Capítulo 38 - Ecos do Passado e o Preço da Verdade

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O silêncio da noite parecia um peso insuportável, carregando em si o eco de todas as mentiras, perdas e segredos que Mr. Bowie e Daphne já haviam enfrentado. A base abandonada onde haviam se refugiado era um mausoléu da esperança — ao mesmo tempo que oferecia abrigo, trazia à tona fantasmas que nenhum dos dois estava preparado para enfrentar.

Bowie estava encostado na parede fria de concreto, a respiração irregular, olhos fixos no chão, enquanto Daphne observava a porta que acabara de se fechar atrás deles. O ar carregava um cheiro de mofo e desilusão, mas o verdadeiro veneno estava na notícia que Valeska havia lhes entregue minutos antes — uma bomba que explodira o terreno sob seus pés.

— Temos que falar. — A voz de Valeska cortou a tensão como uma lâmina de aço. Ela estava de pé, os braços cruzados, olhando para Daphne com um misto de urgência e pesar. Seus olhos cinzentos brilhavam com um cansaço que ia além da pele, como se carregasse séculos de sofrimento.

Daphne engoliu em seco, a garganta seca, as mãos tremendo por dentro da jaqueta encharcada de suor e medo.

— Eu sei que você está cansada de mistérios, de segredos escondidos, de memórias que não são suas — começou Valeska, devagar, como quem pisa em terreno minado. — Mas o que vou te contar vai mudar tudo o que você pensa sobre quem você é... e sobre quem você sempre confiou.

Mr. Bowie levantou a cabeça, seus olhos ardendo com uma mistura de curiosidade e medo, uma faísca de desafio que tentava apagar o desespero.

— Fala logo, porque meu coração já tá dando pulos de dor — murmurou, com um meio sorriso sarcástico, tentando mascarar a inquietação que apertava seu peito.

Valeska respirou fundo, um suspiro que parecia vir de dentro dos ossos, e puxou do bolso um envelope envelhecido, com as bordas amareladas e manchas de um passado que ninguém queria revisitar.

— Isso foi encontrado entre os arquivos secretos do programa 'Ária'. E vocês vão entender por que ninguém quer que isso veja a luz do dia.

Daphne pegou o envelope com mãos trêmulas, o papel áspero como se guardasse o peso do mundo. Abriu cuidadosamente e encontrou uma série de fotografias, documentos, e um bilhete manuscrito com uma caligrafia delicada e apressada.

A primeira fotografia era antiga — a imagem de uma menina, talvez com uns sete anos, cabelos escuros presos em um rabo de cavalo, olhos assustados mas brilhantes de esperança. A legenda, escrita com uma caligrafia caprichada, dizia:

"Minha pequena estrela. Que a verdade te proteja, mesmo quando o mundo quiser te engolir."

Daphne sentiu um nó na garganta, uma dor que parecia rasgar seu peito. Aquela menina era ela. Ou ao menos, deveria ser. Mas havia algo estranho na foto — um símbolo no braço dela, um desenho que ela nunca tinha visto antes, uma marca que doía só de olhar.

— Quem é essa? — perguntou Bowie, olhando fixamente para a imagem.

— Você. — Valeska disse com voz baixa, quase um sussurro, como se a palavra pudesse quebrá-la. — Antes de tudo ter começado. Antes do apagão. Mas tem mais.

Ela passou a mostrar os documentos que continham protocolos experimentais, registros de sessões secretas, listas de nomes — muitos deles ligados à própria família de Daphne, seus ancestrais que haviam sido peças de um jogo cruel e implacável.

— Você não é só uma sobrevivente — continuou Valeska. — Você é a peça central de uma conspiração que começou décadas atrás. Seu desaparecimento foi orquestrado por aqueles que temiam o que você representava.

Daphne fechou os olhos, tentando digerir a avalanche de informações que caía sobre ela como uma tempestade. Suas mãos apertavam as fotografias até que os dedos ficassem brancos.

— Por que ninguém me contou isso? Por que me fizeram acreditar que eu era uma mera peça no jogo deles?

Valeska balançou a cabeça, amarga.

— Porque eles precisavam de você viva... ou pelo menos, acreditavam que precisavam.

Bowie deu um passo à frente, segurando o braço de Daphne com força, como se pudesse transmitir-lhe um pouco da sua própria coragem.

— O que eles querem? O que estão escondendo?

Foi então que a última fotografia caiu sobre o chão com um baque surdo. Nela, um homem de rosto fechado e olhos gélidos segurava uma pequena garota no colo — a menina da foto anterior.

Daphne olhou para a imagem, sentindo o coração despedaçar-se em mil pedaços.

— Ele... é meu pai?

Valeska assentiu lentamente, seus olhos se encheram de uma tristeza que parecia impossível de carregar sozinha.

— Sim. Mas ele não é o que você imagina. Ele fez coisas... coisas que você vai precisar entender para sobreviver.

E então, no instante em que a verdade começava a emergir como uma faca afiada no escuro, a porta foi derrubada com um estrondo ensurdecedor.

Soldados armados invadiram o esconderijo, seus olhos frios como lâminas, armas apontadas como sentença de morte.

— Tempo esgotado — disse um oficial, um sorriso cruel estampado no rosto. — Vocês acharam que podiam fugir para sempre? O passado sempre volta para cobrar a conta.

Bowie puxou Daphne para trás, protegendo-a com o corpo, enquanto sua mente corria a mil por hora, buscando uma saída, um truque final para salvar a única coisa que realmente importava.

— O show ainda não acabou — murmurou, com uma voz que misturava determinação e desafio.

O que veio a seguir foi uma batalha feroz e desesperada, onde cada segundo valia mais que uma vida inteira. Em meio ao caos, as revelações daquele passado sombrio não eram mais apenas fantasmas — eram a chave para uma luta que ninguém podia mais evitar.

Enquanto trocavam tiros e esquivavam de explosões, lutavam contra a escuridão que os cercava, Daphne percebeu que o verdadeiro inimigo não estava apenas fora — estava dentro dela mesma, na memória enterrada, nas escolhas que nunca teve chance de fazer.

E naquela noite, sob o céu que parecia chorar junto com eles, a linha entre heróis e vítimas, verdade e mentira, se apagava na fumaça da batalha e no calor dos corações que ainda lutavam para bater.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora