À deriva

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Meu dedo pálido deslizou devagar pela lápide cinzenta de Gwendolyn Howard à medida que o vazio no meu peito ficava ainda maior, sendo acompanhado por uma profunda sensação de frustração. Endireitei-me erguendo os olhos para o crepúsculo tímido no céu de Chicago; de repente, não lembrava o motivo de estar ali. Não parecia ter sentido. Eu sabia bem o que estava procurando, isso era fato. E estar de volta naquele cemitério me fez compreender que não encontraria o que precisava em um túmulo.

Meu mundo estava despedaçado. David fez com que o chão ruísse sob meus pés. Tudo em que um dia eu já acreditei ser verdade me foi arrancado com a mesma facilidade de quem colhe uma flor e com a mesma violência de um tiro de canhão. Eu estava sem órbita, sem rumo – completamente à deriva. E precisava desesperadamente de um norte, algo que puxasse de volta para um pedaço de terra firme. Qualquer norte, qualquer pedaço de terra.

Tentei me apegar às poucas certezas que me restaram – se bem que na desorientação em que me encontrava, eu estivesse contestando até os sentimentos de Joseph por mim, o que fazia com que eu me sentisse ainda pior. Gwendolyn e Catharina foram minhas melhores amigas em vida humana; a família de Cathy, os Pennywood, ajudaram os Van der Haar a financiar as equipes de busca quando desapareci e, pelo que descobri posteriormente, as duas não pararam de infernizar os policiais da cidade mesmo depois que deram o caso por perdido. Continuaram tão amigas na velhice que seus filhos se casaram e ambas foram enterradas juntas no cemitério, feito uma só família. Lindo, mas nada que me pudesse me ajudar. Não havia meios de eu comprovar a veracidade da amizade delas por mim com um punhado de ossos.

O mesmo princípio se aplicava a Hans, embora esse fosse um caso redondamente diferente, pois não era como se eu pudesse visitar seu túmulo. Algum tempo após a morte de Hans, os Van der Haar retornaram à Dinamarca levando seus restos mortais para serem guardados na cripta da família, decididos a apagar Chicago, e sobretudo, Anneliese Masen de sua história. E ainda que pudesse ir até ele, eu não teria visitado. As maiores provas do amor de Hans por mim estavam vivas, eternizadas na minha memória pela imortalidade. E por mais que nosso amor tenha sido grande, não era o bastante para eu me apegar como âncora, porque o que restou dele vivia dentro de mim, e eu estava destruída.

O que me levava a questionar de novo a motivação que me guiou até Chicago.

Foram dias difíceis, aqueles. Na tarde seguinte à minha fuga de La Push, acordei enrolada nas redes de um navio pesqueiro com metade das minhas roupas em estado de calamidade e debaixo dos olhares encantados de uma dúzia de olhos masculinos. Logo que me livrei dessa situação constrangedora da forma mais rápida que consegui – isto é, me jogando no mar outra vez –, fui parar no Canadá e, como eu já esperava, minha dor virou raiva, o que resultou na destruição de uma parcela considerável de uma floresta ao noroeste de Port Renfrew – estranhamente noticiado na forma um princípio de furacão, apesar de não haver qualquer nuvem de tempestade no céu. A partir de então, fiz uma série de escalas até o fundo do poço; Vancouver, Kelowna, Calgary, Regina e outras muitas cidades canadenses até ir parar em Chicago, sempre assaltando lojas e deixando uma pedra preciosa como desculpas e dormindo em hotéis de beira de estrada abraçada a uma garrafa de bebida e um maço de cigarros.

Pelo menos eu não estava mais chorando. Estava farta de chorar. David não merecia uma gota sequer de minhas lágrimas.

Dei um último adeus às minhas amigas para enfim sair do cemitério de cabeça baixa no capuz e mãos escondidas no moletom preto – como se fosse possível alguém me reconhecer. Meu estômago roncou pela décima vez só naquela última meia hora e apertei a barriga enquanto seguia rumo a um McDonald's que vira a algumas quadras dali; fazia dias que não me alimentava direito. Dobrei a esquina com calma, tentando me colocar em igual ritmo de caminhada que um casal um tanto adiante, só que isso acabou por alarmá-los, afinal, eu estava com o aspecto de uma ladrazinha de carteiras das mais amadoras – os tênis gastos, o jeans rasgado e os cabelos desgrenhados não cooperavam muito para mudar essa impressão. Revirei os olhos e contornei mais uma esquina, alcançando uma avenida movimentada e localizando os arcos amarelos do McDonalds defronte para um Starbucks. Tirei todo o dinheiro que tinha nos bolsos para contar à medida que andava; cinquenta e sete dólares, o suficiente para custear uns dois bons lanches, mas eu nem ao menos cheguei a abrir a porta. O outdoor eletrônico perto do Starbucks me fez travar da cabeça aos pés, pois nele dizia que era sexta-feira.

Estrela da TardeOnde histórias criam vida. Descubra agora