Prólogo

211 18 155
                                        

- Senhoras e senhores! - anunciou Mr. Bowie com a voz encantadora e o sorriso malicioso que o tornaram lendário nas ruas de Manhattan. Ele surgira do nada, como mágica - ou melhor, como mágica de verdade. O público, pego de surpresa, parou naturalmente. Afinal, não era todo dia que um homem de terno carmesim e olhos de sarcasmo puro aparecia como se caído do céu em frente ao píer turístico da cidade.

- Meu nome é Mr. Bowie, e eu vim tirar vocês do tédio. Literalmente.

Seu tom era brincalhão, mas havia algo de afiado em cada palavra. Em poucos minutos, o centro de sua atenção seria também o epicentro de um pequeno caos calculado.

O local escolhido não poderia ser melhor: turistas distraídos, um clima agradável e um barco prestes a zarpar em quinze minutos. Tempo suficiente para seu número. Tempo perfeito para o golpe.

Bowie empunhou uma colher entre os dedos como se fosse um florete, e começou seu "truque" mais banal - mas eficaz: entortar o metal com o poder da mente. O público observava, encantado. Até mesmo os mais céticos se deixavam levar pelo espetáculo, hipnotizados não pela colher, mas pela persona magnética diante deles.

- Cinquenta pratas para quem descobrir como fiz isso. - desafiou ele, piscando para a multidão com um sorriso travesso.

Era então que o plano engrenava. No meio da plateia, Bowie já havia identificado seu alvo: um professor de física de meia-idade, fã de vídeos desmistificadores de truques de mágica, obcecado por ser o mais inteligente da sala - ou, nesse caso, do píer.

E como Bowie sabia disso? Simples. Momentos antes, ele havia subornado um funcionário local que possuía a lista dos passageiros do cruzeiro turístico. Nada que algumas notas discretamente colocadas no bolso de um homem entediado pelo serviço rotineiro não resolvessem.

Todo mundo tem um preço. Se não é dinheiro, é influência. E se não é influência, é vaidade.

O professor caiu direitinho na armadilha. Avançou pelo público como um cão de caça farejando um erro. Apontou, explicou o truque com ar pedante e, claro, exigiu seu pagamento com um sorrisinho de vitória nos lábios.

- Parece que você não é tão esperto assim, "mágico". - disse ele, exagerando nas aspas, como se cravasse uma estaca.

Bowie encenou uma derrota teatral, abrindo a carteira lentamente, como se aquilo doesse em sua alma. Entregou as notas ao homem e se retirou da cena com os ombros curvados, vencido. A multidão riu. A performance parecia ter acabado.

Mal sabiam eles: o verdadeiro truque ainda estava por vir.

Ao passar por um homem de capuz nas docas, Bowie esbarrou "sem querer", murmurando um pedido de desculpas. A cena durou menos de dois segundos.

Dois minutos depois, o grito ecoou pelo ar salgado:

- Ladrão! Ei! Volte aqui!

O professor, agora pálido, tateava os bolsos. Sem carteira. Sem relógio. Sem dignidade. Bowie já estava longe, desaparecendo como fumaça enquanto o barco zarpava.

Caminhando pelas ruas em direção ao setor Norte dos cais, Bowie assobiava. Faturara fácil quinhentos dólares - sem contar o relógio suíço que renderia uma boa grana no mercado paralelo.

- Quem diria... professores ganham bem. Talvez eu devesse ter ido pra faculdade. - zombou para si mesmo, as notas já bem guardadas no bolso interno do seu paletó.

Foi então que sentiu algo estranho no bolso. Algo que ele não colocara ali.

Franziu a testa. Puxou o objeto.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora