O caminhão rangeu e parou lentamente diante de um imenso portão de ferro adornado com sensores e câmeras que pareciam mais curiosas do que vigilantes. Uma sirene aguda cortou o ar como se dissesse: "Olha quem chegou para o jantar!"
Bowie ajeitou o boné, puxou os óculos escuros até a ponta do nariz e espiou como uma socialite desinteressada em uma liquidação. Já vestia o uniforme negro, mas por baixo ainda carregava sua verdadeira armadura: a confiança debochada e alguns truques discretamente escondidos nas costuras.
— Lembre-se do que eu disse, mágico — resmungou Kevin, acendendo mais um cigarro com a destreza de quem acende esperanças com gasolina. — Não seja burro. A morte é sua melhor amiga aqui dentro.
— Kevin... Eu e a morte temos um acordo: ela espera eu terminar meu show antes de me chamar ao palco. — piscou. — E olha que esse é um espetáculo de três atos.
O portão se abriu. E com ele, a boca do inferno.
O caminhão adentrou o pátio da Área 66 e Bowie viu, por trás do para-brisa sujo, o que pareciam soldados saídos diretamente de um filme distópico: armaduras escuras, fuzis exagerados, e uma postura que dizia "tiro antes de perguntar".
Uma voz robótica soou em alemão através de um intercomunicador. Kevin respondeu com a mesma monotonia de quem pedia um hambúrguer sem alface. O caminhão seguiu.
Parou em um setor à direita, junto a outros veículos menores. Bowie desceu devagar, pegando o carrinho de transporte de cadáveres como se empurrasse um carrinho de compras... muito, muito amaldiçoado.
Ao longe, o executor verdadeiro já estava sendo encaminhado para a ala de preparação. Seu nome era Klaus, segundo o plano, e ele era conhecido como o "Anjo da Noite" — apelido carinhoso dado por prisioneiros que nunca viram a luz do dia depois de vê-lo.
— Preciso sumir com o Klaus... — sussurrou para si. — Nada como um truque de mágica com final feliz.
Ele entrou por uma porta lateral, passando por um scanner corporal. Por sorte, seus objetos escondidos estavam cobertos por material que burlava sensores — cortesia do Serviço Secreto. Copérnico poderia ser um chato, mas sabia montar um arsenal discreto.
Com um crachá falso e uma prancheta que ele nem sabia como usar, Bowie foi caminhando com passos confiantes de quem realmente sabia onde estava indo — a maior mentira de sua carreira.
Na ala de uniformes, pegou a capa preta do executor, ainda pendurada em um armário com o nome "K. Schmitt". A vestiu por cima do uniforme e olhou no espelho.
— Agora sim, um Darth Vader de quinta categoria — resmungou.
Próximo ato: sumir com Klaus.
O homem estava em uma salinha ao lado, com um olhar vazio e um ar de tédio assassino. Bowie apareceu pela porta e lançou o primeiro truque: um spray de sonífero que simulava o cheiro de desinfetante.
— Desculpe, Klaus. Preciso de sua roupa, e da sua reputação também, se possível.
Bowie pegou o corpo mole do executor e, com a ajuda de um armário de manutenção, o trancou num compartimento apertado.
— Pronto, desapareceu. Nada pessoal. Se sobreviver, me procure no camarim.
O cheiro da morte era um perfume exótico na Área 66. Algo entre desinfetante barato, suor e... fracasso. Mr. Bowie estava a dez minutos de protagonizar a maior performance de sua vida. E, como qualquer artista à beira do palco, só lhe restava uma certeza: o figurino era horrível.
— Essa capa preta parece uma cortina de motel barato — resmungou, ajeitando a vestimenta sobre o uniforme de executor. O capuz caía de maneira dramática, quase cômica, lhe dando ares de vilão de filme B. Se ao menos tivesse um sabre de luz...
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Mr. Bowie
ActionMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
