Agarrei-me mais ao estofado do banco e, com o estômago dando voltas e mais voltas, concentrei todas as minhas forças unicamente em tentar não vomitar. Não era nada fácil. Eu podia sentir a bile queimando e entalando na garganta. Quando eu lutava para contê-la, um espasmo frio se espalhava pelo meu corpo junto de um suor pegajoso. Droga, eu tinha certeza de que estava ficando verde. Era apenas uma questão de tempo para algum deles perceber. Tentando disfarçar, me ergui e caminhei até a mesa de canto para me servir de um copo de whisky – a bebida raramente me deixava na mão e algo me dizia que não seria agora que iria falhar. Enchi um copo generoso do decantador e o entornei de uma só vez, sem gelo; o whisky desceu quente, me livrando da bile, mas não pôde fazer muito para ajudar com o suor.
Encarei de modo fixo o copo vazio enquanto o calor do álcool se espalhava devagar pelos músculos. Havia ficado um amargor na minha boca, e tive dúvidas se era por culpa do whisky. Por um segundo, tive um rápido déjà-vu, embora não houvesse uma pontinha que fosse de nostalgia para torná-lo mais suportável. Não foram poucas as vezes em que me vi daquele jeito – em uma aeronave qualquer prestes a alçar voo, e na maior parte delas a mesma sensação de vazio e angústia me engolfava. Era a raiva que fazia toda a diferença. Era a cólera que corroía como ácido, que ardia como fogo pelas minhas veias, quase a ponto de eu enxergar vermelho.
Era a raiva que me refreava também. Era um lembrete do vermelho que eu escondia. Do monstro que eu guardava a todo custo e que não podia se libertar – não ainda, não enquanto continuávamos tão próximos de casa. Forks estava a uma distância muito curta do aeroporto de Port Angeles e eu não estava nem um pouco certa sobre o que aconteceria quando perdesse o controle novamente. O monstro acabaria com eles antes que meus dons acabassem conosco? Um questionamento decisivo que eu não podia deixar a margem de erros. Se o monstro falhasse – e eu morresse antes da hora –, era muito provável que David regressasse aos Cullen e os atacasse em retaliação, deduzindo que eles tinham colaborado com aquela armadilha. Entretanto, por outro lado, se o monstro tivesse sucesso e os dizimasse... O que viria depois? Por quanto tempo meus poderes permaneceriam tresloucados, relevando a verdade aos olhos humanos? A proximidade deixava não somente os Cullen, mas também os quileutes vulneráveis. Qualquer o caminho que eu tomasse... O mais sensato era sair de Washington o quanto antes. Levar a bomba-relógio que eu virei para estourar no colo dos Volturi.
Sorri um pouco com esse pensamento; não por humor, mas sim por haver nele algo de reconfortante. Em nenhumas das alternativas considerei a possibilidade do monstro se aliar a eles. Por mais que ela tivesse atacado a minha família, por mais que tivesse ferido da forma mais cruel possível o psicológico daqueles que eu mais amava, eu sabia que ela odiava os Volturi com a mesma intensidade que eu. Podia sentir a fúria – mais dela do que minha – ebulindo para irromper a superfície, podia senti-la arranhando as grades da prisão onde eu a confinei, querendo descarregar neles toda a selvageria e a violência que a obriguei a conter desde que eu despertara.
Senti os olhos de David se demorarem no meu sorriso aparentemente inócuo conforme Jane e Alec discutiam baixinho na entrada do jato. Ele deu sinais de querer se aproximar, mas foi sábio e pensou duas, se acomodando na poltrona mais afastada com as mãos unidas sob o queixo. Não havia expressão em seu rosto, apenas uma especulação silenciosa – o que era previsível. Eu sabia que em nenhum momento David se deixara enganar pelas palavras que proferi diante dos Cullen e, francamente, eu nem esperei por isso quando tomei minha decisão. Ele era esperto demais e jamais acreditaria que desisti de tudo o que mais amava – pelo menos, não sem lutar ou sem uma razão substancial, e sendo terrivelmente curioso como era, não havia nada mais fácil para mim do que tirar vantagem de suas fraquezas.
Minha única vantagem. Que deprimente. Ter que contar com a curiosidade de um calhorda.
Suspirei e esvaziei o decantador no meu copo, satisfeita por descobrir na mesa de canto uma caixa com charutos cubanos. Não era cigarro, mas na falta deles, os charutos me bastavam – acendi um entre os lábios, ignorando o olhar reprovador que o piloto humano me atirou ao cruzar comigo rumo à cabine de comando e desabei no assento mais distante de David, a cabeça inclinada para trás.
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Estrela da Tarde
FanfictionAnneliese Masen está longe de se considerar uma vampira sortuda. Ao longo de sua existência, ela já ficou sem família duas vezes, já perdeu seu grande amor e se vê prisioneira de um poder inconstante que desperta a cobiça de inimigos poderosos. Enq...
