NOTAS INICIAIS DA MORCEGA
Vocês são umas pestes, amo vocês! Apareço de novo no mesmo esquema
.
.
Pela primeira vez desde o acidente, o dia passou a se comportar como um dia de verdade. Não um dia bom, não exatamente. Ainda havia hospital demais no ar, gente demais circulando, cheiro demais de antisséptico, prontuário e café requentado. Ainda havia o corpo de Maria Eduarda lembrando o susto em cada movimento mais brusco, o cansaço de Simone pesando por baixo da melhora recente, a tensão emocional toda espalhada em silêncio sob a superfície da família. Ainda assim, havia um ritmo menos cruel.
As coisas, finalmente, paravam de acontecer todas ao mesmo tempo. Depois que Maria Fernanda chegou, levou um susto com o panda, debochou do excesso de comida, riu da mãe no soro e quase teve um colapso moral divertido ao descobrir que Fairte e Tasso tinham resolvido, de algum modo maduro e absolutamente inadmissível aos olhos das filhas e netas, se apaixonar na idade que bem entenderam, o quarto foi encontrando um eixo.
Maria Eduarda, acomodada no leito com Cookie ocupando metade do espaço digno de um paciente só, ficou mais desperta por alguns períodos, conversando com a irmã, ouvindo Mafe recontar mensagens de amigas, comentários absurdos de corredores de faculdade e pequenos dramas da vida comum, como se trazer o cotidiano para dentro do quarto fosse um jeito de lembrar ao corpo que existia futuro depois do susto.
Fairte passou da fase de pânico organizado para um estado de vigilância prática e ansiosa. Já não fazia perguntas a cada cinco minutos, mas observava tudo com a precisão de quem não pisaria em falso outra vez. Vigiava a cor do rosto de Simone. Vigiava o quanto Maria Eduarda respirava fundo quando ria. Vigiava o panda com uma espécie de irritação resignada, como se Cookie simbolizasse o ponto exato em que a vida tinha descambado de vez para o absurdo.
Tasso, por sua vez, encontrou um lugar que lhe caiu com uma naturalidade quase irritante: não se impôs, não se diminuiu, não tentou provar pertencimento nem fazer questão de distância. Ficou. Ajudou quando pediram, calou quando era melhor calar, riu quando o riso se tornava inevitável, buscou mais café, segurou bolsas, afastou cadeiras, regulou o ar-condicionado quando Fairte resmungou que o hospital inteiro devia achar normal congelar pacientes e visitantes até a alma.
Alessandro circulava entre o leito de Madu e a cadeira de Simone com uma atenção quase invisível, dessas que só se percebem direito quando se tenta tirá-las do ambiente. Ele ajeitava o travesseiro atrás do pescoço de Simone antes que ela pedisse, empurrava as flores um pouco para o lado quando o vaso improvisado ameaçava tombar, lembrava a hora do chá, da bolacha, da água, observava discretamente se a coloração dela voltava aos poucos. E, mais de uma vez, foi pego por Maria Fernanda olhando para a mãe com aquela cara de homem irremediavelmente perdido e satisfeito na própria perdição. Mafe, é claro, não perdeu a chance.
— Eu acho muito engraçado... disse em determinado momento, já sentada na ponta da cama da irmã, uma perna cruzada debaixo do corpo e um pacote de biscoito aberto no colo — como você fica com cara de cachorro de propaganda de ração quando a mamãe fecha os olhos.
Alessandro, que naquele instante realmente observava Simone apoiar a cabeça no encosto da cadeira com o soro correndo devagar, virou o rosto para a enteada improvisada com uma lentidão ofendida.
— O quê?
— É isso mesmo. Mafe apontou para ele com um biscoito. — Olha essa cara. Parece que, se ela respirar um pouco mais fundo você liga pra UTI inteira.
Eduarda, encostada na bancada pequena do quarto e olhando algum resultado preliminar no sistema, levantou a cabeça.
— Eu faria questão de entubar ele sem analgesia se fizesse isso!
VOCÊ ESTÁ LENDO
Como 2 e 2
RomanceNunca passou pela cabeça de Simone Tebet passar por um turbilhão de emoções durante o segundo turno das eleições presidenciais, muito menos descobrir que ainda era capaz de sentir desejo e paixão por alguém. Ainda mais quando o tal alguém se trata d...
