Capítulo 36 - O Truque dos Três Espelhos

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A madrugada descansava sobre o mosteiro com uma quietude que era ao mesmo tempo segredo e promessa. A lua surgia alta e pálida pelas estreitas frestas das janelas, revelando pilares antigos e traços de grafites apagados nas paredes gastas — marcas do tempo e das almas que ali passaram. No interior, Bowie, Daphne e Valeska estavam reunidos em torno de uma mesa improvisada — o último palco antes do próximo ato.

Sobre ela, três pequenos espelhos de mão refletiam discretamente a luz de uma vela trêmula. Ao lado, um baralho novinho, um laptop e um mapa que mostrava a base inimiga, agora um esqueleto fumegante na montanha. O cheiro de cera, metal e pólvora pairava no ar, carregado de tensão antecipatória.

Valeska cruzava os braços, observando cada movimento dos dois iluminados pela chama.

— É agora — sussurrou Daphne ao colocar o casaco sobre os ombros, tentando esconder o frio que vibrava na pele.

— Exato — assentiu Bowie, com nariz afilado erguido como de um maestro prestes a iniciar. — Chamamos isso de "Truque dos Três Espelhos" — uma combinação precisa de distração óptica, criptografia visual e sincronização de ataque. Em três minutos, injetamos a desinformação, redirecionamos a ofensiva local e sumimos. Antes que entendam o que aconteceu, já estaremos longe.

Antes do plano, Dawn of the polyglot... mas de forma pitoresca, ele pegou a carta três de copas e a colocou sobre a mesa, gentilmente empurrada para Daphne. Seus olhos se encontraram — uma breve intertela de cumplicidade.

— Três são os reflexos, três são as direções — explicou Bowie, sua voz baixa vibrando na tensão. — Norte, sul e nosso refúgio. Essa carta é a chave do código.

Valeska estreitou os olhos, ciente de que não seria fácil acreditar em truques num cenário de espionagem.

— Isso realmente funciona? — perguntou, com a pistola visível, austera.

— Não trabalho com certezas, apenas com riscos calculados — ele respondeu, erguendo uma sobrancelha. — Mas funciona.

Bowie soprou a vela, mergulhando tudo na penumbra, e num carreto silencioso colocou os espelhos nas janelas, traçando linhas invisíveis na air. Quando a luz exterior colidir, propagar-se‑á nos três pontos — gerando múltiplos reflexos intensos que irão confundir a triangulação do drone. Ao mesmo tempo, Daphne ligaria a luz LED que servirá de guia visual para o algoritmo de ataque — mas não o farão entender que estamos aqui.

Daphne, olhos fixos, passou a caixa de LED sob a porta principal, alinhando seus batimentos com os feixes. O brilho cortou suavemente o salão — primeira reflexão, segunda, terceira — no mapa, simulando três pontos distintos.

Bowie posicionou-se junto ao laptop, abrindo o software de geolocalização criptografada. Digitou na tela rápida as coordenadas — ajustadas para apontar o ataque num ponto X no mapa, em vez do local original.

— O dron está programado para reconhecer 3♥ — explicou. — Nossa carta simboliza o comando. Assim que os três pontos de luz forem detectados nos espelhos, o ataque será lançado no ponto A — e não no B.

Daphne girou o baralho entre os dedos, fraca, ansiosa:

— Claro. Sou sua assistente, estar no "centro do palco".

Ele sorriu:

— Você já está, bebê — e enquanto falava, segurou sua mão para ajudá-la a posicionar o terceiro espelho.

— Duas equipes inimigas se aproximam em 20 minutos — informou Valeska, quebrando o clima. — É disto que precisamos fugir antes que cheguem.

Bowie estalou os dedos:

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora