Capítulo 37 - O Peso do Espelho

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A van deslizou pela estrada úmida da madrugada. Lá fora, as árvores formavam arcos sombrios, como dedos insidiosos arranhando a lataria. Dentro, a tensão brilhava nos cantos dos olhos, mesmo com o motor abafando os ruídos. O silêncio era a couraça invisível que os cobria — Daphne dormia recostada no ombro de Bowie, Valeska mantinha os olhos fixos no retrovisor, e Kevin, impassível, controlava o volante.

Quando o relógio marcou 03h47, Bowie sacudiu Daphne suavemente, num impulso. Ela acordou num movimento lento, confusa, mas alerta – como se emergisse de um sonho torturante. Havia febre em seus olhos, e Bowie percebeu o quanto o respiro dela era frágil.

— Estamos chegando — ele sussurrou, estendendo a mão. Daphne a segurou sem pensar.

Ela ajeitou os cascos e olhou para Valeska, que apenas assentiu. À frente, uma fábrica vazia de concreto se erguia como um ossário abandonado. Era ali: primeiro ponto da nova passagem secreta, mantido por desertores da sombra, agora ponto neutro com equipamento para sanar feridas, físicas e mentais.

O motorista estacionou, a van roncou, e Kevin saiu sem olhar para trás, mas sempre vigilante. Os três súbito sentiram o peso: fugiram das ruínas do sistema, do caos blindado que construíram. Agora, precisavam reconstruir dentro de si.

Enquanto saltavam para o asfalto, a lâmpada vermelha do painel, gravada por Bowie, iluminava um símbolo: 3♥. Passado e futuro, miscelados. O custo? Alto. Implacável.

1. Rituais de Cura

No interior da fábrica, Valeska acendeu lanternas penduradas — o cheiro de mofo misturava cimento antigo e pratos frio esquecidos. Imediatamente abriram mochilas: Yescas médicas, remédios básicos, e os dois espelhos de mão que Bowie guardara consigo — relíquias de momentos decisivos, fragilidades.

— Daphne, senta aqui — Valeska apontou a cadeira de frente a uma mesa. — Diferença entre sobreviver e saber por que... é cair em pranto. Fique calma, tudo certo.

A garota se sentou, tensa. Bowie se sentou ao lado, segurando sua mão — pele com cortes, dor, coragem. Ele meteu no bolso a carta retida (3♥), lembrando que aquela simbologia ainda pulsava forte.

— Vamos começar — começou Valeska em tom seco e amistoso. — Dois analgésicos cada, a gente cuida da febre. E Bowie, me diz: fez upload completo?

Ele confirmou com um gesto clássico — o torre de dados estava em chamas, o vírus correndo no corpo da rede central. Nunca haviam visto algoritmos com sotaque humano — um respiro de liberdade em plano binário.

— Fiz — ele suspirou. — Agora precisamos decidir: esconder ou expor?

Valeska olhou nos olhos dela. Daphne respirou fundo:

— Expor. Que todos saibam. Ninguém merece a sombra deles.

Bowie sorriu, segurando cada sílaba:

— Justiça começa com luz. E coragem: você já mostrou isso, escolhendo ficar.

O clima ficou pesado: a fábrica era palco do renascimento deles. Bowie se aproximou, dois espelhos nas mãos.

— Hora de um novo truque — disse ele. — Um espelho para refletir. O outro para disfarçar. Mistura sempre foi meu forte.

Ela ergueu o olhar:

— Que truque é esse?

— Vamos? — ele assentiu com a cabeça. — Vou te mostrar.

2. O Espelho da Verdade

Eles caminharam até um canto da fábrica, onde um feixe de luar tangenciava o pó da janela quebrada. Bowie posicionou os espelhos frente a frente, com Daphne no meio.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora