Pandora abre a caixa proibida.
Héracles escapou de todas as armadilhas engendradas pelas monstruosas criaturas da Hélade e, como se isso não bastasse, ainda abateu Cérbero e as éguas selvagens. Das outras abominações que tinham confabulado contra ele, encarregaram-se outros heróis. As que não tombaram trucidadas fugiram para um lugar desconhecido onde, sem dúvida, continuaram a espalhar o terror.
A Medusa teve a sua horripilante cabeça decepada pelo bravo Perseu, o trágico herói amaldiçoado e abandonado por sua família terrena, porém amado e protegido pelos deuses, de quem recebeu um elmo que o tornava invisível, um par de asas que o fazia voar o mais rápido do que voam os pensamentos e, ventura das venturas, um escudo que, como um espelho, refletia fielmente tudo o que estivesse à sua frente. E foi usando essas dádivas olímpicas que ele achou e abateu a hedionda gordona. Encontrou-a numa caverna no limite extremo da Terra e a matou após violento combate. Depois, decepou sua cabeça e percorreu toda a Hélade, exibindo-a como um lúgubre troféu. O povo se deliciou ao ver o antes temido rosto, exangue e retorcido num último e furioso esgar. Terminada a jubilosa peregrinação, Teseu presenteou Atena com o horripilante despojo, e a deusa mandou-o prensar em seu escudo.
Medeia, a bruxa da Cólquida que havia orquestrado um crime hediondo para ferir Jasão, foi implacavelmente caçada por ele. Não vendo de que outra maneira escapar da fúria incontida do herói, ela desapareceu entre grossas nuvens de tempestade, guiando sua quadriga puxada por mastins negros. A feiticeira esperava poder apagar suas pegadas da face da Terra e ficar esquecida na noite dos tempos. Não conseguiu o anonimato desejado, e seu nome, até hoje, inspira horror.
A temida e cruel Esfinge, devoradora de mortais, que tantas vítimas fizera na estrada de Tebas, esfumou-se no ar, fugindo sem deixar rastro, quando Édipo, o filho de Jocasta e Laio, reis daquelas terras, adivinhou a resposta da, até então, indecifrável pergunta que a filha de Équidna fazia aos viajantes que se aproximavam daquele reino: "Quem, de manhã, anda com quatro pés; ao meio-dia, dois; à noite, com três?" Antes da vitória de Édipo, com todos os caminhantes pagavam com a vida a sua ignorância. Resolvido o enigma, respondida a adivinha, a Esfinge, roubada da pergunta que a tornara tristemente célebre, viu-se despojada de seu poder opressor e preferiu abandonar o rochedo que habitava e sumir para nunca mais ser vista.
Da outra filha de Équidna, a apavorante Quimera – com suas três cabeças cujas bocas cuspiam veneno e com narinas que lançavam labaredas -, uma das maiores perversidades de sua época e que, de tão assustadora, parecia irreal, sabe-se que foi aniquilada por um príncipe chamado Belerofonte, que a perseguiu pelos céus, montado em um lindo corcel alado. Ela se consumiu, cozinhada em seu próprio fogo.
As harpias foram sopradas para longe do mar Egeu pelos ventos Zetes e Calais, os filhos de Bóreas, e obrigadas a se refugiar numa profunda caverna na ilha de Creta. Nunca mais voltaram aos lugares de antes.
Um a um os monstros desapareceram da Hélade e, soterrados pela poeira do tempo, desfizeram-se em lendas.
Assim também foi com os heróis: de realidade palpitante a uma existência apenas poética. Entretanto, diferentemente dos monstros, eles tombaram vítimas de si mesmos: da sua indiferença com relação à humanidade, da sua louca agressividade, da sua soberba e da sua arrogância.
Orfeu muito penou e errou, e só na morte encontrou a paz que o desaparecimento de Eurídice lhe roubara. Juntou-se à amada nos jardins floridos dos Campos Elíseos, onde a eternidade os esperava.
Teseu, o rei de Atenas, lutou muitos combates sem jamais conhecer glória maior do que o extermínio do Minotauro. Primeiro, governou Atenas com bondade, depois, como um tirano. Teve um filho com a rainha das amazonas e, mais tarde, casou-se com Fedra, filha de Minos e irmã de Ariadne. Essas bodas só lhe trouxeram desespero, dor e morte. Terminou seus dias numa longínqua ilha de localização incerta e, tal como a Medeia e a Esfinge, desapareceu sem deixar rastro. Dizem que morreu assassinado, mas não há provas irrefutáveis.
Que destino coube a Héracles, o herói dos heróis? Cumpriu seus doze trabalhos e recebeu o perdão de Zeus. Ganhou imorredoura glória que, entretanto, não lhe trouxe paz. O remorso continuou a roê-lo sem trégua. Casou-se uma segunda vez, mas, esgotado por tantos monstros e combates, não tinha muito para repartir com quem quer que fosse. Sua mulher ressentiu-se de sua indiferença, e mortificada, carcomida por um atroz ciúme, impregnou-lhe as vestes com o poderosíssimo veneno da Hidra, e o filho de Zeus – como a Quimera – ardeu até morrer. Compadecido daquela sina aziaga, o grande deus o ressuscitou, transformou-o num semideus, levou-o para o Olimpo e o sentou ao pé de seu trono.
E o que foi feito das poderosas divindades da Hélade? Reinaram por algum tempo ainda no alto da montanha sagrada, incensadas e glorificadas. Conquistaram outras terras, ganhando novos nomes e mais adoradores, até serem substituídas por um deus de uma outra fé. Suas façanhas e vinganças, seus amores, suas maquinações, suas guerras foram transformados em palpitantes e fantásticas histórias. Os templos e as esculturas que os representavam na Terra ruíram. A colossal estátua de Apolo, erguida no porto de Rodes para o eternizar, desprendeu-se de seu pedestal durante uma tempestade e desapareceu no mar. Seu oráculo calou-se. O tempo de Artemisa, em Éfeso, foi arrasado por conquistadores indiferentes à gloriosa história da deusa. Em Olímpa, um terremoto destruiu o santuário de Zeus, despedaçando a sua belíssima estátua de ouro e marfim. A magnífica Atena teve o seu templo, na cidade a ela consagrada, saqueado e arruinado. Hoje, a filha favorita a quem Zeus concedeu tantos atributos perdeu seu nome helênico e é lembrada apenas como Minerva, a divindade da justiça. Ares é tristemente recordado quando os canhões rugem e as bombas caem matando e mutilando. Das divindades olímpicas, Afrodite foi a mais afortunada: metamorfoseou se em milhões de amores pelo tempo afora, e seu fascínio ainda se faz sentir, sua beleza jamais foi esquecida, e seu nome está impregnado de magia.
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Entre Deuses e Monstros
RandomEste livro retoma o velho tema, sempre novo, costurando, com uma narrativa aparentemente casual e despretensiosa, alguns dos mais belos mitos gregos.
