Capítulo 41 - Dia cinzento

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Ela não ficaria bem. Não neste momento e nem mais tarde. O meu conforto era limitado a acariciar suas mãos gélidas, fechando os olhos com força pra não ver seu choro melancólico. O céu continuava cinzento depois da fraca chuva que parecia ser o choro de todos os anjos do céu.
Sinceramente, apenas tentava cumprir o meu papel de ser sua fortaleza. E sabia que falhava por ter desmoronado na primeira lágrima que escorrera no seu rosto delicado. A realidade estava exposta. Dura de encara-la por vir acompanhada da maldita dor.

– ... Deus sabe o que faz. Passamos por tribulações devido a Seus desígnios, mas o plano do Senhor é exaltar-nos a fim de podemos voltar a viver com Ele. Vencer as provações faz parte desse plano. Procedemos adquirindo força, entendimento, fé e confiança em Deus...

O padre falava mas os soluços dela  entravam em meu âmago me consternando, mal conseguia assimilar a mensagem.

– Meu amor, por favor...

– Agora irmãos e irmãs, vamos escutar um breve elogio fúnebre em que a Srta. Hannah Watson faz questão.

Beijei as costas de suas mãos e desamassando o vestido preto Hannah se posicionou na frente do caixão o observando por segundos e recuperando fôlego secou as lágrimas com meu lenço e sorriu fraco.

– Eu a amo e sempre a amarei. Em todos esses anos eu só tenho a agradecer por Deus colocar pessoas incríveis perto de mim... Ter o privilégio de passar algumas horas com uma mulher tão sábia. Ela me ensinava de tudo um pouco. As receitas francesas, pedras preciosas e jazz. Comecei a apreciar esse estilo por conta de seus discos do Tom Benned – Hannah soltou um risinho limpando uma lágrima – apesar de tudo isso, preferia ouvi-la dizer "se tiver de fazer alguma coisa, faça, não espere. Saiba lidar com seus erros, aprenda com isto. A vida pode ser cruel e ela continua, mesmo você tendo alegrias, tristezas ou um coração partido" e eu...

Crispei os lábios sentindo os cantos meus olhos queimarem. Lidar com perdas, nunca foi uma tarefa fácil. É árdua, e dolorosa. Até o mais evoluído dos seres humanos sofre diante da perda. Porque a morte obriga você ir embora às vezes sem se despedir. Julgamos possíveis culpados, tentando, desta forma, reordenar algo que saiu repentinamente do lugar. E estamos longe de entender essa ruptura com a vida, esse abismo na compreensão humana. Coloquei a mão na ponte do nariz, deixando as lágrimas escorrerem, e era menos angustiante no momento.

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Observei o grande quadro com uma paisagem um pouco abstrata. A casa da Srta. Forman era grande com móveis monocromáticos com peças de decoração refinadas. Entreguei a xícara de chá de camomila pra Hannah e me sentei a acolhendo enquanto assoprava olhando pra um ponto fixo, perdida em sua dimensão.

– Hannah, a hora que quiser ir...

– Obrigada Nath.

A casa estava movimenta com os amigos e parentes conversando baixinho. Hannah havia falado e abraçado a maioria e tomado um analgésico pra dor de cabeça. E encostada em meu peito acariciava seu cabelo a fim de acalma-la e tirar sua tensão.

– Você então é a famosa Hannah?

Encarei o homem que aparentava vinte seis anos segurado um copo de uísque com um sorriso despojado pra quem acabou sair de um velório.

– Sim e você?

Levantamos juntos e apertando a mão dele o olhar de superioridade e interesse sobre Hannah me incomodava muito fazendo meus punhos cerrarem nos bolsos.

– Sou Gale Forman, e minha tia falava que você sempre foi adorável... Quer saber o que eu realmente acho? – ele deu um passo fazendo Hannah colidir contra meu corpo – que você é uma puta interesseira e sequer deveria ser citada no testamento de titia!

Fechei os olhos com força não querendo socar a cara daquele cretino nojento. Quem era ele pra chegar num momento de luto desrespeitando alguém que nem mesmo conhecia direito?

– O que? E-eu nunca conversei de testamento, bens ou recompensas com a Srta. Forman... Como pode...

A voz dela oscilou escondendo o rosto querendo desaparecer diante aquela vergonha.

– Olha, Gale não é? Acho que cometeu um engano e no mínimo precisa se desculpar. Não me importo de quebrar seus dentes perfeitos.

– Cara eu não te conheço. Minha conversa é com a garota.

– Mas eu não quero conversar com você! – ela cuspiu as palavras – sempre quis distância de pessoas arrogantes e gananciosas. A questão neste momento não é dinheiro e sim o quanto  você é vazio, por se importar com um monte de papel em que se pode trabalhar e ganhar de maneira limpa. Humilhar a garota que passou mais tempo com sua tia do que você não vai mudá-lo. Eu peço que se retire.

– Tudo bem... – ele arqueou as sobrancelhas demonstrando indiferença e apontou o dedo – mas
você continua sendo uma...

O resto de chá agora molhava a cara de Gale antes que ele completasse outra ofensa e queria gargalhar alto por Hannah não se abalar com injúrias.

– Babaca.

Zombei jogando um lenço na cara dele indo atrás de Hannah saindo pela primeira porta. Sentada no banco do jardim seus cotovelos estavam apoiados nos joelhos e a mão na testa. Ouvindo seus soluços me ajoelhei pra que olhasse pra mim.

– Meu pequeno raio de sol... Por favor não chore..

– Pareço uma interesseira Nath? – ela limpou as lágrimas retirando o óculos –

– Claro que não! Não dê ouvidos a um filho da puta sangue suga. Se a parte do dinheiro for verdade a Srta. Forman só queria recompensa-lá de um jeito concreto. Hannah... Você é um poço de bondade, e a todo o tempo o mundo vai querer testa-la, e não se pode esquecer quem realmente é... Tenho orgulho de estar diante de uma garota digna e merecedora...

– E-eu...

– Não precisa falar nada. Quer ir embora agora?

Concordando comigo agradeço mentalmente. Principalmente ela precisava descanso, seguido de um sono profundo. Respeitava o silêncio, deixando-a observar a paisagem esmaecida e o barulho da chuva cair na lataria e o parabrisa repetir o movimento de limpeza. Ela merecia toda a paz do mundo.

Jogada ImperfeitaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora