O frio da madrugada parecia morder a pele de Bowie como se a noite estivesse disposta a engoli-lo inteiro. O céu estava encoberto, engolindo as estrelas e deixando apenas o brilho mortiço das luzes da cidade lá embaixo. Eles corriam pela cobertura dos prédios, saltando de telhado em telhado, os passos abafados apenas pelo som das batidas aceleradas dos corações.
Kevin, apesar da idade, mantinha um ritmo surpreendente. Daphne tentava acompanhar, mas a mistura de cansaço e adrenalina começava a cobrar seu preço. Cada respiração saía curta, o corpo reclamava, mas o perigo era maior que a exaustão.
— Vocês dois conseguem manter o ritmo? — Kevin perguntou, sem olhar para trás, como um comandante experiente.
— Só preciso de um minuto para respirar direito — Daphne respondeu, arrastando as palavras.
— E eu preciso de um cigarro. — Bowie riu, mas sua voz tremia.
Eles chegaram a uma esquina da cobertura, de onde podiam observar a movimentação policial abaixo, cercando o quarteirão inteiro. A fumaça da explosão ainda se erguia como uma lembrança flamejante da confusão.
— Estamos encurralados — Bowie admitiu, puxando o casaco para se proteger do vento cortante.
— Isso não é novidade — Daphne respondeu, com a voz firme. — Mas não vamos morrer aqui.
Kevin pegou um binóculo antigo do bolso e mirou na movimentação da polícia. Viu os agentes se espalhando, lanternas cruzando o espaço, cães farejadores farejando desesperados.
— Eles sabem que estamos perto — disse Kevin, preocupado. — Se ficarmos parados, é o fim.
Bowie olhou para a rua, para o beco onde quase foram capturados, e para o vazio atrás deles. A única saída era aquela, um salto mortal para o prédio ao lado, que parecia tão longe quanto um salto para a liberdade.
— Vou pular — ele anunciou, olhando para Daphne.
— Espera — ela respondeu, puxando-o pelo braço. — Temos que pensar antes de virar notícia de jornal.
Mas Bowie já estava preparando a corrida para o salto. O olhar dele era determinado, um fogo que só quem já encarou a morte com um sorriso no rosto conhece.
— No três — ele avisou, concentrado.
— Um, dois, três!
Ele correu, cada passo um trovão abafado, e saltou. Por um momento, o tempo pareceu desacelerar. O vento assobiava em seus ouvidos, o chão se aproximava rápido demais, e os olhos dele focavam apenas na linha do horizonte.
Ele bateu no telhado do prédio ao lado com um baque surdo, rolou no chão para amortecer o impacto e imediatamente se levantou, ofegante, mas vivo.
Daphne e Kevin seguiram logo depois, um salto atrás do outro, apesar do medo visível em seus rostos.
— Isso foi... insano — Daphne disse, recuperando o fôlego.
— Insano é o que precisamos ser — Bowie respondeu, com um sorriso torto.
Eles correram pelos corredores estreitos do prédio abandonado, evitando vigias, lanternas e câmeras antigas. Cada passo era uma dança perigosa, cada sombra uma ameaça.
— Aqui — Kevin apontou para uma escada que descia para um porão — é nosso próximo ponto.
Lá embaixo, um espaço esquecido pelo tempo, repleto de caixas empoeiradas, restos de mobiliário e silêncio mortal.
— Hora do plano B — Bowie sussurrou, tirando de sua mochila uma pequena caixa cheia de ferramentas, cabos e dispositivos eletrônicos.
— Você realmente tem um equipamento para tudo, não é? — Daphne comentou, olhando incrédula.
— Sou um mágico, lembra? Sempre preparado para o improvável — ele respondeu, enquanto conectava fios a um painel elétrico enferrujado.
Enquanto Bowie trabalhava, Kevin ficava na vigilância, olhando pela fresta da porta. Daphne, de olhos atentos, monitorava os sons da rua acima.
— Temos aproximadamente 15 minutos antes que os reforços cheguem — Kevin avisou, tensão evidente.
— É o suficiente — Bowie garantiu, concentrado — para o truque final.
Uma sirene distante começou a soar, sinalizando que a polícia intensificava as buscas.
— Agora ou nunca — Daphne murmurou, sentindo o coração acelerar.
Bowie apertou um botão no painel, e as luzes do porão se apagaram instantaneamente. O prédio inteiro mergulhou na escuridão.
— Escuridão é a melhor amiga do mágico — ele disse, sorrindo no breu.
Em seguida, um ruído baixo começou a crescer: um zumbido elétrico, como se o prédio inteiro estivesse acordando de um sono profundo.
— Ativando o sistema — Bowie explicou.
O painel começou a emitir faíscas, e então, um blackout tomou conta de toda a vizinhança. As luzes das ruas se apagaram, os carros estacionados ficaram parados como sombras.
No rádio, vozes desesperadas:
— Falha geral! Luzes caíram em toda a área! Procedam com cuidado!
A ausência de energia transformou a perseguição numa caça às sombras. Sem câmeras, sem holofotes, a polícia perdeu a vantagem.
— É nossa chance! — Bowie exclamou, puxando Daphne e Kevin para fora do porão.
Eles correram pelos becos, agora seguros na penumbra, seus passos quase silenciosos.
— Isso não vai durar muito — Kevin alertou —, eles já devem estar acionando geradores.
— Tempo é nossa moeda agora — Bowie respondeu, olhando para o céu que começava a clarear com os primeiros raios de sol.
Enquanto avançavam, Bowie sentiu o peso da mochila, o pulso acelerado, e um misto de medo e excitação.
— Você tá pronto para o que vem depois? — Daphne perguntou, a voz suave mas cheia de intensidade.
Bowie parou, encarou-a, e respondeu com sinceridade rara:
— Pronto? Nunca se está. Mas sei que não posso mais fugir. A mágica verdadeira está em enfrentar o impossível de frente.
Ela sorriu, e juntos seguiram adiante, sabendo que o relógio não parava, e que o próximo ato da revolução estava só começando.
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Mr. Bowie
AksiMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
