O silêncio após a tempestade parecia um castigo tão cruel quanto o barulho dos tiros. Estavam exaustos, feridos, mas vivos — e isso, para aquele grupo, já era quase um milagre.
Bowie sentia a pulsação da dor latejando na perna, mas tentava ignorar. Ele sabia que, se cedesse à dor, perderia o controle da única coisa que lhe restava: a mente afiada, pronta para o próximo truque.
Daphne, ainda com o uniforme manchado de sangue, olhava para o horizonte pela janela suja do refúgio improvisado. Lá fora, a cidade parecia um campo de batalha abandonado, uma metáfora viva do que eles estavam enfrentando por dentro e por fora.
— É engraçado — ela disse, quase para si mesma — como a gente se torna refém de um passado que nem sempre lembra.
Bowie virou-se para ela, interessado.
— Como assim?
— A memória é uma prisão e uma liberdade — respondeu Daphne, com os olhos brilhando — Quando eu não me lembrava, estava protegida. Mas agora, sabendo demais, vivendo demais... sinto que estou sendo puxada para um abismo.
O clima pesado ficou ainda mais denso quando Valeska entrou com uma expressão que misturava cansaço e urgência.
— Temos um problema — disse, sem rodeios — O Brandt não está morto. Ele usou o caos para desaparecer. E o que é pior: ele tem um trunfo.
— Que trunfo? — Kevin perguntou, franzindo o cenho.
Valeska tirou de dentro do casaco um pequeno dispositivo eletrônico — algo que parecia um transmissor — e o segurou como se fosse a peça-chave para o fim de tudo.
— Isso aqui é um detonador remoto. Ele pode destruir tudo — e quando digo tudo, é o que resta do que a gente está tentando proteger.
O coração de Bowie acelerou, a mente imediatamente correndo para soluções possíveis.
— Então ele nos enganou. Essa foi só uma jogada — murmurou, mais para si do que para os outros.
Daphne fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando conter o desespero.
— Como a gente para isso?
Nesse instante, o silêncio do lugar foi quebrado pelo barulho seco de passos. Todos se encheram de alerta.
— Não estamos sozinhos. — sussurrou Marcus, puxando a arma.
Uma sombra se materializou na porta, revelando uma figura que Bowie reconheceu instantaneamente.
— Brandt. — ele disse, a voz baixa e cheia de ressentimento.
O homem sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.
— Surpresos? — provocou Brandt — Pensei que tinham me enterrado, mas parece que eu sou mais persistente que vocês imaginavam.
A tensão explodiu.
Valeska sacou a arma, Daphne se posicionou defensivamente e Bowie, mesmo com a perna ferida, manteve a calma.
— O jogo ainda não acabou, Brandt. — Bowie disse, com um sorriso irônico — Você pode ter suas bombas e truques, mas a gente tem algo que você não entende.
— Ah, é? E o que seria isso? — Brandt perguntou, caminhando lentamente para dentro do refúgio.
— A verdade — respondeu Bowie — A verdade que você tentou esconder.
Brandt riu, um som frio e ameaçador.
— Verdade? Vocês acham que a verdade vai libertar alguém? A verdade é uma moeda que sempre tem dois lados. O meu lado é o que manda aqui.
A conversa foi interrompida por um estrondo que fez as paredes tremerem.
O detonador? Bowie olhou para Valeska, que apenas assentiu com pesar.
— Precisamos sair daqui. Agora!
A fuga foi caótica.
Com Brandt atrás deles, o grupo correu por corredores escuros, evitando armadilhas e bloqueios.
Bowie sentiu a dor na perna explodir, mas não podia parar.
Daphne o ajudou a manter o equilíbrio, a respiração deles sincronizada em um ritmo frenético.
Quando chegaram a um ponto onde parecia não haver saída, Bowie fez algo que poucos esperavam.
Ele se virou para Brandt, tirou do bolso o velho baralho e começou a embaralhar as cartas lentamente, como se nada estivesse acontecendo.
— Pronto para o próximo truque? — ele perguntou, com um brilho nos olhos.
Brandt hesitou, confuso.
— O que é isso?
— É a única coisa que me mantém vivo quando o mundo quer me matar — respondeu Bowie.
E então, em um movimento rápido, ele lançou uma carta na direção de Brandt, que instintivamente tentou agarrá-la.
Na mesma fração de segundo, Kevin e Marcus surgiram por trás, imobilizando o inimigo.
O silêncio voltou a reinar, pesado e cheio de significado.
Bowie encarou Brandt, agora algemado e derrotado.
— Você perdeu.
Brandt riu, mais uma vez.
— Talvez. Mas vocês também não vão sair vivos dessa.
Enquanto o grupo se preparava para deixar o local, Bowie olhou para Daphne.
— Isso não acaba aqui.
Ela concordou.
— Nunca acaba.
E, naquele momento, apesar do medo e da dor, eles sabiam que estavam mais unidos do que nunca.
Porque, no fim das contas, a maior mágica era a força que encontravam uns nos outros para continuar lutando.
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Mr. Bowie
AcciónMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
