Capítulo 26 - Cartas na Manga e Corrida Contra o Tempo

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O silêncio após a tempestade parecia um castigo tão cruel quanto o barulho dos tiros. Estavam exaustos, feridos, mas vivos — e isso, para aquele grupo, já era quase um milagre.

Bowie sentia a pulsação da dor latejando na perna, mas tentava ignorar. Ele sabia que, se cedesse à dor, perderia o controle da única coisa que lhe restava: a mente afiada, pronta para o próximo truque.

Daphne, ainda com o uniforme manchado de sangue, olhava para o horizonte pela janela suja do refúgio improvisado. Lá fora, a cidade parecia um campo de batalha abandonado, uma metáfora viva do que eles estavam enfrentando por dentro e por fora.

— É engraçado — ela disse, quase para si mesma — como a gente se torna refém de um passado que nem sempre lembra.

Bowie virou-se para ela, interessado.

— Como assim?

— A memória é uma prisão e uma liberdade — respondeu Daphne, com os olhos brilhando — Quando eu não me lembrava, estava protegida. Mas agora, sabendo demais, vivendo demais... sinto que estou sendo puxada para um abismo.

O clima pesado ficou ainda mais denso quando Valeska entrou com uma expressão que misturava cansaço e urgência.

— Temos um problema — disse, sem rodeios — O Brandt não está morto. Ele usou o caos para desaparecer. E o que é pior: ele tem um trunfo.

— Que trunfo? — Kevin perguntou, franzindo o cenho.

Valeska tirou de dentro do casaco um pequeno dispositivo eletrônico — algo que parecia um transmissor — e o segurou como se fosse a peça-chave para o fim de tudo.

— Isso aqui é um detonador remoto. Ele pode destruir tudo — e quando digo tudo, é o que resta do que a gente está tentando proteger.

O coração de Bowie acelerou, a mente imediatamente correndo para soluções possíveis.

— Então ele nos enganou. Essa foi só uma jogada — murmurou, mais para si do que para os outros.

Daphne fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando conter o desespero.

— Como a gente para isso?

Nesse instante, o silêncio do lugar foi quebrado pelo barulho seco de passos. Todos se encheram de alerta.

— Não estamos sozinhos. — sussurrou Marcus, puxando a arma.

Uma sombra se materializou na porta, revelando uma figura que Bowie reconheceu instantaneamente.

— Brandt. — ele disse, a voz baixa e cheia de ressentimento.

O homem sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.

— Surpresos? — provocou Brandt — Pensei que tinham me enterrado, mas parece que eu sou mais persistente que vocês imaginavam.

A tensão explodiu.

Valeska sacou a arma, Daphne se posicionou defensivamente e Bowie, mesmo com a perna ferida, manteve a calma.

— O jogo ainda não acabou, Brandt. — Bowie disse, com um sorriso irônico — Você pode ter suas bombas e truques, mas a gente tem algo que você não entende.

— Ah, é? E o que seria isso? — Brandt perguntou, caminhando lentamente para dentro do refúgio.

— A verdade — respondeu Bowie — A verdade que você tentou esconder.

Brandt riu, um som frio e ameaçador.

— Verdade? Vocês acham que a verdade vai libertar alguém? A verdade é uma moeda que sempre tem dois lados. O meu lado é o que manda aqui.

A conversa foi interrompida por um estrondo que fez as paredes tremerem.

O detonador? Bowie olhou para Valeska, que apenas assentiu com pesar.

— Precisamos sair daqui. Agora!

A fuga foi caótica.

Com Brandt atrás deles, o grupo correu por corredores escuros, evitando armadilhas e bloqueios.

Bowie sentiu a dor na perna explodir, mas não podia parar.

Daphne o ajudou a manter o equilíbrio, a respiração deles sincronizada em um ritmo frenético.

Quando chegaram a um ponto onde parecia não haver saída, Bowie fez algo que poucos esperavam.

Ele se virou para Brandt, tirou do bolso o velho baralho e começou a embaralhar as cartas lentamente, como se nada estivesse acontecendo.

— Pronto para o próximo truque? — ele perguntou, com um brilho nos olhos.

Brandt hesitou, confuso.

— O que é isso?

— É a única coisa que me mantém vivo quando o mundo quer me matar — respondeu Bowie.

E então, em um movimento rápido, ele lançou uma carta na direção de Brandt, que instintivamente tentou agarrá-la.

Na mesma fração de segundo, Kevin e Marcus surgiram por trás, imobilizando o inimigo.

O silêncio voltou a reinar, pesado e cheio de significado.

Bowie encarou Brandt, agora algemado e derrotado.

— Você perdeu.

Brandt riu, mais uma vez.

— Talvez. Mas vocês também não vão sair vivos dessa.

Enquanto o grupo se preparava para deixar o local, Bowie olhou para Daphne.

— Isso não acaba aqui.

Ela concordou.

— Nunca acaba.

E, naquele momento, apesar do medo e da dor, eles sabiam que estavam mais unidos do que nunca.

Porque, no fim das contas, a maior mágica era a força que encontravam uns nos outros para continuar lutando.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora