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NOTAS INICIAIS DA MORCEGA

Eu simplesmente não  acredito que cheguei no capitulo 50 desse surto aqui, não posso deixar de agradecer a cada uma de vocês que mesmo depois de um longo (BEM LONGO) hiato ainda estão aqui vivendo essa loucura comigo. 

Peguem as pipocas que o trem hoje ta longo, imaginei que fosse justo comemorar o capitulo 50 com 25k de palavras e o capitulo mais longo até agora

Um agradecimento especial para minhas irmãs, Malina e Vanessa, que me perturbaram tanto que eu decidi voltar e terminar esse caos aqui.

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A fazenda adormeceu aos poucos, primeiro, as vozes ficam mais baixas. Depois, as portas começaram a se fechar com mais cuidado. Em seguida, a louça suja sumiu da pia, os passos diminuíram, os últimos copos d'água foram servidos, as luzes do corredor sendo apagadas uma a uma, e o mundo se recolheu para desligar por completo.

No quarto em que Fairte a instalara, Eduarda se deitou cedo, porque o corpo pedia cama e a cabeça ameaçava desabar se ela tentasse sustentar mais meia hora de lucidez em pé. Tomou banho sem pensar direito, vestiu uma camisola qualquer, soltou o cabelo ainda úmido sobre os ombros e se enfiou debaixo do lençol como quem procura abrigo da própria mente.

Mas abrigo e sono não são a mesma coisa. O quarto estava escuro, só com uma faixa fina de luz vinda da varanda e pelo brilho pálido da madrugada começando a se acumular longe demais no horizonte. O ventilador de teto rodava num ritmo constante, havia o ruído discreto dos bichos noturnos do lado de fora, o estalar antigo da madeira da casa assentando, o tipo de silêncio rural que nunca é completamente vazio porque sempre existe vida em algum lugar.

Eduarda virou de um lado, depois do outro, depois de barriga para cima, encolheu as pernas, esticou. O sono não vinha, não vinha porque o corpo estava cansado, mas a cabeça estava acordada num ponto feio, ácido, cru. Ela fechou os olhos com força, como se isso pudesse forçar escuridão também por dentro. Não pôde. A primeira imagem veio inteira, nítida demais.

O consultório, o dela não, o dele. O cheiro frio de ar-condicionado, couro limpo, café antigo, perfume masculino caro demais e antisséptico. A luz acesa de um jeito branco e quase insultante sobre a bancada, a porta apenas encostada, o que já teria sido estranho se ela não estivesse atrasada e irritada demais para pensar nisso logo de cara.

A voz de uma mulher, bem baixa, mas risonha. E então a visão exata que a fizera parar ainda no vão da porta como se alguém lhe tivesse acertado o peito por dentro. O noivo, o homem com quem ela passara anos planejando casamento, casa, futuro, nome, mesa, cerimônia, lua de mel, finanças, famílias misturadas, rotina de plantão compartilhada, filhos talvez, não filhos talvez, velhice certamente. O homem com quem ela aprendera a dividir escala, restaurante, cansaço, feriado e cama.

Aos beijos com a instrumentadora. Não um beijo acidental, nem um beijo mal interpretado, muito menos um encostar de boca bêbado, impensado, indefinido. Aos beijos, a mão dele na nuca dela, a mão dela por dentro do jaleco em uma intimidade indecente e segura. O tipo de segurança que só existe quando aquilo não acontece pela primeira vez.

Eduarda sentiu o estômago embrulhar mesmo deitada na fazenda, tantos dias depois. Abriu os olhos no escuro. Por um segundo, teve a sensação física de que poderia vomitar de novo, não pelo nojo anedótico que tinha sentido imaginando a mãe e Tasso na manhã anterior, mas por aquele outro, muito mais baixo e mais devastador, o nojo de si mesma por ter demorado a ver. O nojo do toque dele, relembrado em retrocesso. O nojo da confiança desperdiçada. O nojo de ter sido, na prática, a última a saber da própria humilhação.

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⏰ Última atualização: 5 days ago ⏰

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