Capítulo 20 - O Jogo das Máscaras

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A floresta parecia sussurrar segredos antigos enquanto Bowie, Daphne e Valeska seguiam em silêncio, cada passo uma aposta, cada respiração um desafio. O frio da madrugada mordia a pele, mas o verdadeiro gelo estava nos olhos de cada um — atentos, calculistas, prontos para o que viesse.

— Precisamos encontrar um lugar seguro — disse Valeska, sem olhar para trás. — Alguém já deve ter acionado o alerta. Eles vão vir atrás da gente com tudo.

Bowie observava a sombra de um sorriso se formar no canto dos lábios dela, uma máscara de serenidade que escondia a tempestade por dentro. Ele sabia que por trás daquele olhar havia histórias que jamais contaria, dores que jamais curaria. E mesmo assim, eles tinham que confiar nela — ou pelo menos fingir que confiavam.

— E o plano? — perguntou Daphne, com a voz firme, pronta para qualquer tempestade.

— O plano é simples: sobreviver. Depois disso, a revolução pode esperar. — Valeska parou e retirou do bolso um pequeno dispositivo, parecido com um relógio, que piscava luzes vermelhas intermitentes. — Isso aqui é uma granada de pulso eletromagnético. Se a coisa ficar feia demais, podemos usar para apagar as câmeras e derrubar os sistemas de comunicação da região. Dá um tempo para sumirmos.

Bowie assentiu, guardando sua habitual ironia para momentos menos tensos.

— E onde vamos? — Daphne insistiu.

Valeska apontou para o norte, onde uma cordilheira de pedras formava uma muralha natural.

— Existe uma antiga mina abandonada. Nunca foi explorada direito, o governo esqueceu dela — disse. — Se conseguirmos chegar até lá, podemos nos esconder e planejar nosso próximo passo.

Eles começaram a andar com mais rapidez, acelerando o passo enquanto o ruído distante de helicópteros e veículos militares começava a perfurar o silêncio da madrugada.

Enquanto avançavam, Bowie puxava da mochila seu baralho. As cartas eram seu amuleto e sua arma, um símbolo de que mesmo em meio ao caos, a ilusão podia ser a última verdade. Girava as cartas entre os dedos, praticando movimentos que mais pareciam dança.

— Sabe o que eu acho? — disse ele, quebrando o silêncio.

— O quê? — respondeu Daphne, olhando desconfiada.

— Que estamos todos usando máscaras. Uns mais literais que outros. — Ele tirou do bolso um nariz de palhaço e o colocou no rosto, provocando um sorriso relutante em Daphne. — Eu, por exemplo, finjo que tudo isso é só um truque, uma performance. Valeska finge que não tem medo. E você... você tenta ser forte mesmo quando quer gritar.

Daphne sorriu sem jeito, mas Bowie percebeu que ela guardava um peso que não queria dividir.

— Talvez seja essa a única forma de continuar vivendo — ela disse, com a voz baixa. — Usar máscaras até que ninguém saiba mais quem realmente somos.

— Então vamos garantir que, pelo menos, nossas máscaras sejam as melhores do show — respondeu Bowie, com um brilho nos olhos.

Eles chegaram à entrada da mina quando a luz da lua começou a ceder ao amanhecer. A boca da mina era uma fenda escura que engolia a pouca luz do lado de fora, um convite para o desconhecido.

Valeska acendeu uma lanterna e liderou o caminho para dentro, seguida por Bowie e Daphne. O cheiro de terra úmida e ferro velho era intenso, mas havia algo reconfortante naquela escuridão — talvez a promessa de um refúgio, ou talvez o silêncio antes da próxima tempestade.

A mina era um labirinto de túneis estreitos, alguns bloqueados por destroços e madeiras podres, outros levando a câmaras maiores onde o eco das vozes parecia se multiplicar.

Enquanto avançavam, Bowie não pôde deixar de notar as marcas nas paredes — símbolos riscados com pressa, algumas inscrições que pareciam antigas advertências ou mapas ocultos.

— Isso aqui tem história — murmurou Bowie, passando a mão por uma parede coberta de símbolos.

— Essa mina foi usada como esconderijo durante uma revolta antiga — explicou Valeska. — Gente que, assim como nós, lutava contra um sistema opressor.

— Então estamos caminhando pelos mesmos corredores que a resistência de outrora — disse Daphne, com um olhar de respeito.

De repente, um som metálico ecoou no túnel à frente. Os três congelaram. Bowie segurou o baralho firme, pronto para transformar a tensão em espetáculo.

— Alguém não está sozinho aqui — sussurrou ele.

Eles se dividiram em formação tática, cada um com uma arma improvisada — Bowie com seu baralho, Valeska com uma pistola compacta, Daphne com uma faca que aprendera a manejar durante a fuga.

O som aumentou: passos apressados, respiração ofegante, vozes sussurradas.

A sombra de uma figura apareceu na curva do túnel, seguida por outra. Eram dois homens, claramente armados e atentos.

— Parem aí! — gritou Valeska, apontando a arma. — Quem está aí?

— Somos da resistência — respondeu um dos homens, levantando as mãos para mostrar que não queria luta.

— Quem são vocês? — perguntou Daphne, desconfiada.

— Nos chamam de "Espelhos". Fugimos do sistema, assim como vocês. Estamos tentando criar uma rede segura para todos os desertores. — O homem mais alto, de olhos cansados, continuou: — Mas ouvimos falar de vocês. Mr. Bowie, a garota Daphne e a ex-agente Valeska.

Bowie deu um passo à frente, apertando o baralho na mão.

— Então não somos os únicos com truques na manga.

Os "Espelhos" explicaram que sua rede vinha crescendo, mas enfrentavam constantes ataques e traições. O sistema sabia quem eram, onde estavam e não desistiria fácil.

— Vocês têm algo que queremos — disse o segundo homem, com uma voz rouca. — O vírus que derrubou a Miragem. Se trabalharmos juntos, podemos fazer a diferença.

— E se não quisermos? — Daphne perguntou, firme.

— Então vocês continuarão correndo — respondeu o primeiro. — Até não haver mais onde correr.

Era uma escolha difícil. Confiar em um grupo desconhecido, ou permanecer isolados e vulneráveis.

Bowie olhou para Daphne e Valeska. Eles sabiam que, sozinhos, não tinham chance. A revolução exigia mais do que coragem — exigia alianças, mesmo que desconfiadas.

— Estamos dentro — disse Bowie, estendendo a mão. — Mas aviso: jogamos com cartas marcadas.

Os "Espelhos" apertaram as mãos, selando a aliança.

Durante horas, eles discutiram planos, dividiram informações, ajustaram estratégias. A mina, antes um labirinto silencioso, agora se tornava o centro nervoso de uma nova resistência.

Enquanto isso, Bowie sentia uma sensação estranha crescer dentro dele — uma mistura de esperança e medo. Ele sabia que o próximo passo poderia ser o definitivo.

E, pela primeira vez em muito tempo, ele sentia que não estava sozinho no jogo.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora