A van balançava pela estrada secundária como uma caixa de sapato possuída, rasgando o amanhecer com a urgência de quem já sabia que a próxima parada era ou um novo esconderijo... ou uma sepultura improvisada.
Bowie estava no banco do carona, olhos semicerrados, dedos tamborilando no painel rachado, tentando suprimir a ansiedade que vinha crescendo no peito como uma bomba-relógio sem manual de desarme. Daphne, sentada atrás dele, mordia o lábio inferior com força, observando o retrovisor da van como se esperasse que a qualquer momento um helicóptero militar explodisse da neblina.
Valeska dirigia. E como toda boa ex-agente renegada com histórico de matar gente com clipes de papel, ela não dizia uma palavra. Apenas dirigia como se estivesse atrasada para explodir o Parlamento.
— Alguém aí pode, por gentileza, me confirmar que estamos indo para algum lugar com Wi-Fi, café e a ausência total de mísseis? — Bowie quebrou o silêncio, ajeitando a gola do casaco como quem disfarçava nervosismo com charme.
— Estamos indo para o último refúgio seguro na fronteira da Romênia. — respondeu Valeska. — Se tudo correr bem, de lá poderemos lançar a próxima fase do plano.
— E se não correr bem? — perguntou Daphne, já sabendo a resposta.
— A gente morre. — Valeska respondeu com a mesma naturalidade de quem escolhe entre açúcar ou adoçante.
— Ah, ótimo. Clássico. — Bowie bufou e se virou no banco, olhando para Daphne com aquele sorriso torto que escondia mais do que mostrava. — Pelo menos, se for pra morrer, que seja ao lado da única mulher que sabe atirar melhor do que eu minto.
— Você mente melhor do que atira, Bowie. E isso não é um elogio. — ela rebateu, mas havia calor na provocação.
Valeska pigarreou alto.
— Podem guardar o flerte para depois que cruzarmos a fronteira? Tô tentando salvar a vida de vocês e vocês aí, trocando olhares como se estivessem numa comédia romântica com metralhadoras.
— A culpa é da tensão sexual não resolvida. — Bowie murmurou.
— Eu ouvi. — respondeu Daphne, com um sorrisinho nos lábios.
Cinco horas depois.
O esconderijo parecia algo saído de um filme dos anos 70: um mosteiro abandonado, encoberto por árvores tortas, neblina e uma sensação permanente de que fantasmas cochichavam nas paredes. Valeska os guiou por um túnel lateral, abrindo uma porta camuflada com um painel de retina — que, claramente, ela roubou de algum laboratório secreto.
— Aqui é seguro. Pelo menos por algumas horas. — disse, enquanto o espaço se revelava: paredes de pedra úmida, velas acesas em suportes improvisados, e mesas cobertas com mapas, cabos e armas.
Bowie tirou o casaco, revelando uma camiseta preta colada ao corpo suado, os cabelos desarrumados de forma deliciosamente cinematográfica.
— Preciso de um banho. Ou de um exorcismo.
— Tem água. Fria. E encanamento, se você rezar direito. — respondeu Valeska, jogando uma toalha velha para ele.
Daphne caminhou em silêncio até um dos cantos do mosteiro, sentando-se em um colchonete improvisado. Seus olhos estavam distantes. Como se algo tivesse sido acionado dentro dela nos últimos dias — algo além da raiva, além do medo.
Bowie percebeu.
— Quer conversar? — ele perguntou, jogando-se ao lado dela, os ombros quase se tocando.
— E você? Quer ouvir? — respondeu ela, sem virar o rosto.
Ele não respondeu de imediato. Apenas observou o teto, as pedras envelhecidas que contavam histórias de outras guerras, outras fugas. Finalmente, ele disse:
— Se for sobre você... sim. Sempre.
Ela respirou fundo. Os olhos marejaram. Mas não cederam.
— Quando me sequestraram... quando apagaram minha memória... acho que parte de mim morreu. E agora que partes disso estão voltando, sinto como se eu estivesse me encontrando... e odiando o que vejo. Eu não queria ser parte disso, Bowie. Eu não queria ser importante. Eu só queria servir café, sorrir para estranhos, viver uma vida comum. E agora... estou aqui. Planejando uma revolução num mosteiro em ruínas.
Bowie virou-se para ela, os olhos tão sérios que doeram.
— Você nunca foi comum, Daphne. Nem quando não sabia. E sabe por quê? Porque mesmo servindo café, você olhava nos olhos das pessoas. Você via elas. E agora, você tá vendo o mundo. E mesmo com medo, você não correu. Você ficou. Você lutou. Isso é força. Isso... é extraordinário.
Ela olhou para ele. E pela primeira vez, não havia sarcasmo, nem riso, nem defesa. Apenas verdade crua.
— Por que você faz isso? — ela sussurrou. — Por que ainda está aqui?
Ele não respondeu com palavras. Em vez disso, estendeu a mão e segurou a dela.
— Porque eu te escolhi. Antes de saber. E agora que sei... não tem volta.
Mais tarde naquela noite.
Enquanto Valeska dormia com a arma no colo — como toda mulher que viveu demais —, Bowie e Daphne estavam acordados, sentados lado a lado, cercados pelo cheiro de cera, poeira e expectativa.
— Não dá pra dormir. — murmurou ela.
— Dormir é superestimado. — respondeu ele. — Além disso, eu ronco.
Ela riu. Ele se aproximou um pouco mais.
— Sabe... depois que tudo isso passar, quando o mundo não estiver explodindo... o que você vai fazer?
Ela pensou por um momento.
— Abrir uma livraria-café. Num lugar onde ninguém me conheça. Onde eu possa acordar e decidir qual livro me define no dia.
Ele sorriu.
— Posso ir lá, pedir um expresso e fingir que não te conheço?
— Só se deixar gorjeta.
O silêncio entre eles não era desconfortável. Era denso. Carregado de algo que estava prestes a acontecer.
Bowie se aproximou. Os rostos estavam a centímetros. As respirações sincronizadas.
— Se você disser não, eu paro. — ele disse, a voz baixa, quase reverente.
— E se eu disser sim?
Ele não respondeu. Apenas a beijou.
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Mr. Bowie
ActionMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
