Pai

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Rafael está gritando, mas não consigo ouvi-lo. Karen corre na minha direção parecendo estar devastada. Me dirige a palavra, sua voz está abafada. – Gabi, você... Olho ao redor estamos no parque da cidade, algumas pessoas que não tinha percebido antes nos olhavam com expressões curiosas. Por fim um homem desconhecido aparece. – O que você fez? Disse o homem. Olhei para ele como quem está indagando. Senti um liquido quente tocando meu lábio superior, com a língua pude sentir aquele gosto metálico característico.

Abri os olhos estava deitado de lado e meu nariz sangrava um pouco. Era bem comum isso acontecer comigo principalmente quando o tempo estava seco. 'Que merda de sonho' pensei. Eram três horas da manhã, vi assim que peguei o celular. Em seguida fui até a cozinha enrolar gelo em um pano para fazer o sangramento parar. Antes que fechasse a porta do congelador minha mãe já estava bem atrás de mim com a cara amassada de sono.

- Nossa filho! De novo com o nariz sangrando?

Fiz uma careta segurando o pano com gelo contra o nariz.

Minha mãe fez um gesto para que eu a acompanhasse. Quando decidi segui-la a vi sentada na sala. – Senta aqui no colo da mamãe. Disse ela dando tapinhas nas coxas.

Revirei os olhos e deitei. Agora observava seu rosto de baixo para cima e percebi que era assim que a via quando era criança. Ela começou a afagar meus cabelos.

- Sabe filho, eu sinto falta dele.

- Eu também. Falei. Agora ela segurava o pano com gelo, suspirou e continuou.

- Sabe que sempre pode falar comigo, digo, sobre esse assunto.

Eu apenas assenti curtindo aquele momento mãe e filho. Eu não disse nada, porque na verdade fazia tempo que não pensava no papai, que havia falecido três anos atrás. Eu já tinha superado e não queria, ou melhor, não sabia se seria legal dizer isso a ela. Não queria parecer tão leviano quanto ao luto. No começo foi horrível, tudo aquilo, o velório, o enterro, os pêsames. Eu só queria seguir em frente. Papai faleceu de câncer e foi tudo muito rápido. Em questão de meses após o diagnóstico ele nos deixara.

- Gabi?! Quando ela falou percebi que cochilara

-Sim.

- Nada não, vamos voltar a dormir.

Na manhã seguinte acordei novamente com a canção do dia anterior do Everly Brothers. Me espreguicei, estralando as costas e fui tomar banho. Fiz o de sempre tomei café vendo as noticias do jornal da manhã, minha mãe fez torradas tomamos café e saímos. Minha mãe é daquele tipo de pessoa que dirige o carro de uma forma incomoda, não errada. Então eu nem podia fazer comentário e sempre achava que ela encostava muito nos carros a frente e sempre demorava a frenar e o que me fazia pressionar os pés no assoalho do carro como se ali houvesse um pedal de freio. Depois de algumas curvas e 4 semáforos, estávamos na porta da escola. Vi Rafael na banca de revista do outro lado da rua.

- Tchau mãe, obrigado.

-Tchau meu anjo. Me deu um beijo no rosto.

Assim que fechei a porta ela saiu em velocidade média. Com certeza minha mãe seria uma ótima taxista. Atravessei a rua e Rafael se virou me observando. – Que cara de sono, man!

- Nem me fale, acordei no meio da noite com o nariz sangrando.

-Ufa pensei que não tinha dormido de tanta curiosidade.

-Quem sabe? Plantei a dúvida, porém nem estava mais lembrando daquilo até aquele momento.

- Oi meninos! Disse Karen toda sorridente.

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