Capítulo 3 - O Preço do Silêncio

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Copérnico carregava nas costas o peso de uma carreira longa e marcada por decisões difíceis. Filho de um policial prestigiado do sul do país, entrou para a corporação ainda jovem, impulsionado mais pelo legado do que por vocação. Agora, com os sinais da idade se manifestando em cabelos grisalhos e uma paciência cada vez mais escassa, precisava lidar com o maior desafio de sua vida: Mr. Bowie.

Sim, o ilusionista era um pesadelo. Ego inflado, debochado e imprevisível - tudo que Copérnico desprezava num homem. Mas, infelizmente, também era o único com as habilidades necessárias para resgatar Daphne Clair. Prendê-lo não era mais uma opção. Colaborar com ele era o novo desafio. E pior: sem poder contar tudo.

- Você acha que só porque tenho vinte e oito anos sou um idiota completo? - resmungou Bowie, largando o dossiê sobre a mesa. - Amanhã é o grande dia e tudo que tenho é esse plano superficial. Essa ficha aqui - apontou com desdém - é mais vazia que o coração do meu último amor.

Copérnico bufou, cruzando os braços. Mesmo que quisesse, não poderia dar respostas que nem ele tinha. Daphne era uma incógnita até para os arquivos mais confidenciais.

- Todas as perguntas já foram respondidas. - falou, firme. - O que mais você quer?

- O que qualquer um em sã consciência exigiria! - retrucou Bowie. - Quem é essa garota, de verdade? Por que ela está em um buraco como a Área 66?

O silêncio do agente era um convite à especulação. Bowie esfregou o rosto, exausto pelo treinamento, ansioso pela missão suicida e com o instinto aguçado de que algo não estava sendo dito.

- Qual era a profissão dela? - pressionou novamente, encarando Copérnico como se pudesse forçá-lo a falar pela força do olhar.

- Garçonete. Em uma lanchonete em Manhattan. - respondeu, quase com tédio.

Bowie soltou uma risada seca e sombria.

- Claro... o governo todo se mobilizando por uma garçonete. Que conveniente.

- É a verdade. - respondeu Copérnico, olhando para o lado.

- E as "habilidades especiais"? - franziu a testa - Alguma arte marcial escondida? QI de gênio? Telecinese?

- Não que saibamos. - respondeu o agente, desta vez com sinceridade evidente.

Bowie afastou-se com um suspiro, apoiando as mãos nos quadris. A frustração pulsava em cada movimento.

- Ótimo. Vou tomar um banho. E depois dormir o que der. Amanhã vou entrar no inferno - e deu um tapinha irônico no ombro de Copérnico ao passar.

O agente apenas o observou sair. Quando a comandante Cooper se aproximou, seu rosto estava carregado de preocupação.

- O presidente pediu uma atualização. - disse em voz baixa. - Você realmente confia no Bowie?

Copérnico nem hesitou.

- Não. - cruzou os braços - Só nas habilidades dele. E não temos outra escolha.

Dezesseis horas.
Esse era o tempo que restava para Daphne antes da execução.

Sentada sobre a cama fina e úmida, ela cantarolava uma antiga canção de ninar que sua mãe costumava entoar quando era pequena. Sua voz era fraca, mas mantinha a melodia viva:

"É hora de dormir
Seus olhinhos fecham assim
Pensamentos bons dominam nossa mente..."

As lembranças invadiam com crueldade. A voz doce da mãe, o cobertor de ursinhos coloridos, o beijo suave na testa antes do sono. Agora, tudo era frio, concreto e escuridão.

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora