ORFEU E EURÍDICE

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Orfeu e sua lira

- Desça, Orfeu! Você chegou ao Inferno!

Estranhas e mágicas palavras!

Desembarcado na margem sombria do Aqueronte, envolto por uma misteriosa n, o príncipe da Trácia mal viu Caronte remar de volta para o outro lado, em busca do próximo passageiro. Ansioso, tomado de frenética urgência, procurou um caminho que o levasse para longe daquele lugar funesto. Ouviu latidos furiosos e pressentiu o perigo. Um tropel estrepitoso precedeu a aparição de um sinistro cão de três cabeças, com o manto negro eriçado, que parou a uns poucos passos de distância de onde ele se encontrava. O cão monstruoso rosnou de forma ameaçadora, exibindo suas presas afiadas.

- Cérbero, o guardião infernal – adivinhou Orfeu.

Os olhos rubros da fera brilhavam como sarças incandescentes, e uma baba espessa e fétida escorria de suas três bocas.

- Calma! Calma! – ordenou o príncipe, tentando aplacar-lhe a fúria. Desesperado, deu-se conta de que, na pressa de partir em busca de Eurídice, esquecera-se completamente de levar os bolos de cevada e mel que apaziguavam a sanha do monstro. Sem o saboroso engodo para oferecer ao cão, ele estava vulnerável, impossibilitado de contar aquela ira ambulante. A situação era grave. De repente, lembrou-se da lira que trazia consigo: o presente de Apolo cujo som subjugava todos os que o escutavam. Uma lembrança antiga voltou-lhe à memória: seu encontro com um terrível dragão que, estando a ponto de ataca-lo, caíra em sono profundo ao ouvir a melodia improvisada por ele. Se lhe fora possível derrotar um monstro tão temido, por que não Cérbero, o cão de Hades? Valia tentar. Muito suavemente, como se estivesse a tocar para fazer dançar a natureza, dedilhou uma canção que compusera para Eurídice. À medida que as notas se sucediam em arpejos inigualáveis, o guardião do Mundo Subterrâneo calou os seus latidos. A fúria que o acometia se esvaiu, e ele se deitou, apoiando suas três cabeças sobre as patas e cerrando os seis olhos. Sem parar de tocar, Orfeu passou pelo mastim pacificado e seguiu adiante. Seu coração se alegrou, pois o primeiro obstáculo fora vencido.

Uma planície nevoenta com esparsas árvores tortuosas estendia-se à frente. Estranhos lítios negros brotavam do solo rachado e árido. Um vento forte zunia sem parar e levantara o pó que cobria o chão, formando com ele pavorosos rodamoinhos. Era uma poeira fina que dificultava a respiração e machucava os olhos. Não havia cores naquela planície: tudo era cinza, uma desolação neutra pintada de meios-tons plúmbeos. Orfeu viu alguns vultos indistintos vagando em meio àquela solidão. Caminhavam tristonhos, sobraçando lúgubres buquês de lírios, penando sem rumo, sem sítio algum para onde ir. Alguns, em desespero, tapavam seus ouvidos na vã tentativa de fugir do zumbido inquietante. Aproximou-se de um deles.

Entre Deuses e MonstrosOnde histórias criam vida. Descubra agora