Capítulo 7

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Lívia

Me despedi do meu pai com muito custo. Dei-lhe um longo abraço e muitos beijos, eu sabia que ele voltaria logo, mas o amava tanto que tinha certeza de que apenas um dia sem ele se pareceria com um ano.

— Oh, acabei de me lembrar de algo. Você pode fazer um favor para mim, filha?

— Claro, qualquer coisa pai. — respondi prontamente, feliz em ser útil de alguma forma.

— Eu não vi o Demétrio durante todo o dia e acabei me esquecendo de entregar a ele a lista de compras de ração para os animais. Você pode fazer isso para mim?

— Claro, pode deixar. — aceitei de imediato, já sentindo um friozinho na barriga por saber que iria encontrar aquele bruto novamente.

— Obrigado. O papel está em cima da minha mesa no escritório.

E com um último beijo e mais um abraço forte, o observei entrar em seu carro e se afastar.

Algum tempo depois, estava sentada em um balanço feito em uma árvore que meu pai havia me mostrado mais cedo, eu esperava ver o Demétrio para entregar o recado do meu pai juntamente com a lista, que eu teria que ir em casa buscar.

Fazia uma hora desde que meu pai saiu e a cena poderia parecer com a de uma garota triste, mas eu não estava, pela primeira vez na vida, eu estava feliz, eu tinha liberdade e o amor do meu pai. Só estava sozinha.

De repente ouvi a voz de alguém atrás de mim.

— Oi, Lívia né?

Me virei em direção a voz e fiquei surpresa ao ver um rapaz aparentemente da minha idade. Ele era alto e tinha cabelos castanhos, seu rosto era muito bonito, olhos verdes e me lembrava alguém

— Oi, sim, sou a Lívia. — respondi.

— Eu sou o Frederic. Moro aqui na fazenda com o meu irmão.

— Muito prazer, Frederic. Você também trabalha aqui?

— O prazer é meu, Lívia. E não, não trabalho aqui, só o meu irmão. Não sei se já o conheceu mas ele é o capataz daqui.

— Ah, sim... Você é irmão do Demétrio...

— Sou. Já o conheceu, então?

— Sim e é uma surpresa que você não seja rude como ele.

— Ele é um pé no saco, chato pra caralho. Ele é um bom homem apesar disso.

Dei de ombros.

— Você veio de onde? — Frederic indagou.

— Eu vim da capital, e você? Nasceu aqui mesmo?

— Sim, nasci na cidadezinha ao lado.

Quando Frederic iria dizer mais alguma coisa, fomos interrompidos.

— Fredéric! — a voz que fazia meu coração acelerar soou.

— Ah, não! Cara, você enche o saco! — o rapaz falou, chateado.

— Você não terminou seus afazeres, sendo assim, não pode sair, nem dormir antes de concluir. — Demétrio exclamou, se aproximando de nós.

Mal o olhei.

— Porra. Chato do caralho. — falou bufando — Tchau, Lívia, nos vemos por ai.

— Tchau, Frederic. — acenei com uma mão e ele foi embora — Você não deveria ser tão duro assim.

— Eu cresci assim e isso me fez um homem de bem, esse garoto é muito folgado e se ele continuar assim vai virar um mal caráter. — justificou bravo, virando as costas.

— Espera! — gritei e ele parou abruptamente — Meu pai me pediu para te entregar uma lista de compras para os animais.

Ele ergueu a mão.

— Não está aqui, está lá em casa. Eu vou pegar e já volto. Ele esqueceu de te comunicar porque saímos durante todo o dia e ele não te viu.

— Minha casa é atrás do celeiro, pode ir até lá me entregar, não posso esperar agora. — respondeu, virou de costas e foi embora.

— Bruto idiota. — murmurei e caminhei para entrar em casa.

Entrei em casa, segui em direção ao escritório do meu pai e rapidamente encontrei o papel a que ele se referiu. Quando estava saindo, comecei a pensar que talvez assim eu poderia conversar mais com o Fredéric, ele pareceu ser amigável e eu nunca tive amigos.

Quando cheguei atrás do celeiro, me aproximei da única casa que vi. Era pequena, com uma varanda na frente e telhados colônias. A porta estava entreaberta, mas mesmo assim bati algumas vezes.

— Olá! — chamei, com o coração acelerado.

— Entre. — ouvi a voz dele e minhas mãos começaram a tremer.

— Com licença. — pedi antes de empurrar a porta e entrar.

Quando olhei para frente, o vi. Demétrio estava sem camisa e parecia estar malhando em algo, uma barra colocada no batente na porta entre a cozinha e a sala. Eu simplesmente não consegui disfarçar o quão fascinante era a cena. O que ele tinha de malditamente bruto, também tinha de malditamente bonito.

Novamente os pensamentos impuros voltaram.

Ele parou o exercício e ficou parado olhando para mim enquanto eu só conseguia viajar o meu olhar por todo aquele abdômen sarado e suado. Eu senti arrepios que nunca havia sentindo antes, sensações que me deixaram envergonhada comigo mesma, meu olhar estava fixo nele, quando uma palavra dele me trouxe de volta.

— A lista. — pediu, olhando pra minha mão segurando o papel.

No momento, ele tinha uma voz sussurrante e rouca que me deixou quente, enquanto estendeu a mão para que eu entregasse a lista.

Limpei a garganta.

— Aqui. — recuei alguns passos quando ele segurou o papel.

— Obrigado. — arregalei os olhos, surpresa por pela primeira vez ele não estar sendo grosseiro comigo sem motivos.

— De nada. — respondi e ele me olhou com um sorriso repentino se formando em seus lábios e nossa... Que sorriso — Eu já vou. Tchau. — me virei para sair quando sua voz me fez parar.

— Hoje terá um evento no céu. Um eclipse. Eu vou estar lá em cima. — deu de ombros, voltando a fazer o exercício que ressaltava cada pedacinho de músculo.

Assenti levemente e fui para fora, sem saber o que dizer. Será que eu havia entendido direito? Aquilo foi um convite? Ele queria que eu fosse lá em cima hoje?

Maldito Bruto (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora