Capítulo 37

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No dia seguinte pela noite, eu, meu pai e Kara fomos jantar na casa de Isaac com sua família. Ao chegarmos lá, meu pai foi imediatamente para a sala de estar conversar com James e Rose, enquanto eu, Kara, Isaac, Lucas e Hanna jogávamos banco imobiliário na sala de TV.

Foi uma daquelas noites. Eu sei que minha mãe deveria estar ali, mas fora isso, nada mais faltava. Eu me sentia em casa com eles, me sentia à vontade, e nunca mais tinha rido com tanta leveza. A comida estava deliciosa, o clima estava agradável, a conversa fluía fácil, a brisa entrava pelas janelas. Naquela noite, me pareceu que novamente na minha vida, tudo estava certo, mesmo não estando.

No fim da noite, depois de todos termos comido, sentei-me nos fundos da casa de Isaac, em um banco do jardim e olhei as estrelas. Desejei que minha mãe estivesse ali, e fosse uma noite completa em família. Silenciosamente Rose sentou ao meu lado e repousou a mão sobre a minha.

- Nunca tudo está perfeito não é? – ela perguntou e sorria tristemente

- Do que você sente falta hoje?

- Sinto falta do Theo, meu filho mais velho. Muitas vezes penso em ligar pra ele, contar o que tem acontecido. Ele não sabe da minha doença...

- Por que não?

- Bem... Eu não sei.

- Ele tem de saber, Rose. Ele tem de voltar.

- Ele está feliz... Quando estava aqui...

- Eu sei, mas agora as coisas são diferentes. Confie em mim, ele ia querer saber de tudo isso.

Ela deu dois tapas leves em minha mão e sorriu, depois levantou da mesma forma que sentou: silenciosamente, e se retirou. Não passou nem cinco minutos depois de ela ter ido embora, meu pai sentou-se ao meu lado.

Nós não tínhamos conversado direito desde a prisão de mamãe. Ele estava estranho, eu estava estranha, estávamos todos estranhos.

- Eu quero que saiba – ele começou falando – que eu não odeio sua mãe.

- Sério? – fui irônica

- Kaya – ele virou-se mais em minha direção – Não acha que eu tenho direito de estar pelo menos chateado?

- Tem. Eu também.

- E não está?

- Eu perdi minha mãe. Perder mãe versus mentiras, perder mãe ganha.

- Eu perdi minha esposa.

- Pois é. Prioridades.

- Ela me deixou ser culpado, eu fui preso. Achei que ia morrer lá dentro.

- Agora ela vai morrer lá dentro – falei, com raiva e praticamente chorando – já é motivo suficiente para deixar de remorso.

- Kaya.

- Vocês são os adultos! – agora eu estava alterada – mas tudo está sempre sobre os meus ombros! Sempre eu que tenho de ser superior! Eu que sofro!

- Não é verdade.

- Não? Quem tem ouvido Kara? Quem tem visto ela chorar por Carlos e por mamãe? E você nem consegue perdoar seu amigo morto por ter amado ela! Parece uma criança!

- Kaya! – ele gritou, claramente irritado.

- Você acaba de arruinar minha noite – eu disse e me levantei.

Passo após passo, minhas pernas pareciam saber para onde iam. Eu apenas deixava que elas me guiassem, pois minhas lágrimas congelavam em meu rosto por causa do vento, e meu coração doía. A noite antes estava tão boa, calma, normal. Agora eu sentia um tornado dentro de mim. Minha família, minha vida, nada mais estava normal e eu acreditava que nunca mais seria. Atravessando as ruas, reparei algo que eu não via acontecer há algum tempo, as pessoas me viam, apontavam, sussurravam. Olhares de pena, medo, dúvida. Eu era a filha da assassina, e dessa vez era verdade.

Cheguei ao penhasco soluçando e com muito frio. O som do mar desacelerou os batimentos do meu coração, mas as lágrimas continuavam caindo e eu me sentia sozinha. Após meia hora ali, olhando as estrelas, ouvindo o mar e o vento, escutei passos atrás de mim e esperei o abraço apertado de Isaac. Ele me envolveu em seus braços e me aqueceu.

- Não quero voltar pra casa – eu disse.

- Eu sei – ele sorriu e me mostrou uma mochila enorme e dois colchonetes – por isso eu trouxe tudo.

Ele estendeu os colchonetes no chão, colocou uma lamparina (que eu não fazia a menor ideia de onde ele tinha arranjado) ao lado, pôs travesseiros junto aos colchonetes e também os edredons extremamente grossos. Num dia normal eu acharia loucura dormir ali, no meio do nada, mas naquela noite, parecia a coisa certa a fazer.

Então deitamos, olhando o céu extremamente estrelado, nos aconchegamos um no outro por baixo das cobertas, eu suspirei pesadamente, procurei a mão de Isaac e entrelacei meus dedos nos seus, sorri por um segundo e fechei os olhos.

- Eu te amo – sussurrei.

Senti Isaac aproximar seu rosto do meu, ele depositou um beijo em minha pálpebra e acariciou meu rosto delicadamente.


Na manhã seguinte, de café da manhã tivemos maçã, sanduíches de queijo e suco de caixa de laranja que Isaac tinha posto em sua mochila. Comi enquanto ria das histórias que ele contava, sobre Mark e Tyler em sua infância. Eu gostava de ouvir aquelas histórias, pois me davam a chance de conhecer quem ele era quando criança, e ele me encantava todas as vezes que me contava uma.

Éramos diferentes, de fato. Isaac queria o mundo, ele queria o extraordinário, aventuras, anormalidades. Eu queria uma vida pacata e sem complicações. Enquanto eu queria uma casa enorme com crianças, ele queria andar na muralha da China. Isso não me impedia de amá-lo, na verdade, o coração dele, tão diferente do meu, me fazia amá-lo mais do que um dia achei ser capaz de amar alguém. Ele era minha rocha, meu juízo, meu penhasco da paz.

- No que está pensando? – ele perguntou, depois de um tempo em que ambos ficamos em silêncio.

- Em você – falei, um pouco envergonhada.

- Coisas picantes? – ele piscou e eu ri.

- Não sou tarada como você.

Ele deu de ombros e se aproximou de mim.

- No que estava pensando sobre mim? – perguntou.

- Se eu falar você vai ficar mais convencido – sorri desdenhosa.

Ele pegou minha mão e entrelaçou nossos dedos no ar, olhando nossas mãos, balançando-as um pouco de um lado para o outro enquanto sorria.

- Eu não conseguiria ficar sem você – ele disse com a voz baixa.

- Você não tem que ficar.

- Como?

- Vamos dar um jeito – sorri e ele beijou minha mão entrelaçada na sua

- Vamos para a praia – ele sorriu pra mim – Preciso de um mergulho.


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