Capítulo 27 - Impacto e Ruído

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O ar da madrugada estava tão pesado que parecia que alguém havia despejado um balde de chumbo sobre a cidade. Um silêncio tenso pairava, como se o mundo estivesse segurando a respiração antes da tempestade. Daphne sentiu cada fio de cabelo eriçar, o coração martelando na caixa torácica, e o cheiro de gasolina misturado com suor e metal quente queimada a garganta. O ritmo acelerado da sua respiração se chocava com o silêncio — uma contradição que apenas tornava o momento mais cruel.

A van preta, aquele casulo rústico e sujo que carregava seus últimos resquícios de esperança, parecia prestes a rachar. Os pneus rangiam contra o asfalto molhado enquanto Kevin acelerava com uma mistura de nervosismo e determinação. No banco da frente, Bowie observava o retrovisor com olhos de quem já viu a morte de perto e voltou para rir dela na cara.

— Estão atrás de nós. Dois veículos. Armada até os dentes. — Kevin falou, voz baixa, quase um sussurro. Mas a tensão em suas palavras transformava aquilo num grito.

Bowie segurou a mochila com força, as mãos tremendo só um pouco — o resto era pura adrenalina, essa velha companheira que ele tanto odiava e amava. Daphne apertava a mochila contra o corpo, os olhos brilhando com uma mistura estranha de medo e coragem — a mesma que só quem já esteve à beira do abismo conhece.

— Tem que ser rápido. Tem que ser preciso. — Bowie murmurou, mais para si mesmo do que para os outros, tentando se convencer de que não seria o fim.

A rua estreita se encolhia à medida que eles avançavam, os prédios antigos se fechando ao redor como as paredes de um caixão. As luzes dos faróis dos carros que os perseguiam cortavam a escuridão como garras afiadas.

— Kevin, prepara aquela manobra que você chamou de "dança da morte". — Bowie disse, voz firme, tentando impor um pouco de controle na confusão que se instalava.

— Você quer morrer? — Kevin retrucou, mas já se posicionava para o que viria a seguir.

O primeiro carro estava quase em cima deles, disparando rajadas de balas que ricocheteavam nas paredes e na lataria da van. As faíscas voavam para todo lado, a sensação de perigo era concreta, quase palpável.

— Segura firme, Olga. — Bowie chamou Daphne pelo codinome que usavam para manter o foco e o humor em meio ao caos.

Ela enfiou a cabeça entre os joelhos, tentando reduzir o impacto das balas — o coração quase saltando para fora do peito. O som era ensurdecedor: tiros, motores, pneus cantando.

De repente, a van fez uma curva brusca, derrapando sobre o asfalto molhado, espalhando fumaça e fazendo a lataria ranger em protesto.

A caminhonete blindada apareceu à direita, um monstro de ferro que parecia determinado a esmagar tudo.

— Entra no beco! — Bowie ordenou.

Kevin virou a van para um beco estreito, mal dando espaço para o veículo passar. O motor da caminhonete rugiu, mas logo foi atingido por um pulso elétrico. Um pequeno dispositivo EMP lançado por Kevin que deixou o veículo atrás deles sem energia, os faróis piscando até apagarem no breu da noite.

— Isso compra tempo! — Kevin exclamou, respirando ofegante.

Mas o segundo carro não desistiu. Era uma SUV preta, daquelas que pareciam projetadas para o fim do mundo, e dele saltaram vários homens armados, que rapidamente cercaram a van, se espalhando como predadores famintos.

— Caiam fora! — Bowie gritou, puxando Daphne para fora, a mochila ainda firme contra o corpo dela.

Eles correram pela calçada, zigzagueando entre carros e lixeiras, enquanto balas zuniam ao redor, rasgando o ar com uma ferocidade quase cruel.

Bowie puxou Daphne para trás de um muro destruído, ofegantes, os olhos brilhando de pura adrenalina.

— Isso é o que eu chamo de festa de boas-vindas. — disse Bowie, tentando aliviar a tensão com ironia.

— Acho que a gente não é exatamente convidado especial, né? — Daphne respondeu, engolindo em seco.

Um homem alto, robusto, com um rifle de precisão, apareceu na SUV, mirando-os com uma calma assustadora.

— Esse é o alvo? — perguntou ao comparsa.

— Sim. Prioridade máxima. — Responderam.

Bowie sacou uma pequena bomba de fumaça e a jogou no chão. Uma cortina densa explodiu ao redor, cobrindo a fuga deles com uma névoa espessa.

— Agora! — Bowie gritou, correndo.

O som das balas se perdeu na fumaça, e eles aproveitaram para escalar uma escada enferrujada que dava acesso ao telhado de um prédio baixo.

De cima, Bowie observou a confusão na rua. Os homens armados estavam desorientados, procurando através da névoa, tentando organizar a caçada.

— Precisamos de um plano. Agora. — Daphne disse, olhos fixos na movimentação abaixo.

— Tenho algo na manga. — Bowie respondeu, retirando um detonador improvisado da mochila.

— Explosivos? — Daphne arregalou os olhos.

— Se vamos sair daqui, que seja com estilo. — ele sorriu, com aquele brilho insano no olhar.

Kevin subiu para o telhado, rádio em mãos, ansioso.

— Vocês vão explodir tudo? Posso ajudar?

— Vem comigo. — Bowie chamou.

Eles se posicionaram, o silêncio da madrugada preenchido pela tensão do que estava prestes a acontecer.

Bowie acionou o detonador.

O estrondo foi monumental. O prédio ao lado do beco explodiu em uma bola de fogo, chamas e destroços voando para o céu como fogos de artifício apocalípticos.

Os homens armados se dispersaram, confusos e feridos, enquanto Bowie, Daphne e Kevin desciam pelo telhado e desapareciam nas sombras da cidade.

Mas a vitória foi curta.

No rádio, uma voz fria cortou o silêncio:

— Código vermelho. O alvo fugiu. Inicie a busca máxima.

Eles estavam longe de estarem seguros.

E Bowie? Ele só sorriu, com o fogo refletindo em seus olhos. O truque final ainda estava por vir.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora