Capítulo 1: A Proposta Impossível

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Estar algemado poderia, em circunstâncias bem diferentes, ser parte de uma fantasia bastante interessante para Mr. Bowie. Mas ali, naquela sala fria com cheiro de café requentado e paredes acinzentadas, a realidade era nua, crua e incômoda: ele estava preso.

Seu ego, inflado como sempre, tentava convencê-lo de que tudo ainda estava sob controle - uma grande encenação, um truque meticuloso prestes a virar o jogo. Mas a verdade doía. Havia sido pego. E pior: enganado.

A carta com o endereço? Parte de uma armadilha. O prédio abandonado? Um cenário perfeito para um cerco armado. E o homem de capuz? Um agente frio, metódico e sorridente chamado Copérnico.

Bowie olhava ao redor da sala de interrogatório como quem avalia um palco antes da apresentação. Podia até estar algemado, mas ainda assim vestia sua vaidade como armadura. O terno amarrotado, o cabelo desalinhado e o olhar debochado não escondiam o cansaço, mas sustentavam o personagem.

Do outro lado do vidro espelhado, o Agente Copérnico o observava em silêncio. A cada segundo, tentava conter o leve sorriso que ameaçava escapar. Afinal, prender Mr. Bowie - o homem por trás de um dos maiores golpes dos últimos dez anos - era algo que alimentava o orgulho de qualquer agente. E Copérnico não era qualquer um.

- Bom trabalho, Agente - disse a superiora, apertando sua mão com firmeza. Carter, uma mulher de olhos duros e fala rápida, não distribuía elogios com frequência.

- Obrigado, senhora - respondeu ele, mantendo a formalidade, embora o peito inflasse discretamente.

- Aqui está o dossiê. Você saberá como abordar - acrescentou, entregando uma pasta volumosa.

Copérnico assentiu, mas sabia que convencer Bowie a cooperar não seria simples. O mágico era desconfiado, orgulhoso e muito mais inteligente do que gostava de demonstrar. Tentar suborná-lo com promessas comuns seria inútil. Ele teria que usar uma combinação precisa de diplomacia, pressão psicológica e... uma carta na manga.

Enquanto isso, do outro lado do vidro, Bowie elaborava possíveis estratégias para escapar ou pelo menos sair dali com alguma vantagem.

Possibilidade 1: Não dizer nada. Esperar um advogado.
Possibilidade 2: Colaborar. Quem sabe conseguir uma redução de pena.
Possibilidade 3: Fingir insanidade. Acabar em uma clínica. Mais fácil fugir de lá.
Possibilidade 4: Debochar até o fim. Desgastar os interrogadores. Divertir-se no processo.

Ele sorriu sozinho.

Opção 4. Definitivamente.

A porta rangeu e o agente entrou com passos firmes, a expressão firme e o dossiê em mãos.

- Olá, Mr. Bowie - começou Copérnico, enfatizando o título artístico. - Ou devo dizer... Daniel Montenegro?

O mágico ergueu os olhos, soltando um sorriso largo e preguiçoso.

- Dandan para os íntimos - respondeu, piscando. - Mas ainda prefiro Bowie. Tem mais presença, você não acha?

O agente sentou-se à frente dele, abrindo a pasta sobre a mesa.

- "Mr. Bowie"... Sério? - Copérnico imitou aspas com os dedos. - Você poderia ter usado seu nome real.

- Homenagem ao David Bowie. Você já ouviu falar, certo? Cantor. Ícone. Gênio. - Ele deu de ombros. - Imagino que sua playlist seja só de sirenes e estática.

Copérnico ignorou a provocação. Sabia que se começasse a discutir no campo do sarcasmo, perderia terreno.

- Você sabe por que está aqui?

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora