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Algumas horas se passaram desde o incidente na cozinha. O clima no Sunny estava estranho. Luffy não apareceu, e eu mantive minha performance, conversando casualmente com Law no convés, sob o sol. Chopper estava conosco, parecendo alheio à tensão no ar, apenas feliz por estarmos todos juntos. Era um alívio tê-lo por perto, inocente da nossa pequena farsa.
De repente, Zoro veio me procurar. Ele parecia sério, os olhos fixos em mim.
— Podemos conversar? — ele perguntou, sua voz calma, mas com uma nota de urgência que eu reconheci.

— Sim — respondi, assentindo.

— Sozinhos — Zoro adicionou, lançando um olhar sutil para Law e Chopper.

— Ah, claro — eu disse, sentindo uma pontada de nervosismo. O que Zoro queria conversar? O plano estava em risco? Levantei-me e o segui para um canto mais afastado do navio, onde pudéssemos ter alguma privacidade. O olhar de Law me seguiu, um brilho de compreensão em seus olhos.

— Adivinha só — Zoro disse, um tom de diversão misturado com algo mais sério em sua voz.

— Não sei — respondi, meu coração acelerado com a expectativa.

— Já tem duas horas que o Luffy está no quarto sozinho — ele revelou, um leve sorriso surgindo em seus lábios.

Um arrepio de satisfação percorreu meu corpo. — Está funcionando — murmurei, sentindo um gosto agridoce na boca.

— Não sei, mas ele não quer conversar com ninguém — Zoro continuou, o sorriso desaparecendo. Ele parecia genuinamente preocupado.

— Vou lá conversar com ele — disse, dando um passo à frente. Minha intenção era ir, mas não para "conversar" no sentido tradicional. Eu queria ver a reação dele, estender a mão para retirá-lo do isolamento que minhas ações haviam causado.

— Espera até o jantar pra ver se ele vai aparecer — Zoro aconselhou, segurando meu braço suavemente.

— Acho bom você resolver isto — uma voz suave e familiar chamou nossa atenção. Robin estava se aproximando, seus olhos perspicazes fixos em nós.

— Não sei do que você está falando — respondi, tentando manter a fachada de inocência, mas sabia que era inútil com Robin.

— Até você, Roronoa Zoro — Robin disse, parando a nossa frente, seus braços cruzados.

— O que foi, Robin? — Zoro perguntou, a voz dele um pouco tensa, percebendo que havíamos sido pegos.

— Por que você não conversa com o Luffy? Vai ser melhor pros dois. Não aja assim — Robin disse, seus olhos encontrando os meus. Havia um tom de advertência em sua voz, mas também de profunda compreensão. Ela sabia que eu havia recuperado minhas memórias e que o jogo que estávamos jogando poderia ter consequências maiores.

— Eu vou resolver isso amanhã — eu disse, com a voz firme, olhando Robin nos olhos. A presença dela, e a certeza de que ela entendia a situação, de alguma forma me deu mais coragem. Não adiantaria negar; Robin sempre via através das fachadas.

— Ótimo — Robin respondeu, um leve sorriso surgindo em seus lábios, como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Ela sabia que eu havia aceitado a responsabilidade.

— Depois conversamos, Robin — Zoro acrescentou, lançando-lhe um olhar que era uma mistura de "obrigado por intervir" e "por favor, não revele tudo". Robin apenas assentiu, e se afastou.
O resto do dia passou lentamente. A tensão era quase palpável, especialmente com a ausência de Luffy. Eu tentava manter a aparência de "Kiara amnésica", mas a verdade pesava em meu peito.
Quando Sanji finalmente chamou para o jantar, todos se reuniram na cozinha, exceto um. Luffy não apareceu. A mesa, que geralmente era cheia de risadas e conversas barulhentas, estava mais silenciosa do que o normal. Sanji preparou os pratos favoritos de Luffy, na esperança de atraí-lo, mas a comida permaneceu intocada em seu lugar.
Os olhares preocupados da tripulação se encontravam. Nami e Usopp murmuravam baixinho. Chopper parecia prestes a chorar de novo. Até Franky e Brook estavam mais quietos. A ausência de Luffy era um buraco visível, e todos sentiam o peso da situação. Eu senti um aperto no peito. Meu plano estava funcionando, sim, mas a dor que ele causava a Luffy – e à tripulação – era mais real do que eu imaginava.

Saí da mesa, a comida intocada em meu prato, a preocupação da tripulação ecoando em meus ouvidos. Não podia esperar até amanhã. A dor na expressão de Luffy, e a angústia de seus companheiros, eram demais para ignorar.
Caminhei decidida até a porta do quarto de Luffy. Respirei fundo e bati.

— Luffy, sou eu. Posso entrar? — perguntei, minha voz um pouco mais suave do que o tom determinado que eu havia usado com Zoro e Robin.

— Tô ocupado — a voz dele veio de dentro, abafada, mas com um tom que eu reconheci como irritação.

— Não quero saber! — eu disse, ignorando seu protesto, e abri a porta, entrando no quarto.
Luffy estava de costas para mim, vestindo a camisa. Ele se virou rapidamente, e eu percebi que o havia pegado desprevenido.

— Calma — ele disse, com um tom de surpresa e um leve rubor no rosto.

— Eita, desculpa! — eu disse, fechando os olhos imediatamente, sentindo minhas bochechas esquentarem. A situação era inesperada e um tanto embaraçosa.

Luffy caminhou até mim, seus movimentos mais sérios do que o habitual, e fechou a porta atrás de mim. O som do clique ecoou no quarto, selando-nos lá dentro.

— Não deixa a porta aberta. Tá frio lá fora — ele disse, com a voz baixa.

— Desculpa, Capitão — murmurei, ainda um pouco atordoada pela situação embaraçosa de vê-lo sem camisa, e agora pela proximidade repentina.

Ele se sentou na cama, e eu me sentei ao lado dele, sentindo o calor do seu corpo irradiar. — O que você quer? — ele perguntou, a voz sem a sua usual despreocupação.

— Quero conversar com você — respondi, olhando para ele. A intenção de "resolver as coisas" estava clara em minha mente, mas o que veio a seguir me pegou completamente de surpresa.

— Não me diga... você vai ir com o Law? Vai trocar de tripulação? — Luffy perguntou, e a irritação em sua voz era palpável, misturada com algo que soava como medo.

— O quê? Luffy! — eu disse, chocada com a pergunta. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Luffy me empurrou suavemente para a cama, colocou-se por cima de mim, e então, seus lábios encontraram os meus em um beijo urgente e desesperado.

Eu senti o choque, o calor, a confusão. O beijo era intenso, carregado de uma emoção que eu não esperava. Ele se afastou um pouco, o rosto a poucos centímetros do meu, os olhos fixos nos meus.

— Você não pode ir — ele disse, a voz rouca, quase um sussurro.

— O quê? — eu disse, sem entender, ainda processando o beijo e a súbita vulnerabilidade em seus olhos.

— Como seu capitão, eu te proíbo de sair do alcance da minha visão — ele declarou, e então voltou a me beijar, com uma paixão avassaladora que me deixou sem ar.

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