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Nos dias que se seguiram à minha conversa com Zoro e à minha decisão silenciosa, eu passei a maior parte do meu tempo livre no convés. Observava o mar, o horizonte, e a tripulação, como se estivesse memorizando cada detalhe, cada gesto. O sorriso em meu rosto era convincente, a leveza em meu passo, a "Kiara amnésica" estava em plena performance. Luffy, por sua vez, parecia mais relaxado ao meu redor, acreditando que a "ameaça" dos meus sentimentos havia desaparecido com minhas memórias.
Três dias depois da minha conversa com Zoro, uma silhueta familiar surgiu no horizonte. Era o submarino dos Piratas do Coração. Eu sabia que ele viria, mas a visão de sua chegada ainda me causava uma pontada de nervosismo e excitação.
Logo, Trafalgar Law, o Cirurgião da Morte, subiu a bordo do Sunny, acompanhado de Bepo e Penguin. Sua expressão era a usual de tédio e desinteresse, mas seus olhos perspicazes varreram o convés, notando a atmosfera incomum. Zoro e Chopper foram os primeiros a se aproximar dele, com Chopper parecendo mais animado do que o normal, pulando ao redor de Law.
Eu observei de perto, mantendo minha distância, mas atenta a cada palavra. O plano estava prestes a começar, e a presença de Law era crucial. Luffy, alheio a tudo, estava provavelmente na cozinha, em busca de comida, ou cochilando em algum canto. Ele não fazia ideia do que estava prestes a acontecer.
Observei a cena se desenrolar: Zoro e Chopper conversando com Law. Era o momento perfeito. Dei um passo à frente, ajustando a expressão para que parecesse casual, quase inocente.

— Law! — chamei, minha voz soando um pouco mais animada do que o habitual, chamando a atenção do cirurgião.
Ele virou a cabeça, seus olhos acinzentados encontrando os meus. Uma ligeira surpresa cruzou seu rosto, mas desapareceu rapidamente. Ele parecia um pouco menos entediado do que o normal.

Caminhei até ele, um sorriso nos lábios, e para surpresa de todos, estendi a mão para tocar levemente seu braço. — É tão bom te ver! Faz tanto tempo!

A reação de Law foi quase imperceptível, mas Zoro e Chopper, que estavam próximos, notaram a hesitação em seu olhar. Ele não recuou, no entanto, e um brilho de curiosidade surgiu em seus olhos.
— Faz tempo, Kiara-ya — Law respondeu, sua voz monótona de sempre, mas sem o costumeiro sarcasmo. Ele parecia estar processando a minha atitude.

Lancei um olhar rápido para Zoro, que já havia percebido o que eu estava fazendo e deu um leve, quase imperceptível, aceno. Era o sinal.

— Pois é! Fico feliz que você tenha vindo. Tinha tanto pra te contar… — comecei, minha voz um pouco mais suave, e joguei um olhar sugestivo para o convés, onde Luffy, alheio a tudo, provavelmente estaria em breve.

Zoro tossiu discretamente. — Law, a Kiara teve um... acidente. Ela perdeu algumas memórias.
Law me observou com um interesse renovado, seus olhos afiados analisando cada detalhe do meu rosto. Ele parecia estar ligando os pontos, e talvez a ideia que eu queria plantar começasse a germinar em sua mente.

— Entendi — Law murmurou, e por um breve instante, um sorriso sutil e quase imperceptível surgiu em seus lábios. Parecia que ele havia captado a mensagem e, talvez, se divertiria com o plano.

O sorriso sutil de Law confirmou minhas suspeitas: ele havia entendido. Eu sabia que ele era inteligente e, mais importante, que tinha um lado que apreciava um bom "caos estratégico".

— Eu preciso da sua ajuda, Law — sussurrei, abaixando um pouco a voz para que apenas ele e Zoro pudessem ouvir. — Preciso que finja ser meu ex-namorado.
Os olhos de Law se estreitaram ligeiramente, e ele me analisou. — E o que eu ganho com isso, Kiara-ya?

— Uma chance de se divertir um pouco com o Capitão do Chapéu de Palha, talvez? E, claro, a minha gratidão. Vou te contar tudo depois, mas agora... preciso de você nesse papel — respondi, com um tom que misturava súplica e um toque de desafio. Eu sabia que ele não resistiria a uma boa oportunidade de ver Luffy em apuros.

Ele soltou um "fufufu" baixo, um som característico que eu agora lembrava bem.
— Interessante. Parece que você não é tão inocente quanto aparenta, Kiara-ya. Muito bem. Considerem um favor.

Zoro, que observava a troca com uma expressão que oscilava entre a aprovação e o leve divertimento, apenas acenou com a cabeça. O acordo estava selado. Law me lançou um olhar que dizia "vamos ver do que você é capaz", e eu soube que ele estava a bordo.
Meu plano era simples, mas, eu esperava, eficaz. Eu e Law agiríamos como se tivéssemos um passado romântico intenso e recente. Faríamos demonstrações sutis de afeto, conversas com duplos sentidos, e o deixaria ver o quanto Law, meu suposto "ex", ainda se importava. Luffy, com sua sensibilidade peculiar para certas coisas e sua teimosia em proteger a tripulação (e a si mesmo de "fraquezas"), certamente reagiria.
O primeiro passo seria casual. Aumentar a proximidade com Law, iniciar conversas mais íntimas em lugares visíveis, mas não óbvios. Criar uma aura de cumplicidade que Luffy, com sua percepção, inevitavelmente notaria.

— O que vocês estão conversando aí? — Chopper perguntou, pulando do colo de Bepo e vindo em nossa direção, seus grandes olhos curiosos.
Eu não dei tempo para Law responder. Com um movimento rápido e natural, peguei Law pelo braço, puxando-o levemente para longe de Zoro e Chopper. Era o primeiro passo.
— Nada demais, Chopper! — disse com um sorriso, mantendo a voz leve e descontraída, como se fosse a coisa mais normal do mundo puxar um Shichibukai para uma conversa particular.
Law me seguiu sem protestar, um brilho divertido em seus olhos. Ele entendeu o sinal. Caminhamos para a popa do navio, onde a conversa seria mais discreta, mas ainda visível para quem estivesse prestando atenção. De canto de olho, vi Zoro disfarçar um sorriso e Chopper, embora confuso, aceitar a explicação.

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