A fazenda recebeu a família como as casas antigas recebem os seus, Maria Eduarda foi levada para o quarto grande de hóspedes do piso térreo, o mesmo que Fairte mandara preparar assim que decidira arrancar todos do hospital e trazê-los para perto. Era o quarto mais fácil para evitar escadas, com janelas largas voltadas para o jardim lateral, duas camas de casal largas o bastante para acomodar gente demais e um sofá comprido junto à parede, coberto agora com uma colcha clara e travesseiros extras.
— Vocês duas ficam aqui! Fairte disse as netas, ajeitando a voz sem perceber que ela saía mais doce quando falava com a neta nesse estado. — Sem escada, perto de todo mundo, perto do banheiro, e juntas.
Mafe ergueu a mão no ar.
— Eu concordo com a coabitação, talvez nao com o panda, mas a coabitação, sim.
— Você vai mesmo dormir aqui comigo? Maria Eduarda perguntou, olhando para a irmã com um alívio tão imediato que Maria Fernanda nem fingiu reclamar muito.
— Vou. Deu de ombros. — Mas, se você roncar ou jogar esse panda em cima de mim, eu devolvo vocês dois pra enfermaria.
— Cookie não ronca.
— Você sim.
Enquanto isso, Simone foi finalmente convencida a se sentar no sofá da sala, com um copo de água posto na mão por Fairte, uma almofada colocada por Tasso nas costas e o olhar de Alessandro ainda pairando sobre ela como se o corpo dele não confiasse plenamente na melhora só porque ela dizia estar melhor.
— Senta direito! Fairte mandou.
— Estou sentada.
— Direita.
— Mamãe.
— Agora, Simone.
Alessandro, parado ao lado do sofá, escondeu um pequeno sorriso que Simone percebeu.
— Você também não ri.
— Eu não ri.
— Seu rosto riu.
— Talvez um pouco.
Ela revirou os olhos, cansada demais para fingir verdadeira ofensa. O corpo doía em lugares difusos, não como o de Maria Eduarda, mas havia ali um cansaço que parecia alojado nas articulações, nos músculos, nas costas, na cabeça. A suplementação endovenosa ajudara, claro, ela se sentia mais presente, mais nítida, menos à deriva. Ainda assim, o dia inteiro pesava dentro dela.
Eduarda voltou do quarto de Madu alguns minutos depois, já tendo conferido posição, medicação, dor, acesso aos remédios e o tal do Cookie devidamente instalado sem risco de sufocamento afetivo.
— Tá, a princesa e o mamífero estão devidamente assentados anunciou se jogando no sofá. — A Mafe vai ficar com ela e ninguém mexe na sopa até eu decidir o que a Simone pode comer sem me dar mais trabalho.
— Eu não sou um lactente Simone murmurou.
— Não, você é bem pior, um lactente é fofo e obedece.
Tasso, do outro lado da sala, soltou um riso baixo, Fairte, ainda irritantemente alerta a tudo, virou-se para ele.
— O senhor não incentive.
— Eu? Nunca.
Mas o sorriso dele desmentia com facilidade excessiva.
O jantar acabou se desenhando ali mesmo, na sala grande da fazenda, sem formalidade alguma. A mesa de jantar da casa ficou abandonada naquela noite porque ninguém tinha disposição emocional para o ritual, e vez disso, as funcionárias trouxeram bandejas, pratos fundos, pão, queijo, suco, talheres e montaram tudo na mesa de centro da sala de estar.
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Como 2 e 2
RomanceNunca passou pela cabeça de Simone Tebet passar por um turbilhão de emoções durante o segundo turno das eleições presidenciais, muito menos descobrir que ainda era capaz de sentir desejo e paixão por alguém. Ainda mais quando o tal alguém se trata d...
