''Acabou pra mim. A única coisa que eu vou fazer da minha vida é esperar a dona morte me convidar pra uma dança eterna no fogo.''
POV. Abbie Liesel
A minha visão estava turva e a minha cabeça doía. Pisquei diversas vezes até abrir os olhos totalmente, fitando o teto branco daquele quarto um tanto quanto desconhecido. Funguei, fechando os olhos e me lembrando das últimas cenas que ainda estavam vivas em minha mente até eu dormir - graças ao maldito remédio que injetaram na minha veia.
O meu coração doía tanto, eu me sentia traída pela pessoa que eu mais confiei em toda a minha vida e que eu apostei todo o meu amor. Nunca pensei que Justin teria coragem de fazer uma coisa daquelas comigo, depois do tanto que eu lhe implorei pra não me internar, não me deixar nesse mar de gente louca.
Abri os meus olhos mais uma vez. A minha cabeça doía. O quarto estava um silêncio total, então, eu olhei para todos os lados, e tudo era branco. Parede, porta, janela, piso, cama, criado-mudo, absolutamente tudo era branco. Eu poderia dizer que aquele era o paraíso, ou o que eu havia finalmente morrido e chegado ao céu, mas o cheiro de remédio denunciava que eu ainda estava viva e morava no inferno.
Tentei me levantar da cama, então, escutei uma voz suave ao meu lado.
- Cuidado, senhorita Liesel! - a enfermeira disse, e eu voltei a me deitar, fechando os olhos e soltando um suspiro pesado. Além de eu estar naquele lugar, agora eu também seria vigiada? - A senhorita deseja algo?
- Cadê o Justin? - perguntei, sem olhar para o rosto daquele mulher.
- Ele está conversando com o doutor - ela disse.
- Quanto tempo eu dormi?
- 20 horas.
- VINTE HORAS? - gritei, abrindo os meus olhos e fitando aquele mulher.
- Senhorita, por favor, se acalme. Foi necessário. A senhorita tomou alguns remédios pois estava muito nervosa, você se lembra? Mas todo esse tempo foi necessário, fizemos todos os exames que preci...
- Cala a boca - murmurei, sentindo uma lágrima cair na lateral do meu rosto. - Por favor, fique quieta.
A enfermeira não disse nada mais, e a sua existência ao meu lado voltou a ficar silenciosa, como se só houvesse eu ali. As lágrimas começaram a cair pelo meu rosto sem que eu pudesse controlar, aliás, eu sentia como se não tivesse mais controle de nada. O meu corpo não estava preso - pelo menos isso - mas eu sentia um peso enorme, como se fosse impossível sair dali. Os remédios ainda me deixavam zonza, então, procurei ficar de olhos fechados sentindo as lágrimas quentes que agora ardiam o meu rosto, saírem sem controle algum.
Agarrei o lençol com a minha unha, ouvindo meus próprios soluços que eu tentava lutar pra não aumentarem. Cada vez que eu apertava o lençol, sentia meus dedos doerem, então, levantei o meu braço na altura onde eu pudesse ve-los, vendo que o esmalte preto que antes coloria as minhas unhas, havia sido tirado - bem mal, por sinal. Nos meus pulsos tinha alguns curativos, mas que não tampava o suficiente o hematoma que haviam deixado.
- Foi por conta dos exames, senhorita - a enfermeira ousou a falar novamente. Eu apenas assenti.
Eu não vestia mais a roupa que eu havia chegado naquele lugar, agora o meu corpo se escondia em um pedaço de camisola branca e fina, que estava por de baixo de um lençol também branco, que cobria o resto do meu corpo. Eu sentia como se tivessem tirado toda a minha identidade, tudo o que era eu.
Levei a mão até meu rosto, deixando o choro invadir o ambiente. Os soluços altos não doíam tanto quanto a dor que o meu peito exalava. Aquilo era tão terrível, mais terrível que qualquer pesadelo das inúmeras noites que eu já passei em claro, ou de tudo o que aconteceu naquela boate. Aquilo parecia mais perto do inferno do que tudo o que eu já vivi.
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Peacock
أدب الهواةTodas as minhas palavras estão escritas em sinais, você é o caminho que me leva para casa. Veja as chamas dentro dos meus olhos, elas queimam tanto. Talvez eu seja uma luz, querida. Nessa noite eu quero me apaixonar, eu quero fazer você confiar em m...
