Com o sol a pino, explorei cada viela escondida, cada mercado movimentado, mantendo sempre um olhar atento para evitar qualquer rosto familiar. A culpa ainda apertava meu peito, mas a determinação de seguir em frente falava mais alto.
Percorri as lojas, observando as novas cores e estilos. Decidi que precisava de uma mudança, um novo visual que refletisse a nova Kiara que eu queria ser. Comprei vestidos floridos e saias leves, bem diferentes das roupas mais práticas que usava a bordo do Sunny. Encontrei um pequeno salão e pedi que cortassem meu cabelo de uma forma diferente, algo que me fizesse sentir renovada e, principalmente, menos reconhecível. A ideia de despistar a Marinha, caso me encontrassem sozinha, era uma preocupação constante.
Cada nova peça de roupa, cada fio de cabelo cortado, era um passo para me distanciar do meu passado. Eu estava construindo uma nova identidade, tijolo por tijolo, longe do mar e das aventuras dos Chapéus de Palha. A saudade apertava, mas a convicção de que essa era a decisão certa para todos me dava forças para continuar.
Meu primeiro dia como garçonete no restaurante da Dona Rosa foi um turbilhão de emoções. Vestida com meu novo visual — um vestido florido e o cabelo cortado —, eu me movia entre as mesas, entregando pratos e bebidas com um sorriso que não alcançava meus olhos. A vida ali era simples e pacífica, uma calmaria que era ao mesmo tempo um alívio e um lembrete doloroso do caos que eu havia deixado para trás.
Eu estava servindo um prato de peixe frito a um casal quando a porta do restaurante se abriu. O sino tilintou, anunciando a chegada de novos clientes, mas o som me causou um arrepio. Sem olhar para cima, eu me dirigi ao balcão, esperando um novo pedido.
— Bom dia! Que lugar delicioso! — a voz, animada e familiar, me fez paralisar.
Eu me virei lentamente, meu coração batendo forte no peito. No meio do restaurante, olhando o cardápio com um sorriso no rosto, estava Usopp. Ele estava acompanhado por Chopper, que pulava ao seu redor, e atrás deles, com a mão no bolso e uma expressão de preocupação, estava Sanji.
Sanji me viu primeiro. Seus olhos, que estavam varrendo o local, pararam em mim, e a expressão de surpresa se transformou em uma de profunda confusão. A familiaridade do meu rosto, combinada com meu novo visual, parecia confundi-lo. Ele olhou para minhas novas roupas, para meu cabelo, e então, para o avental que eu usava. O sorriso em seu rosto desapareceu completamente, substituído por um olhar de incredulidade e mágoa.
Ele estava de pé ali, no meio do restaurante, me encarando. O silêncio parecia ensurdecedor, com todos os sons do restaurante se desvanecendo.
Sanji me encarou por um longo, doloroso momento. Não havia mais o sorriso gentil, o brilho de seus olhos. Havia apenas uma dor crua e uma confusão avassaladora. Ele parecia estar vendo um fantasma.
— Vamos embora — ele disse, sua voz baixa e fria, virando-se para Usopp e Chopper, que estavam animados, olhando o cardápio.
Usopp, percebendo a tensão, parou de falar e olhou de Sanji para mim. Seus olhos se arregalaram em reconhecimento. Chopper, que estava pulando, olhou para nós, confuso.
— Mas Sanji, a gente acabou de chegar! — Chopper reclamou, o rosto inchado.
— Eu disse, vamos embora — Sanji repetiu, a voz mais alta, sem me olhar. Ele pegou Chopper no colo e saiu do restaurante, seus passos eram rápidos e determinados. Usopp, com um olhar de desculpas, deu uma última olhada para mim antes de seguir os dois.
Fiquei ali, parada, com o coração em pedaços. Eu tinha tentado fugir, mas a minha nova vida havia durado apenas algumas horas.
Dona Rosa se aproximou, sua expressão preocupada.
— Senhora, eu… não estou me sentindo bem — eu disse, a voz embargada, sentindo-me tonta.
Dona Rosa tocou meu ombro, seus olhos cheios de compaixão. — Querida, vá descansar..Vá para o seu quarto, não se preocupe com nada.
A bondade dela era um bálsamo para a minha alma ferida. Eu assenti, e me virei para a porta dos fundos. Eu não tinha para onde correr. O meu novo refúgio, meu novo lar, estava atrás daquela porta.
Eu me joguei na cama, o rosto enterrado no travesseiro, e chorei. A dor de Sanji, a rejeição, a mágoa em seus olhos… era um novo tipo de dor, diferente da que eu sentia por Luffy. Eu havia machucado a minha família, e a realidade da minha decisão me atingiu com força total. Eu não podia fugir deles, e eu não queria.
Sanji tinha me visto. Logo, a tripulação toda saberia, e o Sunny seria ancorado aqui por tempo indeterminado. A minha presença ali, a minha nova vida, colocaria a vida deles em risco. Não era seguro para nenhum de nós. Levantei-me, a decisão pesando no meu coração.
Eu me aproximei da cozinha e encontrei Dona Rosa limpando os pratos. A bondade em seu rosto me deu a coragem de que eu precisava
— Senhora… se algumas pessoas aparecerem perguntando por mim, a senhora poderia dizer que eu fui embora? — perguntei, a voz trêmula.
Ela parou o que estava fazendo, me olhando com a mesma sabedoria que eu tinha notado mais cedo.
— Mas por que, querida? Você acabou de chegar.
A pergunta me desarmou. Eu me sentei na cadeira mais próxima, sentindo o peso de tudo o que havia acontecido. A história, que eu tinha mantido para mim, finalmente saiu em um jorro.
— Eu não sou apenas uma garçonete, senhora Rosa. Eu sou uma pirata. E eu fugi da minha tripulação. O capitão… ele me disse que eu era uma fraqueza. Que ele não podia ter laços emocionais. E quando eu perdi a memória, eu quis me vingar. Eu usei um amigo para fazê-lo sentir o que eu senti, para ele se arrepender. Mas… eu só o machuquei. E eu machuquei a todos. Por isso, eu fugi. Para protegê-los de mim.
Dona Rosa ouviu cada palavra, sem me interromper. Quando terminei, ela se sentou à minha frente, segurou minhas mãos e me olhou nos olhos.
— Querida, você não fugiu para protegê-los. Você fugiu porque se sentiu culpada — ela disse, sua voz calma, mas firme. — Você amou, você sofreu, e você cometeu um erro. Isso não faz de você uma pessoa ruim. Isso faz de você um ser humano. Você acha que, fugindo, a dor vai embora? Não. Ela vai com você. O seu capitão ele precisa de você. Ele precisa que você mostre a ele que, por mais que vocês se machuquem, o amor de vocês é mais forte.
As palavras dela me atingiram em cheio. Fugir não era a resposta. Eu tinha que enfrentar as consequências dos meus atos.
As palavras de Dona Rosa ecoaram em minha mente. A culpa, o medo e a tristeza que eu sentia começaram a se dissipar, substituídos por uma nova e urgente determinação. Ela estava certa. Fugir não iria curar ninguém. Eu tinha que enfrentar as consequências das minhas ações, não me esconder delas
— A senhora está certa — eu disse, a voz embargada, mas firme. — Eu fui egoísta. Eu preciso consertar o que eu quebrei.
Dona Rosa me deu um sorriso caloroso. — Então, comece amanhã. Durma um pouco. Amanhã é um novo dia, e você tem uma longa jornada pela frente.
Eu me deitei na cama, mas desta vez, não era para fugir. Era para me preparar. Eu sabia o que tinha que fazer. Não seria fácil, mas era a única forma de me perdoar, e, quem sabe, de ser perdoada.
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Monkey D. Luffy
Fiksi Penggemar.... Kiara, uma jovem talentosa com o poder da Akuma no Mi "Hikari no Mi", vive uma vida simples Mas sua rotina pacata é interrompida quando um grupo de marinheiros a acusa de ser uma criminosa. Em meio à perseguição, ela se vê envolvida em uma...
