Capítulo 10 - Magia na Selva e Mosquitos Traidores

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Avião fretado. Voo noturno. Coordenação secreta. E um homem que insistia em vestir terno em clima tropical. Mr. Bowie observava sua gravata borboleta refletida no vidro da janela enquanto o jatinho sobrevoava o norte do Brasil, atravessando nuvens carregadas com a mesma leveza de quem invade um cassino disfarçado de padre.

— Você vai desmaiar em dois minutos — disse Daphne, largada na poltrona ao lado, de bermuda e regata, abanando o rosto com um leque improvisado feito de documentos confidenciais.

— Estilo, minha cara. Estilo é a última defesa do homem contra o caos. Se vamos entrar numa base secreta no meio da floresta amazônica, o mínimo que posso fazer é parecer digno.

— Digno? Você parece um maître perdido em uma rave no mato.

— Você diz isso agora, mas quando eu sumir com um helicóptero usando apenas um guarda-chuva, vai reconsiderar.

Do outro lado da cabine, Copérnico encarava os dois como se fossem seu pesadelo favorito. Estava há 32 horas sem dormir, alimentando-se apenas de café e ameaças burocráticas.

— Ao pousarmos, vocês dois vão desligar os egos e entrar no personagem. Estão como turistas da Unesco, investigadores de campo sobre impacto de pequenas comunidades em zonas florestais. Se alguém perguntar mais, digam que estudam rãs.

— Adorei. Sou apaixonado por rãs. Vou me apresentar como herpetólogo e tudo — Bowie tirou um óculos escuros da mochila e colocou com pompa. — Hudson Lake, PhD em baba de sapo.

— Você é uma ameaça ao conceito de missão secreta.

O pouso ocorreu numa pista escondida no coração do Pará, onde a floresta parecia engolir tudo, exceto um pequeno jipe camuflado estacionado ao lado de uma cabana. Um homem os esperava: camisa do Corinthians, barba de lenhador e olhos que diziam "já matei uma pessoa com um lápis".

— Agente Figueiredo — se apresentou. — Vocês devem ser os fantasmas gringos.

— Gringo só ele — disse Daphne, apontando para Bowie. — Eu sou meio brasileira, metade torta.

— Bom, torto aqui sobrevive mais. — Figueiredo riu seco. — Vamos.

Durante o trajeto pela mata, o grupo foi engolido pela umidade, pelo barulho constante de insetos e por uma trilha que parecia tirada de um filme de terror com orçamento duvidoso. Daphne suava como se tivesse saído de uma sauna e Bowie já tinha desistido do paletó, amarrando-o na cintura com a resignação de um aristocrata em fuga.

— Estou pegando dengue em HD — murmurou.

— E essa é a parte fácil da missão — completou Figueiredo. — O laboratório fica numa área isolada, disfarçada como centro de pesquisa para reflorestamento. Mas o que eles tão fazendo lá é tudo, menos plantar árvore.

— E como entramos? — perguntou Daphne, séria.

— O instituto tem uma feira de apresentação aberta a pesquisadores convidados. Vocês dois vão como parte de uma ONG que analisa dados climáticos. Copérnico já plantou as credenciais.

Bowie ergueu uma sobrancelha.

— Vamos nos infiltrar numa feira científica? Espero que tenha algodão doce.

— Se tiver, desconfie. Pode ser anestésico — disse Figueiredo, seco.

Dois dias depois, estavam lá. Mr. Bowie com uma camisa havaiana que dizia "Estou de férias", Daphne com um visual "estudante de mestrado visionária" e Figueiredo com uma prancheta e uma cara de poucos amigos. O evento era pequeno, com cerca de 50 pessoas e várias tendas. Tudo muito limpo, muito educado, muito... mentiroso.

— O laboratório fica atrás daquele refeitório improvisado — cochichou Figueiredo. — Entrada só com cartão biométrico. Mas conseguimos isso. — Tirou do bolso um cartão de acesso e um pequeno frasco.

— Isso é... graxa de carro? — perguntou Daphne, franzindo o nariz.

— Gel de impressão. Vai usar pra simular a digital do engenheiro-chefe. Só funciona por alguns minutos. E só uma vez.

— Ah, adoro pressão — murmurou Bowie, examinando o cartão.

— Às 14h, eles fazem a troca de turno. Vai ser a sua brecha. — Figueiredo olhou para os dois como se estivesse entregando sua coleção de figurinhas da Copa a duas crianças hiperativas.

Bowie estalou os dedos.

— Hora do espetáculo.

Às 13h59, estavam nos fundos do refeitório. Daphne vigiava com um walkie-talkie que mal pegava, Figueiredo fazia cobertura do outro lado da tenda, e Bowie, bem, ele estava ajoelhado diante do leitor biométrico como se fosse uma máquina caça-níquel.

— Vamos, meu amor, reconheça esse dedo de artista — sussurrava enquanto pressionava o polegar contra o sensor coberto de gel.

Um bip. A luz ficou verde.

— Ha! E dizem que mágica não existe!

A porta abriu com um chiado discreto. O interior do laboratório era climatizado, repleto de servidores, tanques de líquido criogênico e telas que mostravam sequências genéticas e mapas cerebrais. Bowie assoviou.

— Bom, isso é um laboratório maluco mesmo. Esperava menos brilho e mais poeira, mas... estou impressionado.

Ele começou a vasculhar terminais enquanto Daphne acessava os computadores principais. O arquivo sobre Quimera estava ali, em todo seu horror: um plano de usar nanopartículas para alterar comportamentos, reduzir agressividade em populações, manipular tendências políticas. E pior: estavam testando em campo.

— Eles começaram a fase de implantação. Em três vilas experimentais próximas — disse Daphne, lendo a tela.

— Isso aqui é o inferno disfarçado de ONG — disse Bowie.

— Copia tudo. Vamos explodir isso no noticiário, nas redes, na Deep Web. Em qualquer lugar que ainda tenha um pingo de vergonha.

— Você vai me fazer chorar de orgulho revolucionário — disse Bowie, enquanto conectava seu pen drive camuflado dentro de um batom.

Foi então que ouviram passos. Vários.

— Eles sabem. — Bowie puxou Daphne. — Vai, plano B. Qual é o plano B?

— Você não planejou um plano B?

— Claro que planejei! — Abriu um compartimento na parede que havia identificado antes. — É só que ele envolve... improviso.

Eles saíram do laboratório como sairiam de um espetáculo: com fumaça, luzes piscando e, claro, uma explosão controlada.

— VOCÊ COLOCOU EXPLOSIVOS?! — gritou Daphne enquanto corriam pela mata.

— SÓ UMA CHARGE DE MAGNÉSIO! — respondeu Bowie, rindo. — É como fogos de artifício para adultos paranoicos!

Figueiredo apareceu em um quadriciclo, jogando capacetes para os dois.

— Vocês atraíram a atenção de Deus e do mundo. Hora de sumir!

— Estamos ficando bons nisso — disse Daphne, subindo atrás de Figueiredo. Bowie montou no outro quadriciclo e acelerou com a habilidade de quem já fugiu de cinco cassinos, três prisões e um casamento arranjado.

Enquanto o som dos helicópteros inimigos crescia atrás deles, Daphne olhou para Bowie e sorriu. Sujos, suados, em alta velocidade no meio da floresta, com uma conspiração mundial dentro de um batom e o FBI possivelmente os marcando como terroristas.

E, mesmo assim, ela estava se divertindo.

— Vai dizer que isso não é vida?

— Só falta um bar de jazz e um coquetel na mão — gritou ele de volta.

— Depois disso, você pode escolher a música.

E ele escolheu: assoviou o tema de Missão Impossível enquanto desapareciam mata adentro, rindo como dois lunáticos que aprenderam que salvar o mundo, afinal, também podia ser divertido.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora