Capítulo 12 - Mágicas Que Doem

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A fogueira improvisada crepitava suavemente, cuspindo fagulhas que dançavam no céu escuro como se fossem estrelas nervosas fugindo de um espetáculo. Daphne estava sentada, abraçada aos próprios joelhos, o casaco largo demais para o corpo pequeno, enquanto Mr. Bowie se ocupava em tentar esquentar duas latas de feijão enlatado equilibradas em pedras instáveis. Um truque de sobrevivência bem menos glamouroso que desaparecer com um cofre inteiro.

— Não é exatamente caviar, mas se você fechar os olhos e fingir que está em Paris, talvez funcione — disse ele, soprando na colher com ares de chef francês fajuto.

— Se eu fechar os olhos, prefiro sonhar que tô no sofá da minha casa, vendo reprise de série ruim e comendo miojo com nuggets — respondeu ela, a voz rouca, mas firme.

Bowie sorriu, entregando a colher.

— Senhora, temos nuggets metafóricos. E o miojo é temperado com adrenalina e traumas de guerra. Sirva-se.

Ela aceitou a comida com um aceno lento, o olhar fixo nas chamas. Ficaram em silêncio por alguns instantes, só o som das latas, do vento cortando entre as árvores e dos pensamentos que ambos fingiam não ter.

— Você sempre faz piada quando as coisas ficam ruins? — Daphne quebrou o silêncio, encarando-o com os olhos cansados.

— Sempre — ele respondeu sem hesitar. — É meu superpoder. Uns cospem fogo, outros voam... eu fujo da realidade com sarcasmo.

— E funciona?

Bowie sorriu, mas dessa vez o sorriso não chegou aos olhos.

— Quase sempre.

Ela virou-se mais para ele, curiosa. Pela primeira vez desde que escaparam da Área 66, parecia ver algo além da persona do mágico debochado. O homem por trás do truque.

— Você tem família?

Bowie hesitou. O fogo estalou como se também estivesse desconfortável.

— Tive. Tenho. É complicado.

— Complicado como? Pai ausente? Mãe neurótica? Irmãos traficantes?

— Irmã... uma só. Mora no sul da França agora. Criando abelhas e cultivando lavanda. Parece um comercial de sabonete francês. Mas... — ele parou, engoliu seco — ela me odeia. E com razão.

— O que você fez?

— Ah, o clássico. Abandonei tudo. Fugi com um grupo de ilusionistas e um pombo chamado Alberto. Prometi que voltava. Nunca voltei.

— E o pombo?

— Morreu tragicamente num show em Praga. Engolido por um gato treinado. Longa história. Traumatizante.

Daphne riu pela primeira vez em dias. Não foi um riso escandaloso, mas sincero, quente. Quase parecia que aquele som poderia espantar os horrores recentes.

— Você é um desastre, Mr. Bowie.

— E você uma garota que conversa com estranhos à beira de uma fogueira no meio de uma floresta europeia após ter sido quase executada. Diria que estamos empatados.

Ela parou de rir. O riso morreu rápido, como a brasa que se apaga antes da hora. Bowie notou.

— Ei... — ele se inclinou um pouco, baixando o tom — Você tá segura agora. Sabe disso, né?

— Sei. Mas não parece. — Ela olhou para o céu. — Lá dentro... na cela... eu prometia pra mim mesma que, se saísse viva, nunca mais ia sentir medo. Mas agora que tô aqui... eu só sinto isso.

Bowie respirou fundo, tirando o casaco e colocando sobre os ombros dela com um gesto simples, quase fraternal. Ela não resistiu.

— Sabe por que você tá sentindo medo? — ele disse.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora