Capítulo 22 - Máscaras Que Caem

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O ar na saída do núcleo de comando era pesado, impregnado do cheiro de fumaça, metal queimado e suor frio. O sistema havia caído, mas o caos tomava conta do subterrâneo: explosões distantes sacudiam o solo, e o som de botas pesadas ecoava pelos corredores escuros.

Bowie, Daphne, Valeska e o pequeno grupo dos "Espelhos" correram como fantasmas apressados, cada passo um desafio contra o tempo e contra os inimigos invisíveis que surgiam a cada curva. O baralho de Bowie parecia ter ficado em casa — ali, só restava a vontade de sobreviver.

"Não podemos simplesmente sair correndo," murmurou Valeska, puxando uma pequena pistola da cintura. "Eles vão tentar bloquear todas as saídas."

— Então o que fazemos? — perguntou Daphne, já cansada, o rosto marcado pela mistura de poeira e adrenalina.

Raul, o líder dos desertores, fez um gesto para que todos se detivessem. Ele puxou um mapa antigo, iluminado pela luz fraca da lanterna presa ao seu capacete.

— Temos uma saída alternativa — disse ele, apontando para um ponto no mapa, uma passagem esquecida que levava para uma antiga estação de metrô abandonada, agora em ruínas. "Se conseguirmos chegar lá, podemos despistar o cerco."

Bowie olhou para o grupo. Os olhos de cada um carregavam uma mistura de exaustão e determinação.

— Essa é a hora do truque final — disse ele, com um sorriso torto. — Ou a gente some, ou a gente faz essa cartola explodir de vez.

O grupo se pôs em movimento, seguindo Raul pelo labirinto de túneis, alguns iluminados apenas pela luz trêmula de suas lanternas. A passagem estreitava-se, obrigando-os a andar em fila indiana, sempre atentos a qualquer som.

— Você já se perguntou se tudo isso vale a pena? — Daphne perguntou baixinho, quase para si mesma.

Bowie parou por um segundo, pensando.

— Vale. Não pelas pessoas que somos, mas pelas pessoas que podemos ser — respondeu, olhando para o teto da mina, onde pequenas gotas de água caiam lentamente, marcando o tempo.

Eles passaram por salas antigas, grafites de protestos esquecidos, máquinas paradas e corredores que lembravam passagens de filmes de terror. O silêncio era só interrompido pelo som dos passos e pelo eco de suas próprias respirações.

Quando chegaram à bifurcação indicada por Raul, uma sombra surgiu do nada.

— Quem vai lá? — uma voz rouca ordenou.

Antes que alguém pudesse responder, uma luz forte iluminou a passagem e um grupo de soldados apareceu, armados e fechando o cerco.

Bowie sentiu o coração acelerar, mas não deixou transparecer o medo. Ele engoliu em seco, tirou do bolso o baralho, como quem prepara o palco para o grande espetáculo.

— Hora de brilhar — murmurou para si.

Os soldados avançaram. Raul e os "Espelhos" abriram fogo, enquanto Daphne puxava sua pistola e tentava proteger Valeska, que corria para ativar um pequeno dispositivo eletrônico que poderia bloquear as comunicações inimigas por alguns minutos.

No meio do tiroteio, Bowie correu para um canto escuro e, com a destreza de quem vive no limite, arremessou cartas afiadas que cortavam o ar, derrubando dois soldados. Cada carta era um golpe preciso, um truque mortal.

Mas o inimigo era numeroso.

Daphne gritou:

— Fiquem juntos! Não deixem que nos separem!

Com o barulho das armas e os tiros que ricocheteavam pelas paredes, a tensão chegava ao limite. Um soldado mirou em Bowie, mas Valeska, com um tiro certeiro, o derrubou antes que ele pudesse disparar.

— Valeu! — Bowie gritou, puxando Daphne para se esconderem atrás de uma coluna.

— Isso não vai acabar bem — disse ela, a voz tensa.

Mas Bowie tinha outros planos.

— Olha isso. — Ele mostrou uma pequena granada com um timer improvisado, feita de restos e engenhocas. — É o meu último truque. Se nos pegarem aqui, vamos fazer essa mina tremer mais do que bailarino de samba em final de campeonato.

Raul avisou:

— Cinco minutos até o reforço chegar. Precisamos sair daqui já.

— Eu dou um jeito — Bowie respondeu, com um brilho nos olhos.

Enquanto Daphne e Valeska protegiam o perímetro, Bowie se infiltrou por um corredor lateral, buscando o ponto onde poderia usar a granada para abrir uma rota de fuga.

No caminho, encontrou uma sala com monitores e um painel de controle. Aquelas máquinas já não funcionavam direito, mas Bowie percebeu algo estranho: em um canto, um arquivo aberto com o nome "Operação Eterno Espectro".

Ele não pôde resistir. Clicou no arquivo.

Na tela, uma série de documentos expunham um plano muito maior do que eles imaginavam: uma operação secreta para criar uma rede de controle global, utilizando memórias apagadas e tecnologia de manipulação genética. O verdadeiro objetivo por trás da Área 66 não era só controlar desertores, mas moldar o futuro da humanidade.

Bowie sentiu um calafrio.

— Isso é... muito maior do que pensávamos.

Mas o tempo não esperava.

Com a granada nas mãos, ele ativou o timer e correu para a saída. Atrás dele, o som dos passos inimigos aumentava.

— Tempo para o truque final — murmurou, e lançou a granada para trás, numa curva perfeita.

A explosão sacudiu o túnel, derrubando paredes, cortando a passagem e criando uma cortina de poeira.

O grupo aproveitou a confusão para fugir, correndo em direção à antiga estação de metrô, já quase tomada pela escuridão e o silêncio.

Quando finalmente alcançaram a superfície, o sol já começava a nascer, tingindo o horizonte de laranja e dourado. O ar fresco da manhã parecia uma promessa de recomeço.

Mas Bowie sabia que a batalha ainda estava longe do fim.

— As máscaras estão caindo — disse ele, olhando para o céu — e a verdadeira face do inimigo ainda está por vir.

Daphne respirou fundo.

— Então que venha. Estamos prontos.

E assim, com o baralho novamente nas mãos, Bowie se preparava para o próximo ato — porque na guerra das ilusões, a verdade é sempre a maior mágica.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora