Capítulo 7 - Dois Cadáveres, Uma Mochila e Nenhum Plano

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O caminhão seguiu por uma estrada que parecia ter sido esquecida por Deus, pelo GPS e até pelo IBGE. As árvores fechavam-se sobre eles como se quisessem esconder o que se passava dentro da carroceria — e francamente, faziam muito bem.

Daphne acordava aos poucos, com os olhos semiabertos, vendo um teto metálico e ouvindo o ranger das rodas. Por um breve momento, achou que estava no céu. Até ver o rosto de Mr. Bowie.

— Ah não... — murmurou ela, voltando a deitar. — Ainda tô morta?

— Quase. Estamos entre o purgatório e uma van refrigerada com cheiro de presunto vencido. — Bowie respondeu, sentado ao lado dela, examinando as próprias unhas.

— Onde estamos?

— Tecnicamente? Fugindo de uma instalação militar secreta, depois de simular sua morte, enganar dois postos de controle e quase ser torrado por um truque de mágica. Mas tudo sob controle.

Ela piscou, confusa.

— Você é sempre assim?

— Charmoso? Brilhante? Improvisador de elite? Sim. Ah, e ilusionista. Sou tipo o Harry Potter, só que mais bonito e com boletos.

Daphne sentou-se com dificuldade, ainda meio zonza da falsa eutanásia. Seu olhar caiu sobre a porta traseira do caminhão.

— E o motorista? Ele não ouviu nada?

— Kevin? Ele é pago para ignorar até uma explosão atômica. Se você gritar, ele provavelmente só aumenta o rádio.

— Você confia nele?

— Confio que ele odeia gente. E isso, no mundo de hoje, é quase uma virtude.

Ela riu fraco. Bowie observou aquele sorriso. Era pequeno, cansado, mas genuíno. E por um instante, ele quase esqueceu que estava fugindo com uma desconhecida acusada de crimes que ninguém explicava.

— Preciso dizer — disse Daphne — você é o homem mais estranho que já conheci.

— Estranho? Você ainda não viu minha pantomima de coelho psicótico.

— Isso existe?

— Não, mas me deu uma ideia.

O caminhão começou a reduzir a velocidade. Kevin gritou da cabine:

— Dez minutos pro ponto de saída. Vistam-se. Queimem qualquer identificação.

Bowie abriu a mochila. Tirou duas roupas comuns: jeans, jaquetas, toucas. Jogou uma para Daphne.

— Vai te dar uma aparência civil. Só não tenta parecer muito normal. Estamos na Polônia. Qualquer pessoa muito feliz chama atenção.

Daphne olhou para a jaqueta:

— Não tem um moletom rosa?

— Só se quiser ser confundida com uma turista perdida do TikTok.

Enquanto se trocavam às pressas, Daphne finalmente quebrou o silêncio:

— Você ainda não me perguntou por que eu estava presa.

Bowie parou de amarrar os tênis.

— Achei que era falta de gorjeta.

— Sério.

Ele respirou fundo, fitando-a com aquele olhar azul carregado de ironia e dúvida.

— Olha, minha curiosidade é do tamanho de um Boeing, mas Copérnico só me deu um pedaço do quebra-cabeça. E sinceramente? Quanto menos eu souber, mais fácil é improvisar.

Mr. BowieHistórias para pegar e não largar. Descubra agora