Capítulo 5 - Entre Balas e Bengalas

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Três anos antes.

A chuva caía fina sobre Madri, tornando as ruas um espelho quebrado de néon e nostalgia. Lá em cima, no 14º andar do Hotel Palacio Imperial, Mr. Bowie girava um copo de vermute entre os dedos como se aquilo fosse parte de um ritual mágico. Talvez fosse.

Em frente a ele, Naeva.

Alta, cabelos escuros presos num coque impreciso, batom vermelho e olhos de quem já havia cruzado fronteiras escondida em porta-malas e vestidos de gala. Ela era sua parceira há dois anos. E, até onde Bowie ousava admitir, a única pessoa que já estivera realmente perto dele — em todos os sentidos.

— Eu não gosto disso — disse ela, encarando o quadro branco com os planos rabiscados em caneta permanente. — Tá fácil demais. E tudo que é fácil demais... explode na nossa cara.

Bowie deu um meio sorriso, aquele que ele usava quando sabia que estava se arriscando mais do que devia, mas ainda assim achava divertido.

— Confie em mim. Vai ser uma apresentação de gala. Três atos. Uma plateia ilustre. E um helicóptero no final.

— Você realmente acha que vai enganar um diplomata russo bêbado, hipnotizar dois seguranças, pegar um Goya original escondido num cofre de nível militar e sair de lá com um sorrisinho e uma piada?

— Não. Acho que vou sair de lá com dois sorrisos e uma piada excelente. — Ele piscou. — Naeva, querida, você sabe que meus planos sempre soam ridículos... até funcionarem.

Ela tragou o cigarro, sem tirar os olhos dele.

— E se não funcionar?

— Então... nós morremos lindamente.

Ela revirou os olhos, mas sorriu. Mal sabia que esse era o último sorriso sincero que os dois dividiriam por muito tempo.

Ato I – O Encontro com o Monstro

O salão da embaixada russa era uma overdose de mármore, vodka e arrogância diplomática. Homens de ternos escuros e mulheres com vestidos mais caros que pequenos países circulavam em meio a garçons com bandejas e olhares de tédio.

Bowie entrou como um duque francês de moral duvidosa. Terno bege claro, gravata vinho, sotaque calculadamente afetado e uma bengala com cabeça de leão só para completar o circo.

O General Dmitri Vassiliev — o "monstro educado", como era chamado nos bastidores — estava no centro da sala, cercado por bajuladores e por uma segurança mais rígida que seu maxilar.

— Boa noite, excelência. — disse Bowie, aproximando-se com seu melhor sorriso encantador. — Ou posso chamar de Comandante? Suas conquistas são lendárias até nos becos mais mal frequentados de Paris.

O general riu. Raros eram os que ousavam provocá-lo.

— Quem é você?

— Um homem com um truque — respondeu Bowie, tirando uma moeda do ar e fazendo-a desaparecer dentro do drink do general com um simples gesto.

O russo arqueou uma sobrancelha.

— Você está me distraindo?

— Nunca. — respondeu Bowie. — Só entretendo enquanto seu sistema de segurança está sendo gentilmente burlado por uma moça muito bonita e absurdamente eficiente.

Silêncio. E então, outra gargalhada.

Bowie conquistara o ego certo.

Ato II – O Quadro de Sangue

Naeva desceu até o cofre com a precisão de uma bailarina armada. Tinha estudado as rotinas da embaixada durante semanas. Sabia os códigos, os horários, os rostos.

Em menos de dez minutos, o "Saturno Devorando Seu Filho", de Goya — desaparecido desde a Guerra Civil Espanhola — estava em suas mãos.

Ela enviou uma mensagem curta pelo rádio embutido: "Goya em mãos. Rumo ao telhado."

Bowie, do salão, fingiu uma enxaqueca diplomática e escapou para a varanda. Lá embaixo, o helicóptero alugado os aguardava. Acima, Naeva subia as escadas com o quadro enrolado e o olhar alerta.

Tudo estava perfeito.

Até não estar mais.

Um dos seguranças apareceu antes da hora. A seringa que ela carregava no pulso entrou no pescoço dele — mas não antes de um disparo ecoar no corredor.

Não era um tiro fatal.

Mas o suficiente para alertar todos os andares.

Ela correu.

Bowie viu os homens armados vindo do sul e do leste. Radios começaram a chiar. Ordens foram dadas em russo. Gritos. Movimento.

Ele correu para o ponto de encontro, puxando a seringa reserva da cintura.

Ela apareceu, sangue escorrendo do braço, os olhos arregalados.

— Alguém vendeu o plano. Não era o segurança. Eles sabiam. Sabiam tudo.

— Quem? — Bowie segurou seu rosto, já procurando rotas de fuga.

— O intermediário. Louis. O francês. Ele vendeu. Achou que conseguiria dobrar a jogada.

Louis. O maldito que eles pagaram para conseguir os códigos da embaixada.

Bowie não respondeu. Estava ocupado prendendo a seringa na veia dela. Um tranquilizante forte, misturado com adrenalina.

— O que está fazendo?

— Se der errado, quero que pareça que você era só uma vítima.

— E você?

— Eu faço o que faço de melhor: desapareço.

Ela tentou protestar, mas a substância já fazia efeito. Os olhos dela ficaram pesados. A mão escorregou, mas agarrou a dele, com força.

— Se sair vivo disso... — ela sussurrou. — Me procure.

Bowie assentiu.

Mas nunca mais a viu.

Ato III – O Sumidouro

O helicóptero partiu. Bowie escapou por um elevador de serviço e fingiu ser um paramédico local. Três dias depois, Louis foi encontrado morto em um beco de Lisboa, com um naipe de paus enfiado na garganta — um cartão de visitas que Bowie nunca reivindicou.

Naeva sobreviveu, mas desapareceu.

E Bowie ficou sozinho, com um quadro que jamais conseguiu vender, uma culpa que jamais quis carregar e uma cicatriz que jamais cicatrizou de fato.

Anos depois, nas noites mais longas, Mr. Bowie ainda se perguntava:
Se ela estivesse viva... ainda confiaria nele?

Ou pior:
Ela teria razão em não confiar?

Mr. BowieOnde histórias criam vida. Descubra agora