Capítulo 8 - Copérnico, Croissants e Conspirações

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O amanhecer foi preguiçoso, escondido por nuvens densas e um vento gelado que batia nas janelas da cabana como se cobrasse o aluguel. Mr. Bowie acordou antes do despertador — não por disciplina, mas porque o colchão era tão duro que seu corpo o considerou um campo de guerra.

Vestia apenas uma camiseta e cueca samba-canção com estampa de pinguins mágicos. Pegou uma caneca e foi até a cozinha como se estivesse num filme noir. Abriu a geladeira.

— Nada. Nem um mísero danone. — resmungou.

Daphne apareceu na cozinha, enrolada em um cobertor. Os cabelos bagunçados, os olhos semicerrados. Um visual digno de propaganda de café ou de filme indie francês.

— Bom dia. — murmurou.

— Bom dia pra quem acorda com esse rosto. — respondeu ele, abrindo uma gaveta com esperanças infundadas de encontrar croissants.

— Sonhou com alguma coisa?

— Com um coelho me batendo com uma baguete e chamando de "Charlatão". Não vou interpretar.

Ela riu, pegando uma chaleira.

— Café?

— Por favor. Com açúcar, ironia e um leve toque de desesperança.

Sentaram-se à mesa como dois fugitivos tentando parecer casais normais. E quase conseguiram.

— Achei que Copérnico estaria aqui hoje cedo. — comentou Daphne, olhando pela janela.

— Copérnico tem uma mania irritante de chegar quando menos se espera — e sempre com a sutileza de uma bomba-relógio. — Bowie respondeu, girando a colher na xícara. — Provavelmente está nos espionando por satélite neste exato momento. Ou escondido debaixo da cama.

Um carro se aproximou, seus pneus deslizando pela estrada de terra.

— Ou, veja só, ele chegou. — completou Bowie.

O carro preto parou com a elegância de um carro funerário. E Copérnico saiu dele com a cara de quem dormiu mal, discutiu com o chefe e não teve tempo de tomar café. Ou seja, o de sempre.

— Bom dia. — disse o agente, já empurrando a porta da cabana.

— Nem um "olá"? Nem flores? Estou começando a me sentir usado. — resmungou Bowie.

— Vocês precisam se vestir e me acompanhar. O presidente quer falar com vocês. Agora.

— O presidente?! — Daphne levantou-se num salto. — Ele sabe?

— Ele sabe de tudo. Ou quase. E se não souber, ele inventa. Por isso é o presidente.

— Espere aí. — Bowie levantou um dedo. — Que tipo de "falar" estamos tratando? Um chá das cinco? Um interrogatório? Um jantar com dossiês?

— Sala secreta. Segurança máxima. Cara feia. E croissants. — respondeu Copérnico. — Pelo menos é o que estava na última pauta.

O helicóptero cortava o céu como uma navalha impaciente. Bowie observava pela janela, a paisagem se transformando em borrões. Daphne, ao seu lado, parecia calma — ou estava fingindo muito bem.

— Sabe o que isso significa, não é? — disse ele, virando-se para ela.

— Que estamos nos metendo em algo maior do que parece?

— Não. Que talvez tenha croissants de verdade.

Ela riu, mesmo que estivesse tensa.

— Você sempre usa humor pra disfarçar medo?

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora