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Na Quietude da Enfermaria
Os outros saíram, e um silêncio quase palpável preencheu a enfermaria, quebrado apenas pelo suave balançar do navio. Eu estava sozinha com Chopper e Zoro, as duas figuras que, por alguma razão, me pareciam as mais seguras naquele momento de confusão. Chopper, com sua atenção focada e cuidadosa, começou a me examinar novamente. Ele verificou minhas pupilas com uma pequena lanterna, ouviu meu coração com um estetoscópio e checou meus reflexos.

— Como você está se sentindo agora, Kiara? — Chopper perguntou, sua voz suave, enquanto guardava seus instrumentos. Seus olhos grandes e gentis me transmitiam uma calma que eu desesperadamente precisava.

Tentei me concentrar nas sensações do meu corpo, ignorando a pontada constante na cabeça. — Meu corpo ainda dói um pouco, mas a dor na cabeça está mais fraca. Eu só… não me lembro dele

Zoro, que até então estava em silêncio, deu um passo à frente, sua voz grave e ponderada. — Isso é normal, Chopper disse. É um efeito do golpe na cabeça. Mas o importante é que você está bem.

Olhei para ele, sentindo uma estranha familiaridade em sua presença, mesmo sem memórias. — E… aquele homem que saiu? O “Capitão”? Quem ele é? E por que ele disse “melhor assim”?

Chopper suspirou, e Zoro fechou os olhos por um momento, como se escolhesse as palavras com cuidado. O silêncio voltou a pairar, preenchido pela tensão. Eu sabia que a resposta não seria simples.

— Deixa pra lá — Zoro disse, a voz cortante, interrompendo qualquer explicação que Chopper pudesse dar. Seu olhar era uma muralha impenetrável. — Chopper, podemos conversar?

— Claro — Chopper respondeu, sua voz pequena, e seguiu Zoro para fora da enfermaria.

Fiquei ali, na beira da cama, observando-a porta se fechar. A curiosidade me corroía, uma sensação incômoda de que algo importante estava sendo escondido de mim. A menção do "Capitão" e a reação de todos, especialmente a dele, me deixavam inquieta.
Decidi me levantar, sentindo meu corpo ainda um pouco fraco, mas a necessidade de entender era maior. Caminhei devagar até a porta e a abri um pouco, espiando para o convés. Todos estavam reunidos, os rostos tensos, as mãos gesticulando em um debate acalorado.

— Eu acho que ela deveria saber a verdade — Usopp disse, sua voz ansiosa, claramente preocupado.

— Ninguém vai dizer nada — Zoro retrucou, sua voz firme e cheia de autoridade. Seus olhos varreram o grupo, um aviso mudo.

— Ótimo — Sanji murmurou, parecendo irritado, e se afastou do grupo. Logo em seguida, todos se espalharam, como se a reunião nunca tivesse acontecido.

Recuei da porta, o coração batendo mais forte. O que era essa "verdade" que eles não queriam que eu soubesse? E por que Zoro estava tão determinado a escondê-la? A atitude do "Capitão" em dizer "melhor assim" ganhava um novo e sombrio significado com essa omissão.

Alguns dias se passaram, e eu me recuperei completamente. A dor de cabeça era apenas uma lembrança distante, e a fraqueza havia desaparecido. Meu corpo, embora sem as memórias que o acompanhavam, estava pronto para voltar à ação.

— Vou tomar um sol — disse, olhando para o céu azul, sentindo a brisa suave no rosto. O convés parecia mais convidativo do que nunca.

— Depois vamos treinar? — Zoro perguntou, sua voz calma como sempre, com um leve brilho de desafio nos olhos.

— Pode ser — respondi, sorrindo, e comecei a caminhar em direção ao convés, sentindo uma leve empolgação com a ideia de me exercitar e talvez dissipar um pouco daquela névoa de esquecimento que ainda me envolvia.

Ao sair da cabine, meus olhos varreram o convés. O sol estava forte, e a maioria da tripulação estava espalhada, cada um em suas atividades. E então eu o vi.
Luffy.
Ele estava sentado na cabeça do Sunny, com o chapéu de palha cobrindo o rosto enquanto ele cochilava, alheio a tudo. A figura dele era imponente, mesmo em descanso. Senti um arrepio estranho percorrer minha espinha. Era uma mistura de curiosidade e uma pontada de algo que eu não conseguia identificar, algo que parecia familiar e, ao mesmo tempo, doloroso.
Ainda não me lembrava dele, mas as palavras "melhor assim" e o silêncio da tripulação sobre o assunto ecoavam em minha mente. Havia uma história ali, uma verdade que me era negada. O encontro era inevitável.

— Capitão! — chamei, minha voz um pouco mais alta do que o normal, esperando que ele ouvisse.
Luffy remexeu-se na cabeça do Sunny, o chapéu de palha escorregando um pouco para trás, revelando seus olhos. Ele piscou algumas vezes, se ajustando à luz, e então seu olhar encontrou o meu. O reconhecimento me atingiu de forma estranha, uma confusão mesclada com uma familiaridade que eu não conseguia decifrar.

— Vamos conversar — declarei, minha voz firme, apesar da insegurança que sentia. Eu precisava entender o que estava acontecendo, desvendar o mistério que me envolvia.

— Outra hora, estou ocupado — ele respondeu, com seu tom despreocupado habitual, mas havia uma tensão sutil em sua voz, algo que me fez sentir como se ele estivesse me evitando.

— Não está. Vem, quero te conhecer melhor — insisti, dando um passo em sua direção. A curiosidade e a necessidade de respostas eram mais fortes do que qualquer receio.

Luffy hesitou por um momento, seus olhos me estudando. Então, com um suspiro quase imperceptível, ele desceu da cabeça do Sunny. — Tudo bem — ele disse, e começou a caminhar em minha direção, seu passo leve e despreocupado, como se estivesse apenas indo para mais uma aventura. Mas eu sabia que, para mim, este era um território desconhecido e importante.

Conversamos por horas. O sol no convés marcava a passagem do tempo enquanto eu ouvia Luffy falar. Ele, que havia demonstrado tanta relutância, acabou se abrindo, mesmo que de forma hesitante no início. Ele me tratou com uma gentileza inesperada, e a palavra "companheira" quebrou o gelo que havia se formado em meu coração.
Ele falou sobre seus sonhos, com a mesma paixão e determinação que seus companheiros haviam mencionado. Repetiu, com um brilho intenso nos olhos, que seria o Rei dos Piratas, e a convicção em sua voz era palpável. Eu não me lembrava dele, mas ao ouvi-lo, comecei a sentir uma estranha ressonância, como se parte da minha alma reconhecesse a sua ambição.
Ele não se aprofundou no passado, nem no incidente da minha queda, mas em suas histórias sobre aventuras passadas, sobre comida e sobre seus amigos, pude sentir a força dos laços que os uniam. Ele ria alto e gesticulava com entusiasmo, e aos poucos, a figura do "Capitão" que havia me dito "melhor assim" começou a se misturar com a de um homem simples e cativante.

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