Capítulo 47

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Pov Madalena

24 horas. Este era o tempo que tinhamos que esperar.

E foram as 24 horas, mais difícieis de suportar. Foram horas, minutos, segundos, que nos fizeram andar todos num estado, em que não podíamos ver um chorar, porque todos nós chorávamos junto.

A Leonor e os meus primos vieram para o hospital também, assim como a Magui e o Guto. Foi difícil, passar por tudo de novo. A dor de a ver ali deitada sem reacção, a dor de não saber como tudo iria acabar.

Apenas a ideia de nunca a mais ter conosco, de nunca mais a ouvir a rir, a dar os seus muitos discursos para nos convencer a fazer o que ela achava que era melhor, era excruciante.

Simplesmente não me entrava na cabeça a possibilidade de ter que desligar tudo, se os exames, aqueles malditos exames fossem negativos. Eu não ia conseguir, e o pior é que a decisão não seria minha. A decisão era o do meu pai, ou melhor do meu avô. E eu sabia qual seria...e isso matava-me um pouco mais.

- Nena...- Olho para trás, como é que ela me encontrou aqui?- A enfermeira Alice disse me que teria encontrar aqui.

- Ok.- Respondo sem dizer mais nada.

- Como estás?

- Sério Nonô?! Sério que estás a fazer essa pergunta? Como é que achas que eu estou? A minha irmã está numa cama de hospital, sem dar sinal de vida, temos menos de 12 horas para um resultado que eu não sei se quero saber. Pior que isso, saber que se for positivo, a decisão vai ser da pessoa que eu mais...odeio neste momento. Está bom, ou queres mais.

- Desculpa.- olho para ela e choro.- Está tudo bem, foi uma pergunta parva, desculpa.

- Eu não a posso perder, não assim. O meu...aquele homem vai desligar a máquina sem nem pensar duas vezes.

- Tu não sabes isso, Nena é a neta dele. O teu pai também esteve meses em coma e ele nunca...

- O meu pai era filho. A Luísa é neta. Uma neta que foi contra tudo o que ele queria. Uma neta que ficou grávida e que não abortou tal como ele queria. Uma neta que se juntou a um miúdo que nem dinheiro tinha para a sustentar muito menos á filha. É isto que ele viu...e vê.

- Nena...

- Eu não posso perde-la Nonô. Eu não vou deixá-lo fazer isso. Não vou..

E abraçada á minha irmã de outra mãe desabo num choro compulsivo, e ao mesmo tempo de descompressão. Como se me estivesse a libertar de um peso enorme que de alguma forma tinha nos meus ombros. Voltamos para a sala onde a nossa família esperava as horas passarem

E naquelas malditas horas, percebi o que as famílias sofriam, à espera, naquela sala. Na sala designada de "A Sala da Família". Porém, nós, assistentes, residentes e enfermeiros tínhamos outro nome para aquele espaço: a "Sala da Morte". Porque a maior parte das vezes, infelizmente, era isso que acontecia. As famílias eram levadas para ali, à espera da morte de alguém. E por muito que a chamássemos a "Sala da família", eu sabia que se éramos levados para ali, a probabilidade de tudo dar errado era real.

A Luz e o Lucas estavam num quarto, assim como os filhos da Nono e a minha mais nova sobrinha Margarida. Com eles ficaram os meus primos mais novos, e a Suzete que se prontificou a ficar com eles após o turno dela acabar. O Paulo, entretanto falou com a direcção pedindo que me fosse dado uma licença durante pelo menos uma semana, sem prejudicar o meu internato.

Contudo, o que eles não entendiam é que estava a dar em doida ali sentada. Levantava-ma para me sentar de novo. Bufafa, suspirava, resmungava. Sentia-me claustrofobica, presa. Mesmo não estando ali há tanto tempo assim, tinha uma sensação de estar enclausurada. O Diogo conhecendo-me bem, sabia que em pouco tempo eu iria rebentar.

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