Capítulo 15 - Pólvora e Perfume

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O som abafado de sirenes distantes começava a romper o silêncio da floresta. Bowie estava com os pulmões em chamas, mas a adrenalina era mais teimosa que seu sistema respiratório. Daphne, agarrada a ele como uma mochila emocional de cinco sentidos, tentava manter o equilíbrio enquanto corriam entre árvores e galhos que mais pareciam dedos zombeteiros da natureza.

— Sabia que eu preferia morrer do que correr uma maratona? — resmungou ele, ofegante.

— E eu achando que você treinava fuga como um esporte olímpico.

— Treinava! Mas em boates, com salto agulha e seguranças bêbados. Era mais fácil.

Eles chegaram a uma clareira onde, em teoria, deveria estar estacionado o veículo de fuga: um velho Fusca pintado de preto fosco com um adesivo de "Jesus te ama" colado na traseira. Mas no lugar dele, havia... nada.

— Kevin. Aquele filho da... — Bowie não terminou. Soltou o palavrão em um assobio longo. — Aposto que foi tomar um chá de erva-doce e esqueceu que a gente ia morrer hoje!

Daphne se encostou em uma árvore, tentando recuperar o fôlego e, principalmente, entender o que ainda fazia viva.

— E agora, Houdini?

Bowie tirou da jaqueta um espelho de bolso. Se encarou por dois segundos. Bagunçado, sujo, com o olhar de um coelho que viu o açougueiro. Suspirou.

— Agora a gente improvisa. Ou seja: vai dar ruim.

Antes que Daphne pudesse perguntar o que significava "dar ruim", o som de helicópteros estourou no céu como trovões sincronizados. Refletores começaram a varrer o chão da floresta, e uma voz robótica ecoou pelo megafone:

— ORDEM DE PARADA. VOCÊS ESTÃO EM ÁREA RESTRITA. PARADOS IMEDIATAMENTE OU USAREMOS FORÇA LETAL.

— Olha só... que gentis. — Bowie sorriu, sarcástico. — Dão escolha e ainda usam caps lock.

Ele puxou Daphne pela mão, e voltaram a correr como se estivessem em um episódio de Looney Tunes. Entraram em uma trilha que parecia um túnel de galhos. As luzes dos helicópteros não os alcançavam ali, mas os passos atrás deles, sim. E vinham em duplas. Militares. Armados. Mal-humorados.

— Sabe o que é engraçado? — disse Daphne, sem fôlego.

— Que a gente fugiu de uma prisão subterrânea de segurança máxima e vai morrer porque o Fusca não veio?

— Isso. Exato.

Eles saíram da trilha em uma encosta íngreme. Abaixo, um rio. Raso. Pedregoso. Mortal para qualquer um com pretensões de manter o esqueleto intacto.

— Me diz que você sabe nadar. — Daphne encarou Bowie.

— Eu sou mágico, não sapo.

— E agora?

Bowie olhou para os lados, depois para cima, depois para o fundo dos olhos dela. Sorriu.

— Agora você confia em mim.

E pulou.

Daphne xingou todas as entidades divinas disponíveis antes de seguir o idiota. O impacto foi cruel, mas os dois emergiram tossindo, vivos — molhados como dois ratos em um batismo forçado.

Bowie girou no rio como se estivesse fazendo aula de hidroginástica em um SPA soviético e alcançou a margem com esforço. Daphne veio logo atrás, escorregando como uma foca atrapalhada.

— Isso... foi... horrível! — gritou ela, cuspindo água e lama.

— Mas dramático. Imagine isso num filme francês: "Le Fugue de la Mort".

Eles estavam fora da mira, por enquanto. Escondidos embaixo de uma ponte velha, com cheiro de ferrugem e musgo. O som dos helicópteros agora era abafado pela estrutura de concreto acima.

— Acha que conseguimos despistar? — perguntou ela.

— Não. Mas acho que acabamos de ganhar cinco minutos extras de vida.

Daphne encostou-se à parede da ponte. Bowie vasculhava sua mochila encharcada, procurando alguma coisa útil. Tirou um baralho, um chiclete amassado e... um nariz de palhaço.

— Isso era pro disfarce alternativo. Plano C. O plano "circo". Esquece.

— Por que um mágico tem um nariz de palhaço?

— Longa história. Envolve um cassino em Las Vegas, um cavalo e um padre bêbado.

Ela riu, mesmo com o corpo doendo inteiro. Por algum motivo, Bowie sempre encontrava uma forma de quebrar o clima de desespero com absurdos.

— E agora?

— Agora a gente precisa se transformar em sombras. Ficar invisíveis. Misturar-se à multidão.

— Mas não tem multidão. Só árvores.

— Detalhes técnicos.

Ele tirou da mochila dois pequenos frascos com um líquido escuro. Jogou um para ela.

— Tinta vegetal. Pinte o rosto. Vira camuflagem tribal. Os militares adoram. Dá até um certo respeito.

— Achei que fosse mágica.

— Isso é o que você pensa. Mágica é convencer um exército inteiro de que não viu ninguém fugir.

Depois de maquiados como guerreiros do Apocalipse, seguiram pela mata até encontrarem uma estrada de terra batida. Nada ao redor. Nenhum sinal de carro.

— Espere. Escute. — Bowie levantou a mão.

Um motor. Forte. Barulhento. Um caminhão velho vinha pela estrada com a traseira coberta por uma lona. Ao volante, um senhor de idade avançada, óculos grossos e boina militar.

— Transporte agrícola. — Bowie sorriu. — Nossa nova carruagem real.

Ele correu até o meio da estrada e acenou freneticamente. O caminhão parou com um rangido de freios vencidos pela idade.

— Precisamos de carona. — gritou Bowie. — É urgente.

— Estão molhados. Isso é sangue? — perguntou o senhor.

— Suco de beterraba. Longa história. Salvamos uma plantação.

— Entrem.

Na traseira, havia sacos de batata, caixas com ferramentas e um rádio tocando uma música folclórica alemã que parecia uma mistura de polca com ameaça.

— Parece minha infância. — comentou Daphne.

— A minha também. Exceto pelas batatas e a parte em que eu quase morro.

Enquanto o caminhão os levava para longe, Bowie olhava pela fresta da lona, conferindo se estavam sendo seguidos. Por sorte, não. Ainda não.

— Quando você vai me contar o que realmente está acontecendo? — perguntou Daphne.

Bowie olhou para ela. Suspirou. Depois sorriu, com aquele mesmo olhar de quem estava prestes a contar uma mentira muito convincente ou uma verdade que doía.

— Quando estivermos em um lugar seguro. Prometo. Mas posso te adiantar que você é muito mais importante do que imagina.

— Isso é pra me fazer sentir melhor?

— É pra te manter viva. E talvez... me manter são.

Ela sorriu. Por um segundo, esquecendo o frio, a dor, a perseguição.

— Você já teve uma vida normal, Bowie?

— Tive um cachorro chamado Elvis. Comia meus sapatos. E um peixe chamado Steve. Ele me ignorava. Isso conta?

— Conta. Eu tive um hamster chamado Ruffles. Fugiu da gaiola e se escondeu dentro de um rádio. Virou música ambiente por duas semanas.

Eles riram. O caminhão seguiu pela estrada poeirenta, com dois fugitivos sujos, molhados, e ainda assim... vivos.

Por enquanto.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora