Capítulo 34 - Palhaçada Interrompida

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Bowie ainda estava nu da cintura para cima quando a porta explodiu.

Literalmente. Madeira voando, uma nuvem de poeira, e um pedaço de dobradiça quicando até acertar a testa de um dos ratos de concreto que moravam no canto do esconderijo.

Daphne, que segundos antes estava aninhada ao peito suado e absolutamente satisfeito de Mr. Bowie, rolou para o lado com reflexo de guerra.

— Maldição! — gritou ela, puxando o colete para cobrir o corpo. — NEM DEPOIS DO SEXO A GENTE TEM SOSSEGO?!

Bowie ergueu-se do colchão sujo com a dignidade de um nobre francês em trajes de guerra. Pegou a pistola de volta, apontou em direção da fumaça e resmungou:

— Podia pelo menos ter deixado a gente fumar um cigarro depois, não?

Do outro lado da nuvem, surgiram figuras encapuzadas. Três. Quatro. O quinto tropeçou em um pedaço de ferro solto. Bowie aproveitou para atirar sem pensar muito. O som ecoou como sinos de igreja anunciando uma missa cheia de palavrões.

Daphne, agora de volta à postura de combatente de elite, pegou o coturno e o arremessou com tanta força que quebrou o nariz de um dos invasores.

— Primeiro o jantar, depois a trepada, só então a tentativa de homicídio! Existe UMA ORDEM NATURAL!

Eles correram para a passagem dos fundos. Bowie não perdeu a chance de pegar o baralho, um frasco de óleo inflamável e... a cueca. Porque dignidade tem limite.

Ao saírem por um corredor estreito, Daphne gritou:

— Val, onde está VOCÊ?!

Nada. Silêncio.

— Valeska? — insistiu Bowie. — Por favor, não me diga que a nossa fada madrinha anti-sistema virou purê de gente.

Uma explosão menor respondeu. Era dos fundos. Onde estava o arsenal.

Eles seguiram o som com os passos pesados e o coração na garganta.

Mas o que encontraram não era Valeska estirada no chão. Era... Valeska sorrindo. Sim, sorrindo como uma psicopata que acabou de descobrir que pode usar lança-chamas em um batizado.

Atrás dela, três corpos caídos. Fumaça saindo de um canhão improvisado com tubos de exaustão e gasolina.

— Vocês demoraram. Achei que tinham morrido se amando. — disse ela, enquanto ajeitava a boina militar com sangue nos dedos.

— Estávamos tentando isso mesmo. — respondeu Bowie. — Mas fomos interrompidos por um grupo de idiotas sem timing narrativo.

Valeska apontou para a escada.

— Mais estão vindo. Não são do governo. São... do circo.

Daphne piscou.

— O quê?

— Isso mesmo que ouviu. O Circo Rubrum. A facção independente. Mercenários com cara de palhaços e um apreço especial por caos.

Bowie arregalou os olhos.

— Você tá me dizendo que estamos sendo caçados por terroristas de nariz vermelho?

Valeska entregou uma máscara de gás para cada um.

— Sim. E eles estão usando gás do riso. Letal. Mata de dentro pra fora, com espasmos de gargalhada.

— Isso... é horrível. — murmurou Daphne.

— Isso é poesia em forma de sadismo. — completou Bowie. — E sinceramente, um pouco genial.

Eles seguiram em três para o último setor do abrigo: a sala de transmissão.

— O plano é divulgar os dados antes que os palhaços nos esmaguem com tortas de napalm. — disse Valeska, enquanto digitava um código de 16 dígitos em um teclado coberto de sangue.

— Isso é tudo muito "Black Mirror em dia ruim" — comentou Bowie.

O painel acendeu.

— Restam 3 minutos para a transmissão completa. — avisou uma voz digital.

— Três minutos. Facção de palhaços armados. Gente morrendo de rir. E você sem camisa. — disse Daphne, encarando Bowie.

Ele deu de ombros.

— Eu trabalho bem sob pressão.

A parede explodiu.

Três figuras pularam para dentro, todos usando máscaras de palhaço com dentes afiados pintados, olhos iluminados por LEDs vermelhos.

Um deles carregava um martelo.

O segundo, um buquê de rosas que soltava faíscas.

O terceiro... uma risada que não era humana.

— SR. BOWIE! — gritou o primeiro, com voz fina. — VOCÊ NOS DEVE UM SHOW!

Bowie atirou primeiro.

A bala passou de raspão.

— EU NÃO FAÇO ANIVERSÁRIOS!

Valeska empurrou Daphne para a lateral e lançou uma granada de luz. O clarão deixou todos momentaneamente cegos. Exceto Bowie, que não via nada desde que decidiu viver como um lunático profissional.

O painel piscava: 1:12 restantes.

Bowie pulou sobre a mesa, usando o baralho como cortina de fumaça (com gasolina aplicada previamente) e derrubou um dos palhaços com uma cabeçada.

— Quem diria que o nariz de palhaço é ótimo ponto de mira! — gritou.

Daphne atirava com precisão cirúrgica. Cada bala, uma gargalhada interrompida. Cada passo, um pulo na direção da sobrevivência.

— 00:47 restantes. — repetiu a voz do sistema.

Valeska plugou o transmissor final.

— Preciso de proteção por trinta segundos.

— Trinta segundos é uma eternidade num quarto com palhaços homicidas! — respondeu Bowie, derrapando na poça de sangue e jogando um dos palhaços contra a parede.

Outro surgiu do teto. Literalmente. Desceu pendurado por fios como um trapezista do inferno e tentou acertar Daphne com um taco de beisebol decorado com purpurina.

Ela desviou, pegou o taco no ar e cravou nas costelas do inimigo.

— CIRCO É O C******!

O painel apitou.

— 00:05... 00:04...

— Segurem firme! — gritou Valeska, pressionando o botão.

— 00:01...

— Transmissão iniciada. Dados sendo distribuídos.

O silêncio veio como um tapa.

Bowie respirava ofegante, ajoelhado entre os corpos dos palhaços.

Daphne caiu sentada, rindo nervosa.

Valeska sorriu, o sangue escorrendo da testa.

— Concluído.

— E agora? — perguntou Daphne.

— Agora... — disse Bowie, levantando-se com dificuldade, pegando o espelho do bolso — Agora a mágica final. Vamos desaparecer.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora