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Passei dias no meu quarto, envolta na escuridão e na culpa. O travesseiro era meu único confidente, e o silêncio, meu único consolo. A única pessoa que ousou invadir meu espaço foi Zoro. Ele vinha em horários aleatórios, com um prato de comida e uma determinação inabalável.

— Você não pode ficar aqui pra sempre — ele diria, sua voz grave e firme. — Isso não resolve nada.
Eu o ignorava, me virando de costas, mas ele não desistia. Deixava a comida e voltava mais tarde. Em uma dessas visitas, ele soltou uma informação casual que me atingiu como um raio de sol.

— Luffy parece menos abatido — ele disse, com uma pontada de alívio em sua voz. — Ele voltou a comer, e até mesmo sorriu um pouco. Ele ainda não é o mesmo, mas está tentando.

Aquilo foi o que eu precisava ouvir. A culpa que eu sentia era esmagadora, mas a ideia de que ele estava se recuperando, de que a dor não o havia consumido, me deu uma ponta de esperança.
Naquela noite, Zoro entrou no meu quarto e não saiu. Ele se encostou na parede, me observando com os braços cruzados.

— Amanhã você vai sair desse quarto, Kiara — ele disse, sua voz sem espaço para argumentos. — E você vai falar com ele. Não para se desculpar, mas para dizer a verdade. A verdade sobre o que você sente. Não como um plano, mas como a sua única chance de consertar as coisas.
As palavras dele me atingiram no coração

— Eu não posso, Zoro — eu disse, minha voz baixa e cheia de incerteza. O medo de ser rejeitada novamente, de quebrar de vez a pouca esperança que ainda restava, era paralisante.

— Você pode, e você vai — Zoro respondeu, sua voz firme, sem dar espaço para dúvida.
Ele se sentou ao lado da cama, a presença dele era sólida e tranquilizadora. Ele não me pressionou, não me forçou a levantar. Apenas sentou e ficou em silêncio. Um silêncio que me dizia que ele estava ali, que ele me apoiaria, não importava o quê.

— Você vai conseguir — Zoro disse, batendo levemente nas minhas costas.
O toque dele foi um choque de realidade. Não era o beijo urgente de Luffy, nem o abraço gentil de Sanji, mas a firmeza de um amigo que estava me forçando a encarar a situação. Ele não estava ali para me consolar, mas para me dar a coragem que eu precisava para enfrentar a tempestade que eu mesma havia criado.

Naquele momento, eu soube. A única forma de consertar as coisas era encarar o que eu havia feito

Na manhã seguinte, acordei cedo. O sol mal havia nascido, e a luz dourada pintava o céu com tons de laranja e rosa. O navio estava mais calmo do que nos dias anteriores, o silêncio pesado substituído por uma tranquilidade serena. Aproximei-me da amurada e vi que o Sunny estava perto de uma ilha, sua silhueta verde e misteriosa surgindo no horizonte.
Quando cheguei ao convés, encontrei Usopp. Ele estava de vigia, um sorriso calmo no rosto enquanto observava a ilha.

— Está de vigia hoje? — perguntei, a voz um pouco rouca de tanto tempo de silêncio.

— Sim, já estamos próximos à ilha — ele respondeu, sem tirar os olhos do horizonte. — A Nami pediu para eu ficar de olho para que não tenhamos nenhuma surpresa.

— Que bom — eu disse, suspirando. A proximidade da ilha me deu uma sensação estranha de esperança e medo. O que me esperava lá? E o que eu faria?

— Vamos respirar ar novo — Usopp disse, seu tom leve e amigável. Ele se virou para mim, seu sorriso me encorajando a dar o primeiro passo

A brisa do mar agitava meu cabelo enquanto eu e Usopp observávamos a ilha se aproximar. O silêncio entre nós não era mais tenso, mas pesado com tudo o que havia acontecido.

— Kiara — Usopp disse, sua voz gentil, mas firme. — O capitão está no convés. Eu o vi.

Meu coração deu um salto. Ele estava aqui fora. Não escondido em seu quarto.

— Ele… ele está bem? — perguntei, sentindo um nó na garganta.

Usopp olhou para mim, seus olhos cheios de compreensão. — Ele está se curando, mas não sozinho. Ele precisa de você.

Eu senti as lágrimas vindo novamente, mas desta vez, eram de alívio e gratidão. Levantei-me, respirei fundo, e comecei a caminhar, meus passos hesitantes, em direção à proa do navio.

Lá estava ele, sentado no lugar de sempre, o chapéu de palha cobrindo seu rosto. A imagem dele, tão familiar, me fez parar. Ele estava vulnerável, triste, e eu era a culpada.

— Luffy — chamei, minha voz falhando.
Ele levantou a cabeça, e a tristeza em seus olhos me atingiu como um soco.No momento em que nossos olhares se encontraram, ele viu a minha dor, e eu vi a dele. Seus olhos se arregalaram, e a tristeza deu lugar a um pânico repentino. Sem dizer uma palavra, ele se levantou abruptamente e correu para o outro lado do navio.

— Luffy! — gritei, correndo atrás dele.
Ele não parou. Correu como se sua vida dependesse disso, pulando para a cabeça do Sunny e, de lá, para a cozinha. Eu o segui, mas ele já tinha desaparecido. A porta do quarto dele se fechou, e o som do clique ecoou em minha mente. Eu estava sozinha novamente.

A rejeição, a dor de ser evitada… era pior do que a raiva. Ele não estava pronto. Eu tinha que encontrar um jeito de me aproximar dele, um jeito de fazê-lo entender que eu não queria machucá-lo, que eu só queria o perdão dele.

— Ele fugiu de novo? — Usopp perguntou, vindo correndo em minha direção, sua voz cheia de uma preocupação genuína.

— Sim — eu disse, abaixando-me e abraçando os joelhos, sentindo as lágrimas voltarem.

Usopp se agachou ao meu lado e me abraçou, o gesto simples me trazendo um pequeno conforto. — Não fica assim.

— Não tem como — eu murmurei, sentindo o peso da minha culpa e da rejeição dele.

— Vamos sair na ilha, eu, você e o Chopper. Tomar um sorvete — ele disse, com um sorriso, tentando me animar. A ideia de sorvete era tão infantil e tão pura, que por um momento, a tristeza se dissipou.

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