Capítulo 66

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Pov Madalena

Depois de entrar em casa sento-me com o David ao colo no sofá da sala. Assim que o Diogo desce com o pai, depois de colocar as malas dos meninos nos respectivos quartos, peço-lhe que prepare a mamadeira com o remédio para o David.

Sei que vai ser difícil, uma guerra. Ele sempre sente o sabor, mas normalmente como está no pós-crise acaba por beber tudo. Porém, neste momento apesar de estar a estranhar o lugar, está calmo e alerta. Vai ser difícil conseguir que ele beba sem birra. Mas vamos tentar.

- Toma. Coloquei um pouco de chocolate em pó.- a nossa estratégia numero 1, quando sabemos que vai ser difícil ele beber sem birra.

- Amorzinho vamos beber um leitinho, o almoço ainda demora e a mamã não quer que fiques com fominha sim?

- Naum qué exe...- ele diz e olha para mim com uns olhinhos pequeninos...- O Davi qué exe...- Ele diz e tenta abrir a minha camisola. Ele sabe que tenho leite, e desde que tive a Sofia, ele depois de eu dar o peito á Fifi, pede-me para mamar também.

- A mamã dá depois sim. Agora o David vai beber da mamadeira.

- Naum qué...o David qué o da mamã.

- Vamos combinar uma coisa: o papá vai dar a mamadeira ao David, enquanto a mamã dá o leitinho á Fifi, ela também está com fominha.

- A fifi tá cum fominha taumbem.

- Claro que está. E depois da Fifi comer, o David pode beber leitinho da mamã, sim?

- Xim...- E assim conseguimos que ele bebesse a mamadeira com o remédio. Depois de dar um pouco de mama à Sofia, que na realidade nem estava com muita fome, dei ao David. Que mesmo resisitindo, acabou por adormecer.

- Adormeceu. Vou colocá-lo no berço da Sofia, tenho medo de o colocar na nossa cama sozinho. Dona Dulce, se ele acordar, se...

- Vão, meus amores. Eu e o Rui tomamos conta dos meninos. E pelo que a Lu me contou a Fadinha Azul aqui ao meu lado sabe como o acalmar, certo Fadinha da avó?

- Xerto Vó. Mamã a Titinha táta do Davi.- Sorrio, dou-lhe um abraço meio torto e subo até ao quarto onde a Lu está a ficar e onde a D. Dulce colocou um berço daqueles portáteis para a Sofia. Fico ali o que me parece apenas alguns segundos a olhar para o meu menino.

- Nena, vamos?!- Nem me apercebi quando o Diogo entrou no quarto. Olho para ele, e só quando ele me limpa uma lágrima percebo que estou a chorar.- Madalena, queres dizer-me o que se passa?

- Desculpa. Tem sido um dia com emoções, e ver a fragilidade do nosso menino. A verdade é que estou cansada. Muito cansada.

- Cansada?! Do David?! Madalena, tu...

- Não, Diogo. Eu amo-o. Ele é o meu menino, o nosso menino. Mas estas crises dele, este diagnóstico, o desaparecimento da Luz, o meu pai, o meu avô, o meu irmão, não saber da Clara ou da Sofia...- as lágrimas já caem em cascata, não as seguro mais...- Amor, estou a chegar ao meu limite, eu...não aguento mais. Sinto que estou à beira do abismo, e estou com medo de cair...estou com medo de querer cair.

- Madalena. Olha para mim.- ele diz sério e faz-me olhar para ele...- Eu sei que tudo isto é difícil, é complicado, é por insuportável. Achas que também não quero muitas vezes ceder ao desespero, de me deixar cair? Há dias Madalena, que o que mais me apetece é desaparecer, é pegar numa garrafa de vinho e beber para esquecer a dor. Mas, eu não posso, nós não podemos. Tu e os nossos filhos têm sido o que me faz levantar e caminhar, têm sido a razão para querer continuar a viver. Então, se e quando estiveres nesse limite, corre para mim. Eu seguro-te, eu não te vou deixar cair nunca. Eu estou aqui, sempre. Como estiveste no dia em que a Luz desapareceu e eu caí.

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