O amanhecer foi preguiçoso, escondido por nuvens densas e um vento gelado que batia nas janelas da cabana como se cobrasse o aluguel. Mr. Bowie acordou antes do despertador — não por disciplina, mas porque o colchão era tão duro que seu corpo o considerou um campo de guerra.
Vestia apenas uma camiseta e cueca samba-canção com estampa de pinguins mágicos. Pegou uma caneca e foi até a cozinha como se estivesse num filme noir. Abriu a geladeira.
— Nada. Nem um mísero danone. — resmungou.
Daphne apareceu na cozinha, enrolada em um cobertor. Os cabelos bagunçados, os olhos semicerrados. Um visual digno de propaganda de café ou de filme indie francês.
— Bom dia. — murmurou.
— Bom dia pra quem acorda com esse rosto. — respondeu ele, abrindo uma gaveta com esperanças infundadas de encontrar croissants.
— Sonhou com alguma coisa?
— Com um coelho me batendo com uma baguete e chamando de "Charlatão". Não vou interpretar.
Ela riu, pegando uma chaleira.
— Café?
— Por favor. Com açúcar, ironia e um leve toque de desesperança.
Sentaram-se à mesa como dois fugitivos tentando parecer casais normais. E quase conseguiram.
— Achei que Copérnico estaria aqui hoje cedo. — comentou Daphne, olhando pela janela.
— Copérnico tem uma mania irritante de chegar quando menos se espera — e sempre com a sutileza de uma bomba-relógio. — Bowie respondeu, girando a colher na xícara. — Provavelmente está nos espionando por satélite neste exato momento. Ou escondido debaixo da cama.
Um carro se aproximou, seus pneus deslizando pela estrada de terra.
— Ou, veja só, ele chegou. — completou Bowie.
O carro preto parou com a elegância de um carro funerário. E Copérnico saiu dele com a cara de quem dormiu mal, discutiu com o chefe e não teve tempo de tomar café. Ou seja, o de sempre.
— Bom dia. — disse o agente, já empurrando a porta da cabana.
— Nem um "olá"? Nem flores? Estou começando a me sentir usado. — resmungou Bowie.
— Vocês precisam se vestir e me acompanhar. O presidente quer falar com vocês. Agora.
— O presidente?! — Daphne levantou-se num salto. — Ele sabe?
— Ele sabe de tudo. Ou quase. E se não souber, ele inventa. Por isso é o presidente.
— Espere aí. — Bowie levantou um dedo. — Que tipo de "falar" estamos tratando? Um chá das cinco? Um interrogatório? Um jantar com dossiês?
— Sala secreta. Segurança máxima. Cara feia. E croissants. — respondeu Copérnico. — Pelo menos é o que estava na última pauta.
O helicóptero cortava o céu como uma navalha impaciente. Bowie observava pela janela, a paisagem se transformando em borrões. Daphne, ao seu lado, parecia calma — ou estava fingindo muito bem.
— Sabe o que isso significa, não é? — disse ele, virando-se para ela.
— Que estamos nos metendo em algo maior do que parece?
— Não. Que talvez tenha croissants de verdade.
Ela riu, mesmo que estivesse tensa.
— Você sempre usa humor pra disfarçar medo?
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Mr. Bowie
ActionMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
