Capítulo 9 - Entre Fantasmas e Ilusões

6 1 0
                                        



O silêncio que caiu sobre a saleta parecia ter peso próprio. Daphne rodava o cálice de água nas mãos, encarando o holograma suspenso do Projeto Quimera como quem observa um animal venenoso; Mr. Bowie baralhava cartas entre os dedos numa coreografia automática, enquanto Copérnico esperava junto à porta, braços cruzados e expressão de esfinge. Do outro lado da divisória de vidro, o presidente Wallace conversava em sussurros com dois assessores, fazendo gestos curtos, cortantes, de quem tenta resolver um incêndio com uma xícara d'água.

— Então é isso — resmungou Bowie, sentando‑se de lado sobre a cadeira como um gato preguiçoso. — Podemos sumir do mapa e viver felizes para sempre ou virar marionetes de luxo do governo. Qual opção vem com plano dental?

Daphne soltou um sopro de riso e apoiou os cotovelos na mesa.

— Fantasmas ou fugitivos. Você consegue desaparecer de novo?

— Meu caro ego não gosta de anonimato, mas é melhor do que ser pego numa jaula de chumbo. — Ele girou uma carta e mostrou o Valete de Espadas. — Espadas significam perigo... ou oportunidade.

Daphne ainda sentia o peso do pingente em torno do pescoço. Tudo aquilo — a prisão, a execução falsa, o resgate — convergia para aquele pequeno artefato que brilhava em azul esmaecido.

— Se a gente sumir, esse pendrive vivo continua existindo. Quem garante que outro louco não surge tentando me capturar? Não quero dormir com um olho aberto pro resto da vida.

Bowie inclinou‑se, baixando o tom:

— Admito que te vigiar à noite seria um trabalho que faço de bom grado, mas também gosto de sobreviver ao amanhecer.

Ela revirou os olhos.

— Estamos falando sério.

— Eu também. — Ele fechou o baralho, bateu os naipes sobre a mesa. — Olha, Daphne, se aceitarmos o "programa fantasma", pelo menos teremos alguma proteção. E, cá entre nós, com nossos antecedentes, nunca mais vamos trabalhar em escritório de contabilidade.

Copérnico pigarreou:

— O presidente vai querer a resposta agora. Se escolherem o exílio, há um avião pronto. Se escolherem a Operação Fantasma, serão oficialmente... não oficiais. Trabalharão fora dos registros, respondendo só a mim. — Ele lançou um olhar especialmente longo a Bowie. — "Sem improvisos destrutivos" foi a expressão exata do presidente, caso optem pelo time.

— Sem improvisos destrutivos? — Bowie bateu a mesa, fingindo indignação. — Isso é restringir minha arte!

— Qual arte? A de quase explodir um posto de controle? — Copérnico ergueu uma sobrancelha.

— "Quase" explodir demonstra sutileza.

Daphne respirou fundo. Sentia‑se estranhamente calma; talvez fosse a fadiga, talvez o fato de que, depois de encarar a morte, todas as decisões pareciam só mais um truque de cartas. Olhou para Bowie, aquele mágico de sorriso insolente, o único que acreditara nela sem exigir explicações. Percebeu que já confiava nele mais do que em toda uma vida de conhecidos.

— Vamos ficar — disse, firme. — Mas com condições.

Copérnico inclinou a cabeça.

— Quais?

— Um: acesso total a qualquer informação sobre meu pai e o Projeto Quimera. Dois: imunidade real, não um papel que some quando mudarem os ventos. Três: direito de sair quando quisermos. Sem drama.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora