Capítulo 41

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Hermione encarava sua antiga casa. Observava com atenção cada detalhe, as flores nas janelas brancas, a soleira arredondada da porta, os arbustos verdes no jardim. Mas ainda não tinha coragem de fazer nada. Nem bater na porta, nem se afastar da casa. Estava hipnotizada. Sua cabeça sendo inundada por um enxurrada de memórias. Cada Natal, cada aniversário, tudo o que já havia acontecido dentro dessa casa. Sua família.

Será que havia um jeito de ter de volta tudo isso?

Não se importava de perder tudo que consquistara até agora. Não se importava de partir sua varinha e usá-la como lenha para a lareira da casa. Ela faria qualquer coisa para ter o abraço caloroso de sua mãe de volta.

Quando finalmente tomou coragem de se afastar, seu pai apareceu na porta. Hermione sentiu seu coração disparar. Batia tão forte que ela conseguia sentir um fluxo de sangue pelo seu corpo. Era como uma marretada em seus ouvidos.

—Boa tarde. Pois não? — perguntou ele cordialmente da porta. Vestia uma camisa social bege e os óculos de armação fina marrom. Hermione contemplou por alguns segundos.

—Eu achava que conhecia as pessoas que moram aqui, mas acho que me enganei. — disse ela, sentindo um nó se formar na sua garganta. Virou-se para ir embora mas ele a chamou.

—Você sabe o nome deles? Talvez eu os conheça. Talvez morem aqui perto. Essas casas são muito parecidas. — ele disse e deu uma risada. Ela se aproximou dele então. Seus pés pareciam andar sozinhos até lá, e ela não sabia o que fazer com as mãos, ficava brincando com as próprias unhas. E suas bochechas estavam muito vermelhas.

—Eu não sei seus nomes. — ela mentiu.

—Está muito calor no sol. Quer entrar e tomar um refresco? Pode se lembrar de algo que pode ajudar na busca. — disse ele, de modo simpático.

A mãe de Hermione apareceu na porta. Hermione sentiu como se tivesse que engolir de volta seu coração, que por alguns segundos veio parar na boca. Seus olhos se encheram de água.

—O que foi, querido? — perguntou ela ao marido, se aproximando da porta.

—Esta mocinha está perdida. — respondeu ele. A mulher a olhou com simpatia. Deu um sorriso.

—Ah, é fácil se perder por aqui. Vamos, entre. — convidou ela estendendo o braço. Hermione assentiu com a cabeça e caminhou em direção a porta.

Ela fez um esforço muito grande para não pular no pescoço deles e dizer "ei, sou eu, sua filha Hermione, me desculpem ter ido embora, por favor se lembrem de mim!"

Sentou-se no sofá de camurça da sala, exatamente do mesmo jeitinho que ela se lembrava. Olhou em volta. A sala ainda estava igual, como sempre fora. Exceto que agora não havia mais fotos dela pelas paredes. Todos os quadros com sua fotografias sumiram, junto com a memória de sua existência.

Sua mãe voltou trazendo um suco de laranja e biscoitos.

—Acabei de tira-los do forno. — disse ela. Hermione sorriu. Aquele cheiro era tão familiar. A fazia voltar para a infância. — Como se chama?

—Hermione. — esla respondeu, avaliando a expressão da mulher.

Ela piscou algumas vezes e pareceu gaguejar um pouco.

—Esse nome... — disse ela quase como se fosse capaz de se lembrar. E Hermione ficou na expectativa, quase que prendendo a respiração. — Eu não sei, é muito familiar. — disse ela, ainda forçando a memória. Mas logo suavizou as linhas do rosto e deu um sorriso. —Bem, é um lindo nome.

Hermione ficou em silêncio e comeu os biscoitos. Era como estar em casa e não estar. Era um sentimento muito estranho. Ela sentiu que precisava ter feito uma pesquisa antes de sair nessa aventura.

Devia pesquisar feitiços de memória, feitiços de reversão. Devia ter feito isso em Hogwarts. Mas não podia voltar agora. Já tinha posto os pés para fora do mundo mágico, e não tornaria a colocá-los lá de novo. Precisava ver se tinha alguma coisa na sua bolsinha que pudesse ajudar.

Precisava sair dali por um instante.

—Eu acho... Eu acho que vou procurar mais um pouco. — disse ela, secando as palmas das mãos na calça.

—Boa sorte na sua busca. — disse sua mãe, com um sorriso gentil. Hermione sentiu um nó na garganta, quase como se tivesse engolido uma bolinha de tênis. Não conseguiu dizer nada, apenas balançou a cabeça e se concentrou em não chorar.

Saiu pela porta e escutou quando ela fechou atrás de si. Foi então que puxou fôlego e deixou que escapasse a primeira lágrima, depois a segunda, a terceira...

Uma pessoa se materializou em sua frente.

—Sabia que te encontraria aqui.

Era Draco Malfoy, com os braços estendidos a ela, que não conseguiu fazer nada, apenas correu até ele enrolou os braços em volta de seu corpo, se deixando ser confortada. Num súbito puxão, aparataram para um quarto num hotelzinho minúsculo em Hogsmeade, onde no térreo funcionada uma casa de chás.

—Desculpe ter fugido. — disse ela, tentando parar de chorar. Malfoy acariciava os cabelos de Hermione, que estava deitada em seu colo.

—Fiquei preocupado. — disse com a voz calma — Podia ter pedido minha ajuda. Eu teria pesquisado em todas as bibliotecas da Grã Bretanha para encontrar a solução.

—Nao quero ser bruxa. Não quero mais saber de magia. Só quero ser eu. Hermione Granger. Morando com meus pais em Londres.

Draco não soube o que responder então não disse nada. Quando Hermione adormeceu, ele a acomodou na cama, e desceu as escada para buscar um chá. Escreveu um bilhete para Ginny "a encontrei, estamos em um lugar seguro e estamos bem. Quando ela se sentir confortável voltaremos". Pediu à coruja da loja de chás que entregasse o bilhete.

Ele já tinha visto os integrantes da Ordem mandarem um daqueles patronos mensageiros, mas ele jamais aprendeu a conjurar um. Nem sequer conseguia um patrono normal, quem diria um patrono mensageiro.

Ele voltou pela escadas bambas até o quartinho. Largou a xícara de chá na mesinha de cabeceira e foi até a janela com sua varinha.

Começou a praticar. Ele cochichava as palavras para não acordar Hermione. Ele passou muito tempo tentando lançar seu patrono, mas só saiam fagulhas prateadas de sua varinha.

Draco Malfoy fechou os olhos, tomou fôlego e se concentrou.

—Expecto Patronum! — e uma linda águia saiu da ponta de sua varinha em direção ao céu azul.

—Você conseguiu! — escutou e virou-se com espanto. — Você conseguiu, Draco!

—Nao queria te acordar, me desculpe... — disse ele constrangido, por que não queria que Hermione tivesse visto tanto de seus fracassos.

—Foi uma águia espetacular! Qual foi a memória feliz que usou?

—Você. Você é minha memória feliz.

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