O Ponto Cego não era só um esconderijo. Era um santuário precário onde o silêncio podia se tornar ensurdecedor. Bowie sentou-se numa cadeira de madeira velha, rangendo sob o peso do corpo e das memórias. O olhar estava distante, como se ele tentasse enxergar algo além daquelas paredes frias e úmidas.
Daphne ficou encostada na parede oposta, observando-o em silêncio. Ela não sabia o que dizer, mas sentia que aquele momento era mais importante do que qualquer plano ou missão.
— Você já teve uma infância? — perguntou, com a voz rouca e baixa.
Bowie levantou os olhos e encarou-a com uma expressão meio surpresa, meio melancólica. Ele não respondeu imediatamente. Foi como se reviver aquele passado fosse uma tortura silenciosa que ele vinha adiando.
— Sim. — Ele deu um meio sorriso triste. — Uma infância comum para um garoto que queria ser mágico: muita solidão, algumas cartas, um pai ausente e uma mãe que sempre acreditou que eu podia desaparecer, só para não ter que encarar o mundo.
Daphne fechou os olhos, tentando visualizar aquele garoto perdido, que agora parecia tão distante do homem sarcástico e cheio de truques que ela conhecia.
Flashback — Londres, 1984
O sótão era pequeno e empoeirado, iluminado apenas por uma lâmpada pendurada que balançava com o vento que escapava pela janela velha. Bowie, na época chamado Arthur, tinha onze anos. Ele estava sentado num canto, as mãos trêmulas segurando um baralho de cartas surrado.
— Mais rápido, Arthur! — gritou a mãe do andar de baixo. — O show vai começar e a platéia está impaciente!
Ele respirou fundo, ajeitou o colete azul que era dois números maior que ele e tentou sorrir. Seu pai estava encostado na porta, imóvel, com os braços cruzados e o olhar distante. Era um homem de poucas palavras, e poucas emoções. Uma figura de presença mais ausente do que protetora.
Arthur tentou o truque de cartas uma vez mais, com as mãos tremendo, enquanto o coração batia acelerado, como se quisesse fugir dali.
Quando subiu ao pequeno palco improvisado, fez seu melhor sorriso de coragem. Fez as cartas desaparecerem e reaparecerem, arrancando algumas palmas tímidas dos colegas da escola. Mas o momento mais mágico não foi o truque, e sim o olhar de sua mãe, que brilhou de orgulho, ainda que breve.
No entanto, na plateia vazia, o pai apenas desapareceu, sumindo de sua vida como um fantasma silencioso.
De volta ao presente, Bowie esfregou as têmporas como se as memórias pudessem causar dor física.
— Meu pai nunca gostou de magia — disse ele, voz embargada — Para ele, era só truque barato para enganar idiotas. Ele queria que eu fosse real, que fosse forte, mas nunca entendeu que a força que eu tinha era justamente a ilusão que eu criava para sobreviver.
Daphne respirou fundo, sentindo que aquele momento de vulnerabilidade partilhada criava um laço invisível, quase sagrado.
— E sua mãe? — perguntou ela, com uma gentileza inesperada.
— Ela tentou salvar o que podia. Mas a verdade é que, para ela, eu era só mais um truque mal feito que ameaçava estragar a família — Bowie riu, meio amargo. — Eu era o coelho errado na cartola errada. Nunca encaixei.
Daphne passou a mão no rosto, escondendo a vontade de chorar. Ela também carregava seus próprios fantasmas, um peso que parecia esmagá-la por dentro.
— Eu quase não lembro da minha infância — começou, a voz baixa e trêmula — Só pequenos fragmentos. Um jardim cheio de flores bravas, uma risada distante que eu queria alcançar, e o silêncio pesado dos corredores da casa dos meus pais.
Bowie virou-se para ela, atento, como um parceiro de batalha pronto para escutar.
— Você quer me contar? — perguntou, com a delicadeza que só a verdadeira empatia permite.
Daphne engoliu o choro que ameaçava escapar e continuou.
— Meu pai era um homem rígido, duro como pedra. Ele não entendia o que eu via no mundo, não compreendia a loucura que habitava em mim. Minha mãe tentou proteger o que podia, mas havia algo maior e mais sinistro contra nós.
Ela fechou os olhos e respirou fundo, revivendo a dor.
— O governo... eles nos caçaram. Roubaram tudo. A minha família, a minha identidade, a minha história. Tentaram apagar quem eu sou.
Bowie se aproximou, colocou uma mão no ombro dela com firmeza.
— Você não é o que eles querem que você seja. Você é muito mais. Muito mais do que apagaram.
Ela abriu os olhos, encontrando nos dele uma chama que parecia espelhar a própria luta.
— Será que isso é suficiente para continuar? — perguntou, quase se questionando.
— É o que nos mantém vivos — respondeu Bowie. — A certeza de que somos mais fortes do que qualquer memória roubada, qualquer sombra do passado.
O silêncio voltou a preencher o espaço, mas agora era um silêncio que não pesava, e sim que unia.
Kevin entrou no pequeno galpão com passos firmes, quebrando a atmosfera com a dura realidade.
— Eles estão chegando. Mais cedo do que esperávamos.
Bowie levantou-se, sacudiu a poeira invisível da sua alma e sorriu para Daphne.
— Hora de deixar os fantasmas no espelho e encarar o monstro.
Flashback — O Jardim das Memórias Perdidas
Daphne revivia em sua mente o último verão antes da queda.
Ela estava no jardim da casa dos pais, correndo entre as flores selvagens que seu avô plantara décadas antes.
Aquele era um momento raro de paz, um instante em que tudo parecia possível.
Ela viu o rosto sorridente da mãe, que olhava para ela com olhos cheios de esperança, e o pai, sério, mas com um olhar que tentava esconder o medo.
De repente, o céu escureceu, e homens de farda apareceram no portão, com armas e ordens de silêncio.
Ela ouviu gritos, viu sombras, sentiu o frio da ausência chegando para apagar tudo.
O jardim desapareceu, o som sumiu, e o mundo virou um túnel escuro onde as memórias se fragmentaram para sempre.
De volta ao presente, Daphne respirava com dificuldade, como se aquela lembrança a sufocasse.
— Eu deveria odiá-los — sussurrou — Mas tudo o que eu sinto é um vazio frio.
Bowie colocou a mão no rosto dela, limpando uma lágrima que não sabia que ela deixara escapar.
— Não odeie — disse ele — Odiar é deixar que eles ganhem de verdade.
Ela olhou para ele, pela primeira vez sentindo que não estava sozinha naquela luta.
— Obrigada por não ter desistido de mim.
Ele sorriu.
— Nunca desistiria. Somos cartas diferentes, mas jogamos o mesmo jogo.
A madrugada avançava, e com ela, a inevitável chegada dos inimigos. Mas naquele refúgio de sombras e memórias, Bowie e Daphne encontraram forças para enfrentar o que viria.
Cada passo que davam agora era guiado por mais do que estratégia — era guiado pelo peso do passado, pela promessa de um futuro que ainda podia ser conquistado.
E, talvez, pelo começo de algo que nem a memória apagada podia negar: uma conexão forjada nas profundezas do medo, da dor e da esperança.
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Mr. Bowie
AkcjaMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
