Eu nem havia sacado o molho de chaves do bolso ainda quando escutei os arranhões ruidosos começando no outro lado da porta. Mal pisei no interior do apartamento e meus pés foram atacados por uma massa nervosa de pelos castanho-avermelhados, que só se aquietou ao me ver dobrar o joelho para cumprimentá-la com uma coçadinha nas orelhas amplas e caídas. Estava exausto, é verdade, mas teria que estar morto e enterrado para ser capaz de negar um afago à nossa mimada Cocker Spaniel.
— Bom dia, Ártemis. – Fiquei de pé e me espreguicei largamente, já acostumado ao som aflitivo de estralo que as costas faziam com o movimento. – Onde está a minha outra ruivinha? – indaguei, ciente de que ela me entenderia.
Precisamente como eu esperava, Ártemis disparou pelo corredor em direção a um dos quartos, de onde soava uma melodia tão conhecida para mim que chegava a ser enjoativa. Larguei minha mochila e a maleta de trabalho no sofá ao atravessar a sala e não fiquei nada surpreso por encontrar Anna incorporando a Variação de Odete pelo que estimei ser a milésima vez. Enquanto que Ártemis se deitou sobre as patas na lateral do rádio portátil, programado no volume mais reduzido para não incomodar os vizinhos, eu me recostei no batente cruzando os braços e esperei que a sequência terminasse com uma expressão de enfado.
Sendo exatamente a petulância em pessoa que era, Anna percebeu que eu a censurava, contudo ignorou de forma proposital ao ficar na ponta das sapatilhas para me beijar, os braços procurando meu pescoço com tamanha posse que não tive escolha senão responder de acordo. Estando tanto tempo juntos em um relacionamento, eu sabia que ela pretendia me amaciar, mas eu tinha aprendido com o passar dos anos a me aproveitar bem da situação e ainda assim descarregar a bronca quando necessário.
Ela se afastou de mim rindo baixinho:
— Você nunca reclamou de me ver tentar – rebateu, o nariz correndo pelo meu maxilar. – Bom dia, amor. Bem-vindo de volta.
— Querida – inclinei-me de modo a olhá-la nos olhos –, não acha que está exagerando, não?
Anna suspirou. Claro que sabia. Era inegável sua exigência excessiva consigo mesma. Não que eu pudesse tirar sua razão; ela se preparava para aquele momento desde que saímos de Forks oito anos antes, quando recebera a carta de admissão na Juilliard. Na época, eu estava celebrando minha própria conquista; tinha acabado de me formar com honras no ensino médio – apesar dos percalços – e conseguido uma bolsa de estudos integral para a New York University. Sue ficara radiante de orgulho. Após uma estrondosa festa de despedida promovida por nossos pais, Anna e eu nos mudamos para aquele apartamento modesto em um prédio de tijolos vermelhos no Greenwich Village, a poucas quadras da universidade e a mais ou menos quinze minutos do Lincoln Center, o complexo de edifícios onde a Juilliard se localizava.
Os anos que se seguiram foram desafiadores para nós dois. Conforme eu me desdobrava para dar conta das matérias e do meu emprego de meio período – sempre fiz questão de dividir as contas meio a meio, embora Anna achasse isso tolice –, ficando noite após noite em claro debruçado sobre os livros na teimosia de ser aprovado somente com notas altas, ela antecipou o máximo de disciplinas nas quais pôde se matricular e ainda conseguiu entrar para a School of American Ballet. Antes mesmo de pegar os diplomas, Anna já havia sido aceita na companhia de dança mais prestigiosa e rigorosa do país, a New York City Ballet, sendo que em torno de seis meses ela já estava brilhando com uma posição de destaque no corpo principal de bailarinos. Aquela seria sua terceira temporada como primeira bailarina, portanto ela já conhecia a emoção de dançar naquele palco como estrela do espetáculo, mas eu tinha consciência de que dessa vez seria diferente. Anna estava ficando famosa. Logo, as pessoas começariam a notar algo errado. Por mais que aquele corte de cabelo nos ombros a fizesse parecer mais velha, ela alegava ter vinte e sete anos com um rostinho fresco de adolescente. Não dava para ele se esconder atrás de mim para sempre; eu havia parado de me transformar, envelhecido por algum tempo para não levantar suspeitas, mas para tudo tinha limites. Estava mais do que na hora de retornarmos ao anonimato de La Push.
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Estrela da Tarde
FanfictionAnneliese Masen está longe de se considerar uma vampira sortuda. Ao longo de sua existência, ela já ficou sem família duas vezes, já perdeu seu grande amor e se vê prisioneira de um poder inconstante que desperta a cobiça de inimigos poderosos. Enq...
