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Comecei a notar a movimentação. A curiosidade da tripulação, sempre aguçada, estava se voltando para a popa, onde Law e eu conversávamos. Era exatamente o que eu queria.
Logo, Usopp e Sanji apareceram, vindo em nossa direção com sorrisos no rosto, prontos para cumprimentar Law.

— Yo, Torao! Bom te ver de novo! — Usopp exclamou, acenando.

— Cirurgião da Morte!! — Sanji disse, serio ver a aproximação.
Era minha chance.
A chegada de Usopp e Sanji era a deixa perfeita. Law, com sua expressão impenetrável, executou seu papel com maestria.

— Passei pra ver minha querida — Law disse, sua voz um pouco mais suave do que o habitual, enquanto passava o braço sobre meus ombros. O contato foi leve, mas o suficiente para a mensagem ser transmitida.

Sanji e Usopp congelaram, seus olhos se arregalando. — Vocês se conhecem? — Sanji perguntou, a voz carregada de surpresa.

Sorri, passando meus braços sobre a cintura de Law, apertando-o um pouco. Eu estava me arriscando, mas a aposta era alta. — Sim! Quando eu tava na minha ilha, conheci o Law.

Law me olhou nos olhos, com um brilho de cumplicidade, e completou o roteiro. — Foi a melhor ilha da minha vida.

— São bastante próximos — Usopp murmurou, visivelmente intrigado, seus olhos alternando entre mim e Law.

Era o momento de lançar a bomba. — Somos ex-namorados — declarei, minha voz calma e casual, mas com um toque de melancolia. — Mas somos só amigos agora.

Law soltou um suspiro forçado, com um olhar de falsa tristeza. — Infelizmente.
A reação de Sanji foi imediata. Seus olhos se arregalaram ainda mais, e ele quase derrubou o copo que segurava. Usopp gaguejou, sem conseguir formar uma frase. Eu podia sentir a tensão no ar, e uma satisfação sombria começou a se instalar em meu peito. Eu sabia que, em algum lugar no navio, Luffy sentiria essa energia, essa mudança na dinâmica.

— Isso é impressionante — Usopp murmurou, ainda com os olhos arregalados, digerindo a informação.

— Vamos, Usopp, deixem eles conversarem — Sanji disse, empurrando o atirador levemente, embora a curiosidade ainda estivesse estampada em seu rosto. Ambos pareciam processar a bomba que eu havia lançado.

Era a hora de ser mais ousada. Eu não queria apenas plantar a semente; eu queria que ela florescesse bem debaixo do nariz de Luffy.

— Não! Vamos atrás do Luffy — declarei, minha voz adquirindo um tom mais animado e um tanto autoritário, e puxei Law com mais firmeza. Não dei tempo para ele hesitar.

Law me acompanhou sem resistência, lançando um olhar sutil por cima do ombro para Sanji e Usopp, um brilho de diversão em seus olhos. — Nos vemos depois — ele disse, com seu tom monótono, mas a frase agora carregava um peso diferente.

Eu sabia exatamente onde Luffy estaria: a cozinha. A comida era seu farol, sua maior paixão depois de ser o Rei dos Piratas. Puxando Law, que mantinha uma expressão neutra, mas com um toque de diversão nos olhos, acelerei o passo em direção ao coração do Sunny.
Chegamos à porta da cozinha. Lá estava ele, sentado à mesa, comendo um pedaço de carne gigante com a boca cheia, completamente alheio ao drama que se desenrolava ao seu redor. Sanji, que provavelmente já havia corrido para fofocar com Nami e Robin sobre a minha "revelação", não estava à vista.

Respirei fundo, ensaiando meu próximo movimento. Precisava ser natural, quase inconsciente, para que o impacto fosse máximo.
— Luffy! — chamei, minha voz um pouco mais alta que o normal, com um tom de casualidade que beirava a intimidade.

Ele levantou a cabeça bruscamente, com a boca ainda cheia, e me olhou. Seu olhar, que antes era de alívio e uma falsa tranquilidade, agora se transformava em confusão ao ver Law ao meu lado.

Continuei meu papel. Soltei o braço de Law, mas me posicionei um pouco mais perto dele, como se fosse algo automático. Olhei para Luffy com um sorriso que não alcançava meus olhos, um sorriso que ele esperava de alguém que não se lembrava de nada.

— Law estava me contando umas coisas engraçadas sobre... as aventuras dele — eu disse, com um tom conspiratório, lançando um olhar cúmplice para Law. O cirurgião, com sua habitual poker face, apenas acenou levemente com a cabeça, confirmando a "história".
O silêncio na cozinha ficou denso, preenchido apenas pelo mastigar lento de Luffy. Seus olhos se moveram de mim para Law, de Law para mim, tentando decifrar o que estava acontecendo. A confusão em seu rosto era evidente, e eu sabia que a primeira fisgada havia sido dada.

— Law, o que você está fazendo aqui? — Luffy perguntou, a voz um pouco abafada pela carne que ainda mastigava, mas com um tom de confusão e um leve indício de irritação. Seus olhos estavam fixos em nós, alternando entre mim e Law.
Law, com sua habitual calma, mas com um brilho de diversão em seus olhos, me puxou para perto. Ele se inclinou e depositou um beijo suave na minha bochecha, um gesto que era casual, mas carregado de intenção.

— Passei pra ver minha querida — ele disse, sua voz monótona, mas a palavra "querida" soou como um trovão na quietude da cozinha.

A carne na boca de Luffy pareceu congelar. Seus olhos se arregalaram, e a expressão de confusão deu lugar a um choque puro, seguido por uma pontada de algo que eu reconheci como... ciúme. Ele não disse nada, apenas nos encarou, a boca ligeiramente aberta, como se tivesse levado um soco no estômago. O silêncio era ensurdecedor, e eu podia sentir a tensão no ar.

— Law, não faz isso! O Luffy pode pensar errado — eu disse, rindo, tentando soar como se estivesse repreendendo Law de brincadeira, mas por dentro, a tensão era palpável. Eu queria que Luffy pensasse exatamente errado.

— Mas você não contou a ele? — Law perguntou, com um tom de surpresa forçada, olhando para mim e depois para Luffy, como se eu tivesse esquecido algo óbvio.

— Não contou o quê? — Luffy perguntou, a voz baixa, quase um rosnado. Seus olhos estavam fixos em mim, a irritação visível em seu rosto. O ciúme estava começando a borbulhar.
Era o momento. A bomba final.

— Law foi meu ex-namorado — declarei, olhando diretamente para Luffy, mantendo minha expressão o mais neutra possível, como se fosse uma informação trivial que eu estava apenas "relembrando".
A reação de Luffy foi imediata e explosiva.

— O Ace permitiu isso?! — ele exclamou, sua voz alta e visivelmente irritada, os punhos cerrados. A menção de Ace, seu irmão, e a ideia de que ele teria "permitido" algo assim, era um gatilho poderoso.
O plano estava funcionando. A raiva e o ciúme em seus olhos eram inconfundíveis. Ele não estava apenas confuso; ele estava furioso.

— Ace? Sim — Law respondeu, sua voz mantendo a habitual calma, mas com um brilho de diversão contida em seus olhos.

A raiva de Luffy, que parecia ter alcançado o ápice, se transformou em uma fúria silenciosa. Ele encarou Law, depois a mim, sua mandíbula travada. Sem dizer mais uma palavra, ele largou o pedaço de carne que segurava e saiu da cozinha, o som de seus passos ecoando no corredor.
Um silêncio pesado caiu sobre nós. Eu observei a porta por onde ele saiu, o coração batendo forte no peito. A mistura de satisfação e uma pontada de culpa me consumia. O plano estava funcionando, mas a reação dele foi mais intensa do que eu esperava.
Law me encarou, o leve sorriso em seus lábios se tornando um pouco mais visível. — Aparentemente, o Capitão do Chapéu de Palha não gosta de competição.

— Ele não gosta de nada que ele pensa que possa ser uma fraqueza — respondi, minha voz baixa. A "farsa" por um momento se desfez, e a dor de suas palavras originais me atingiu de novo.

— Bom, agora que ele se foi, o que fazemos, Kiara-ya? — Law perguntou, sua voz voltando ao tom monótono de sempre.

Eu respirei fundo, me recompondo. O primeiro passo havia sido dado, mas a jornada estava longe de terminar. Eu o faria perceber que a única fraqueza ali era a incapacidade dele de aceitar seus próprios sentimentos.
O

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