamos ter. Ele voltou para o quarto, o som da porta se fechando parecendo um eco do meu coração partido.
Eu fiquei ali, no meio do corredor, sentindo-me mais sozinha do que nunca. A vingança, o ciúme, a dor, a culpa... tudo se misturou em uma única emoção avassaladora. Ele havia me rejeitado duas vezes agora, e a dor era insuportável.
A tripulação, que observava a cena de longe, também sentiu o peso daquele momento. Nami me olhou com uma tristeza profunda, e Sanji me ofereceu um olhar de compaixão. Zoro, que tinha ficado na porta do quarto, balançou a cabeça em desaprovação.

— Ele é um idiota — Zoro disse, a voz baixa, mas carregada de frustração. — Eu falei pra ele que ele não podia fugir disso.

Eu não conseguia responder. As lágrimas, que eu pensei ter esgotado, voltaram a escorrer pelo meu rosto. Eu havia estragado tudo. Tentei fazê-lo sentir a dor que ele havia me causado, mas acabei ferindo-o mais, e agora ele se isolava de novo, se protegendo de uma vulnerabilidade que ele não conseguia entender

Eu estava no convés, encolhida, a tristeza me consumindo, quando senti duas presenças se aproximando. Era Nami e Robin. O olhar delas não era de compaixão, mas de uma seriedade fria que me fez engolir em seco. Elas se sentaram ao meu lado, uma de cada lado, e o silêncio que se seguiu era mais intimidador do que qualquer grito.
— O que você fez? — Nami perguntou, sua voz baixa, mas afiada como uma lâmina.

— Eu… eu só queria que ele sentisse o que eu senti — eu murmurei, sentindo as lágrimas voltarem.

— E você acha que conseguiu? — Robin interveio, sua voz suave, mas com um peso que me fez arrepiar. — Você acha que a sua dor é maior do que a dele?
Eu as olhei, confusa, sem entender.

— O Luffy cresceu sem família, sem laços — Nami continuou, sua voz agora mais suave. — Para ele, a tripulação é a única coisa que ele tem. Ele nos vê como a sua única família, e você… você é a única pessoa que ele deixou entrar de uma forma diferente.
— Ele te afastou por medo, não por falta de amor — Robin explicou, seus olhos fixos em mim. — Ele viu o que aconteceu com o Ace, e ele se culpa por isso. Ele pensou que, se ele te amasse, ele te perderia. O seu amor, para ele, era uma fraqueza que ele não podia ter, porque ele tem medo de não poder te proteger.

As palavras delas me atingiram como um soco no estômago. Eu nunca tinha pensado nisso. Eu só tinha pensado na minha dor, na minha mágoa, na minha vingança.

— E você… com a amnésia, ele pensou que tinha uma segunda chance — Nami disse, com a voz embargada. — Ele achou que poderia te amar sem o medo, sem a culpa. E você jogou tudo na cara dele. Você pegou a única coisa que ele te deu de bom, a confiança dele, e a usou para fazê-lo sofrer.

As lágrimas voltaram com força total. Elas estavam certas. Eu havia sido egoísta. Eu havia usado a dor dele para curar a minha, e no processo, eu o feri mais.

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