Capítulo 39 - O Véu Rasgado

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O silêncio era um luxo que não podiam mais se permitir. O mundo parecia girar em câmera lenta, como se até o tempo estivesse se negando a acompanhar a velocidade da sua desgraça. Bowie e Daphne estavam encostados numa parede suja, o ar pesado, os corpos marcados pelos golpes recentes, as mentes a mil por hora. O plano tinha desmoronado com uma força brutal — e o que sobrava era uma mistura amarga de raiva, medo e aquela sensação gelada de que a qualquer momento tudo poderia acabar.

— Escuta, Bowie... — Daphne sussurrou, a voz arranhada, quase um fio de voz. — A gente não pode continuar correndo pra sempre.

Ele virou pra ela, olhos fundos, carregados de cansaço e uma luz que misturava desafio e desespero.

— Eu sei. Mas o pior mesmo não é a corrida... é saber que o perigo já está dentro da gente. — Ele pausou, a respiração curta, como se tentasse puxar oxigênio da própria força de vontade. — Eles não querem só me pegar. Querem apagar tudo que a gente é. Que a gente lembra.

Ela passou a mão pelo rosto, tentando afastar a dor, o cansaço, a dúvida que insistia em rastejar no peito.

— E você? Acha que vai aguentar?

Ele sorriu, um sorriso torto, carregado de cinismo.

— Aguentar? — Ele se aproximou, quase tocando o rosto dela. — Eu não sei se vou aguentar, mas sei que vou fazer eles se arrependerem de terem começado essa merda toda.

O som dos passos ecoou distante, mas estavam mais próximos. A ameaça não era mais só do lado de fora. Estava entre eles, infiltrada na própria pele.

Bowie puxou Daphne pela mão, arrastando-a por corredores tortuosos, escuridão que engolia qualquer esperança, até chegarem a uma sala abafada, onde o cheiro de mofo e ferro era quase palpável. Ali, entre caixas velhas e lembranças esquecidas, ele a encarou com a urgência de quem sabe que o tempo estava no limite.

— Eu preciso te contar a verdade, — disse ele, voz baixa, cortante. — Sobre tudo.

Daphne hesitou, sentindo o coração acelerar por razões que não sabia explicar. Era mais que medo; era a iminência do fim ou do começo.

— Eu tô ouvindo, — respondeu, a voz firme apesar do turbilhão dentro dela.

E então Bowie começou, revelando segredos que tinham o poder de destruir tudo ou salvar o pouco que ainda restava.


 — Daphne, — Bowie começou, olhando fixamente nos olhos dela, — tem coisas sobre mim que você não sabe. E coisas que talvez você não queira saber.

Ela engoliu em seco, o peso do silêncio entre eles tornando tudo mais denso.

 — Pode falar. Não tenho mais medo do que já passei.

Ele respirou fundo, como se puxasse toda a coragem que tinha guardado no fundo da alma.

 — Eu não sou só o mágico, o artista de ilusões que você conhece. — Ele balançou a cabeça, um riso amargo escapando. — Tem uma parte de mim que nem eu entendo direito. Uma parte que... que já esteve tão perdida quanto você.

Daphne franziu a testa, uma pontada de medo misturada com curiosidade.

 — Que parte é essa?

— A parte que trabalha pra eles. — Bowie sussurrou, o tom quase um segredo entre dois conspiradores. — A parte que, um dia, achou que pudesse controlar o sistema de dentro.

Ela estremeceu, o choque atravessando a espinha.

— Você... traiu a gente?

Ele balançou a cabeça com pesar.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora