Capítulo 22

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Lívia

Fiquei sem reação. A mulher doida que estava discutindo com o Demétrio e que provavelmente tinha o magoado e traído, estava ali, iria trabalhar na minha casa.

Bem que ela disse que voltaria. Será que pretendia atrapalhar minha relação com Demétrio? Mais do que certo que sim, quando prometeu voltar, foi em tom de ameaça. Eu precisava agir naturalmente porque ninguém sabia sobre nós, ainda.

— Oi. — forcei um sorriso.

— Oi, lindinha. Acho que já conheci você outro dia quando estava conversando com o meu noivo Demétrio e você chegou. Muito prazer.

Engoli em seco. Noivo?

— O Demétrio é o seu noivo? — perguntei, tentando ao máximo mascarar minha raiva.

— Sim, inclusive foi ele quem me contou da vaga. Decidimos nos casar quando descobri que estava grávida, contei tudo ao senhor Heitor e ele me deixou trabalhar aqui assim mesmo.

Cerrei os punhos, furiosa. Como conseguia ser tão mentirosa? Minha vontade era falar tudo que ela merecia ouvir, toda a verdade que o Demétrio havia me contado. Mas isso revelaria nossa relação e eu não sabia como seria a reação do meu pai sobre isso, não queria que ele descobrisse assim.

— Bom, temos um quarto vazio no andar debaixo, fica ao seu critério ficar aqui ou na casa do seu noivo.

— O que?! — quase surtei, mas percebi meu desespero e me acalmei — Quero dizer, é melhor ela ficar aqui em casa, tem mais conforto para ela, já que está grávida... — consegui soar calma.

Demétrio havia sido meu primeiro beijo, minha primeira paixão, eu ainda era imatura e insegura quanto a isso. Tinha medo que a mulher conseguisse seduzí-lo novamente.

Ela semi serrou os olhos e quando estava prestes a abrir a boca, meu pai se expressou primeiro. Fiquei grata.

— Então está decidido. Você fica aqui, também concordo que é melhor pela sua situação.

Quase fechei os olhos. Que alivio. Mas eu estava tão chateada. Meu dia havia sido tão perfeito e então Kristen apareceu para estragar o final dele.

— Papai, eu vou subir, estou cansada e não sei se vou descer para jantar, estou sem fome.

— Tem que comer sim, Lívia. Se não descer, levo um lanche para você mais tarde.

— Obrigada, pai. Você é o melhor do mundo, te amo. — dei um beijo em sua bochecha e o abracei forte.

— Eu também te amo minha princesa. — retribuiu o abraço, me beijou na testa e eu subi.

Como Demétrio reagiria a isso? E se ele tivesse uma recaída por ela? Ele passou muito tempo com ela, tiveram uma história e tanto e comigo, só estávamos no início, nos conhecendo, nem sabia se teria futuro, se eu atenderia as expectativas dele. Aqueles malditos pensamentos me trazendo a maldita insegurança e dúvidas estavam me atormentando.

Eu só queria correr para os braços dele para ouvir sair de seus lábios que eu seria suficiente.

Talvez minha infância traumática tenha me acarretado alguns complexos, como insegurança e baixa estima.

Tomei um longo banho, vesti uma blusa larga e um short, me joguei na cama até que ouvi alguém batendo na porta.

— Pode entrar! — exclamei.

— Lívia, trouxe um lanche para você, seu pai precisou sair novamente. — era Maria.

Ela entrou no quarto e colocou a bandeja em cima do criado mudo.

Maria era uma mulher muito bonita e poderia ser coisa da minha cabeça ou não as trocas de olhares entre ela e o meu pai que eu notara, e se realmente tivesse acontecendo algo, eu apoiaria totalmente. 

— Muito obrigada, não precisavam se incomodar.

— É seu pai, Lívia. Ele sempre irá se preocupar com você.

— Eu sei, sou muito grata por isso. Maria, posso te fazer uma pergunta?

— Claro! — ela sorriu, parecendo contente sentando-se ao meu lado.

— O que você sabe sobre o capataz?

— Bom, eu não sei muito, porque faz apenas alguns meses que eu comecei a trabalhar aqui, mas posso dizer que é um homem muito trabalhador e tem a total confiança do Heitor. — falou em tom de cochicho.

— Hum... E aquela mulher que chegou hoje? Você sabe algo sobre ela?

— Eu não sei nada, apenas disse que é noiva do Demétrio e que ele conseguiu a vaga para ela.

— Será que isso é verdade? Ela não parece ser confiável. — disse eu, pegando um sanduíche na bandeja, mordendo-o seguida — Ela é uma mentirosa, eles não são noivos, ela o traiu no passado.

— Você gosta dele não é? — quase engasguei.

— O que?

— Lívia, eu já percebi, e também vi vocês dois hoje quando fui colher os temperos que gosto de usar na comida, eles estão plantados perto do grande portão.

— Maria, o meu pai ainda não...

— Calma, eu não vou contar para ele. Saiba que eu apoio, vocês ficam lindos juntos.

— Que alívio... Obrigada. Não conta para ninguém ainda, por favor.

— Pode deixar, e se precisar de ajuda estou aqui. — ela sorri, pegando minha mão.

— Muito obrigada, mesmo. Espero que possamos ser amigas, eu nunca tive amigas.

— Com certeza seremos. — ela me abraça.

— Aí, Maria... Será que ela voltou para machucar o Demétrio? O que será que ela está tramando? Ele se tornou uma pessoa amarga por causa dela.

— O tempo nos dirá. Talvez ela esteja apenas precisando de um emprego. Mas o Demétrio gosta de você, e se for de verdade vocês irão suportar tudo juntos.

— Estou feliz por ter conversado com você...

— Eu também, pode contar comigo sempre. Agora preciso ir.

— Obrigada, Maria. Boa noite.

— Boa noite, princesa. — ela saiu e fechou a porta.

Havia sido tão reconfortante ter aquela conversa com a Maria, ela parecia ser uma ótima pessoa, eu esperava de verdade que ela não contasse nada ao meu pai e que fôssemos amigas. Me perguntava também se ter uma mãe que se importava seria daquela forma.

Novamente batidas na porta do meu quarto soaram.

— Pode entrar. — falei, terminando de comer o lanche.

A porta se abriu e quando olhei para a porta vi a Kristen entrando e fechando a porta atrás dela.

— O que você quer? — questionei.

— Eu vou ser direta. Eu vi você com o meu noivo.

— Ele não é... — ela me interrompeu.

— Só vou avisar dessa vez! Ele é meu! Fique longe dele sua pirralha. — quase gritou e saiu do quarto antes que eu pudesse falar qualquer coisa.

Lágrimas quentes como fogo escorreram dos meus olhos, lágrimas de raiva. Kristen estava enganada se achava que poderia me impedir de ficar com o Demétrio, estávamos nos conhecendo, eu já estava apaixonada, mas com certeza ele sentia algo por mim.

Tranquei a porta do quarto e subi para o pequeno terraço, na esperança de que Demétrio pensasse em ir até lá me ver.

Maldito Bruto (Concluído)Onde histórias criam vida. Descubra agora