Capítulo 4 - Hora do Show

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O caminhão avançava pela estrada como um animal cansado, resfolegando entre buracos e poças d'água. Lá dentro, Bowie observava o interior da cabine: um rádio que só tocava estática, um cheiro de gasolina misturado com café velho e um Kevin que, mesmo em silêncio, parecia estar no meio de uma guerra particular com o universo.

- Então... - disse Bowie, acendendo o cigarro com um isqueiro vermelho berrante. - Essa coisa tem airbag ou a gente morre no estilo anos 80 mesmo?

Kevin não respondeu. Limitou-se a dar um suspiro que dizia "sou pago pra isso?" sem abrir a boca. Era o tipo de silêncio que gritava.

- Eu gosto de conversas de profundidade - continuou Bowie, soltando a fumaça pela janela. - Tipo: você acha que se eu morrer lá dentro, vão ao menos colocar uma placa em minha homenagem? Algo como "aqui jaz o mágico que errou o truque final"?

Kevin bufou.

- Se você morrer lá dentro, vai ter sorte se sobrar alguma parte sua pra enterrar. E honestamente, com esse seu narcisismo, a parte mais difícil vai ser caber tudo no caixão.

- Ai. - Bowie colocou a mão no peito. - Isso foi quase um elogio. Quer dizer que você ao menos reconhece que eu tenho muitas... qualidades.

Kevin virou para ele com aquele olhar que só os veteranos de guerra e pais de adolescentes sabem fazer.

- Reconheço que você tem muita lábia. E sorte. Mas não confio em homens que usam perfume caro no meio de uma missão suicida.

- É colônia. - corrigiu Bowie. - E me faz sentir confiante. Vai que o executor gosta de um aroma amadeirado com notas de bergamota.

Kevin rolou os olhos tão forte que parecia que ia se teletransportar pra outro plano.

Chegaram a um portão de metal gigante, que parecia mais um escudo medieval feito de concreto e desespero. Dois soldados armados até os dentes aproximaram-se do caminhão. Kevin fez um sinal breve e entregou documentos falsos.

Enquanto isso, Bowie ajustava seu boné e observava tudo com o olhar de um ilusionista antes do número principal.

- Hora do show. - murmurou, sentindo o coração bater no mesmo ritmo das luzes vermelhas que piscavam no portão.

Os soldados deram o sinal de liberação, e o portão se abriu com um rangido que parecia anunciar o inferno.

O caminhão entrou.

- A partir daqui, você está por sua conta. - disse Kevin, sem olhar para ele. - O executor original já "teve um imprevisto". Está no porta-malas do meu carro. Provavelmente vai acordar com uma dor de cabeça e um currículo novo.

- Espero que tenha deixado um bilhete de agradecimento. - Bowie desceu do caminhão, ajeitou o uniforme e puxou a capa preta do executor. - Sabe... com flores, chocolate. Uma coisa romântica.

- Se fizer piada com isso lá dentro, você morre.

- Ah, Kevin. Eu vou fazer piada até meu epitáfio rimar.

Kevin deu partida e se afastou sem se despedir. Era o tipo de homem que odiava despedidas... e gente falante.

Bowie respirou fundo e entrou no complexo.

Os corredores da Área 66 pareciam saídos de um pesadelo industrial. Paredes de concreto cru, luzes frias e um silêncio que mais parecia o som da morte em modo espera.

Bowie caminhava com passos firmes, a capa negra esvoaçando atrás dele como se fosse algum tipo de vilão dramático em um filme de baixo orçamento. O crachá de executor balançava em seu peito como uma sentença.

- A ala 7, cela 749... - sussurrou pra si mesmo. - Mais fácil encontrar uma agulha num palheiro do que uma garota num depósito militar de horrores.

Um funcionário passou por ele, acenando com a cabeça em respeito. Ninguém desconfiava. Todos achavam que aquele era apenas mais um dia de execução.

- Bom dia. - disse o homem com um sorriso forçado.

- Não sei pra quem. - respondeu Bowie com um ar sinistro, continuando a andar.

Chegando à ala 7, foi recebido por um assistente franzino com óculos tão grossos que pareciam fundos de garrafa. O homem tremia mais que um café forte.

- E-estamos prontos, senhor Executor. A... prisioneira já tomou o banho e está com o papel da última declaração... Ela recusou escrever qualquer coisa.

- Rebelde. - disse Bowie, com um sorriso torto. - Gosto disso.

- D-devo preparar a injeção? - perguntou o assistente, nervoso.

- Já está preparada. - disse Bowie, tirando discretamente a seringa com a substância alternativa que recebera de Copérnico.

O assistente hesitou por um segundo, mas acabou concordando. Afinal, quem era ele para questionar um executor?

Daphne estava sentada na cela, os olhos inchados, mas sem lágrimas. Já não havia nada mais a secar. Quando a porta abriu, seu coração disparou.

Um homem alto, envolto numa capa preta, entrou. O capuz escondia o rosto.

Ela não se mexeu. Não chorou. Não implorou.

- Daphne Clair? - a voz veio abafada, mas segura.

Ela apenas assentiu, olhando-o nos olhos.

- Fique calma. Isso não vai doer... por muito tempo. - disse, se aproximando com a seringa.

- Que conforto. - respondeu ela, com um fiapo de ironia que surpreendeu até a si mesma.

- Gosto de garotas sarcásticas. - disse Bowie, encostando a agulha na pele dela.

Ela não gritou. Apenas fechou os olhos. E... desmaiou.

- Boa noite, princesa. - murmurou, enquanto a colocava na maca e a cobria com o lençol negro.

Levá-la pelo corredor da morte até o caminhão funerário foi, de longe, o número mais arriscado que Bowie já havia feito - e ele já havia feito uma escapada do Louvre usando apenas um vestido de freira e um rolo de papel alumínio.

No caminho, o mesmo funcionário franzino apareceu de novo.

- E-estava... tudo certo?

- Como um relógio suíço. - respondeu Bowie, sem parar de andar. - Quer ver o corpo?

- N-não, não... eu... confio no seu trabalho, senhor Executor.

- Pena. Está belíssima hoje. - disse com um ar mórbido.

O funcionário empalideceu ainda mais, o que parecia fisicamente impossível.

Bowie chegou ao caminhão, onde Kevin já o aguardava.

- Dentro do tempo. - disse Bowie. - Com estilo.

Kevin levantou a lona, viu o "cadáver" e assentiu. Daphne estava viva, ainda desacordada.

- Rápido. Entre. Vamos sair antes que alguém perceba que o circo fechou.

Bowie colocou o corpo na traseira, entrou no banco do carona e fechou a porta.

O motor roncou, e o caminhão partiu. Lentamente, como se não houvesse acabado de carregar a missão mais absurda do ano.

Dentro da cabine, silêncio por um tempo. Até Bowie falar:

- Aposto vinte dólares que ela acorda e me dá um soco.

Kevin soltou um suspiro.

- Só se for de gratidão.

- Ah, Kevin... ninguém nunca me bateu por gratidão. Só por diversão.

Kevin tirou mais um cigarro. Ofereceu outro a Bowie.

- Por diversão, então. - disse, acendendo os dois.

- Agora sim, estamos ficando íntimos. - Bowie sorriu.

E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez... apenas talvez... tivesse feito algo que valia a pena.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora