OS DEUSES

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Hípias entende o conselho da Pítia.

O encontro com a Pítia deixara Hípias bastante perturbado. A magnificência do templo, a pompa da cerimônia, a visão impressionante da sacerdotisa de Apolo com sua presença quase divina, o frêmito da multidão extasiada e, acima de tudo, as palavras do poderoso deus repetidas pelos lábios da Pitonisa trouxeram-lhe uma grande exaltação. A essa nunca antes experimentada sensação juntara-se o desassossego provocado pelo estranho ruído que ecoara pelo monte Parnaso – algo como se a própria angústia gritasse a sua dor, ou como o estrondo de esperanças que se esfacelam sem aviso. Um ruído que Hípias dissera parecer o de um coração a se despedaçar. Naquele barulho como que retumbaram todas as aflições que o mundo conhece. E essa inquietação avassaladora tomara Hípias de assalto, impedindo que ele sequer ouvisse a pergunta que a mulher lhe dirigira.

- Responda, Hípias – repetiu Cimene ansiosa -, o que lhe disse a Pítia?

- Apolo falou com palavras estranhas: "Seixos devem ficar no fundo dos rios e não cogitar de habitar as altas montanhas, pois que elas são inacessíveis e importantes demais para eles."

- Que eixos? Que montanhas? Oh, Hípias, deve haver algum engano! Será que você fez a pergunta certa?

- Claro que sim, mulher! Eu me inclinei diante da sacerdotisa e falei: "Deus dos vaticínios, ensine-me como proteger minha família dos perigos que rondam minha casa!" O acólito, que interpreta as palavras que saem dos lábios da Pítia, ouviu a minha pergunta e a resposta do deus, e interpretou as palavras de Apolo Pítio exatamente como acabei de repetir. Não há engano algum!

- Mas a resposta é tão sem sentido!... Ela não nos ajuda em nada!

- Nós somos mortais e, portanto, criaturas imperfeitas. O que sabemos dos julgamentos do Mundo Superior? No momento certo, compreenderemos tudo. Tenha paciência! Confie em Afrodite! Ela não nos abandonará.

OS DEUSES DO OLIMPO – com forma humana e essência divina – falavam aos seus oráculos de modo ambíguo e reticente, o que só fazia aumentar a reverência dos seus adoradores. Dentre as divindades que se valiam de lábios humanos para dar suas mensagens e conselhos, Apolo era o preferido. Os homens acorriam ao templo de Delfos – vindos de todos os cantos da Hélade – para o privilégio de receber uma resposta da Grande Sacerdotisa, que se manifestava por entre nuvens de vapor tóxico. Nem o oráculo de Zeus, em Dodona, era tão visitado. Qual o motivo de tamanha afluência? Certamente por um atributo específico de Apolo: ele era o deus da luz, no qual nenhuma sombra se projetava, e, por isso, o deus da verdade, a divindade incapaz de dizer sequer uma mentira, sendo, portanto, o infalível Senhor das Profecias, o Senhor dos Vaticínios. Nessa atribuição, a divindade era chamada de Apolo Pítio e lhe eram consagrados o corvo, o galo, o gavião e a serpente. Também, o deus curador, que ensinava aos mortais a arte da medicina e, surpreendentemente, também o deus das epidemias e das pestes. Era, ainda, a divindade da música, das artes plásticas, da juventude, da ciência e da filosofia. Cabia-lhe, igualmente, proteger os rebanhos e patrocinar a fundação de cidades. Apesar de tantos atributos positivos, ele podia ser colérico, cruel e vingativo como todos os olímpicos.

Este filho de Zeus e da titânida Leto nascera numa ilha do mar Egeu, denominada Delos, quando sua mão lá se encontrava para fugira da fúria de Hera, a legítima mulher do Senhor do Olimpo. Além de expulsar a rival da montanha sagrada, a Deusa dos Braços Brancos a condenara a ser eternamente perseguida por uma terrível serpente. Nove meses antes do nascimento de Apolo, Leto, então refugiada na Sicília, dera à luz Artemisa, a gêmea do deus arqueiro. Zeus encantou-se por seus lindos filhos e levou-o para o Olimpo, presenteando-os com inúmeros atributos. Nove anos se passaram até que o deus dos deuses presenteasse Apolo com um resplandecente carro de ouro puxado por quatro impetuosos cavalos brancos. Dentro do carro havia um arco e uma aljava com setas, todos do mesmo precioso metal. Depois, Zeus disse a Artemisa:

- Hefesto fez estes presentes para Apolo usando o mais puro ouro que existe. Peça-me as joias que desejar, e ordenarei ao deus ferreiro que as faça igualmente lindas e preciosas.

Artemisa imediatamente respondeu:

- Não! Dê-me exatamente o que deu a Apolo. Mas ordene ao Senhor do Fogo e das Forjas que faça os meus presentes a mais linda prata. Meu irmão adora a luz, e o brilho faiscante do ouro ilumina toda a sua figura; já eu me deleito com uma luminosidade menos intensa, tal como aquela da prata. Ah!... Quero também uma túnica feita de argento, pois não me agradam as sedas e os linhos, e também uma matilha de cães ferozes que me acompanhem nas caçadas, e um grupo de lindas ninfas que me façam companhia.

Entre Deuses e MonstrosOnde histórias criam vida. Descubra agora