Um esconderijo improvisado. Um gerador chiando. Três pessoas tentando manter a calma com a sutileza de uma orquestra tocando heavy metal. No meio da floresta, dentro de um antigo posto militar abandonado, Mr. Bowie examinava as paredes cobertas de mofo como se avaliasse uma suíte presidencial.
— Tenho certeza que em algum momento isso já foi habitado por um jaguar. Um jaguar ou um ministro corrupto. — Apontou para uma mancha estranha na parede.
— Ambas opções são perigosas e marcam território do mesmo jeito — comentou Daphne, sentada sobre uma caixa, laptop no colo, concentrada nos arquivos roubados.
— Se eu pegar leptospirose por essa missão, Copérnico vai pagar com sessões eternas de karaokê cantando Sandy & Junior — Bowie reclamou, esfregando as mãos com álcool gel de lavanda.
Figueiredo, como sempre, estava calado. Carregava o humor de uma lápide e a eficiência de um sniper. Ele observava o mapa e ouvia transmissões interceptadas com um rádio militar antigo.
— Eles colocaram alerta máximo. Helicópteros, drones, e... um grupo de elite chamado "Esquadrão Cervo".
— Cervo? — Bowie ergueu uma sobrancelha. — Que nome mais... sensível. Esperava algo como "Esquadrão Motosserra" ou "Cães do Apocalipse".
— O líder deles é conhecido como Capitão Moisés — completou Figueiredo.
— Ah, claro. Moisés. Só falta abrir o Rio Amazonas no meio e me jogar aos jacarés.
Daphne riu, mas não tirou os olhos da tela.
— Olha isso. Estão chamando o projeto de "Ordem Natural". Eles testam os chips para controlar comportamento social. Os dados mostram alterações hormonais e neurológicas forçadas. Os vilarejos viraram colônias de obediência. É bizarro.
— E alguém do governo deixou isso passar? — perguntou Bowie.
— Ou deixou ou assinou o cheque.
— Provavelmente os dois. — O mágico se levantou e caminhou até ela. — E agora, sabichona, como expomos essa desgraça sem virarmos estátua de chumbo?
Daphne não respondeu imediatamente. Em vez disso, apontou para o canto inferior da tela.
— Existe uma torre de transmissão nas redondezas. Pequena, antiga, mas ainda funcional. Eles usavam como backup de rede segura... Eu posso enviar os dados direto para os servidores do "Cervo Azul".
— O restaurante?
— Não, o grupo anônimo de jornalistas que vazou os relatórios de espionagem da Nova Zelândia e os vídeos dos golfinhos treinados pela CIA. Eles são bons.
— Os golfinhos? — Bowie inclinou a cabeça.
— Os jornalistas.
— Pena. Sempre quis trabalhar com golfinhos espiões.
O plano era tão ousado quanto qualquer ilusão de palco: infiltrar a torre antes do nascer do sol, conectar o transmissor, enviar os dados e fugir em um helicóptero que eles ainda não tinham.
— Detalhes — disse Bowie ao ver Daphne franzir a testa. — Um bom mágico resolve os problemas mais impossíveis com um pouco de prestidigitação e uma quantidade indecente de carisma.
— E com um helicóptero. Que a gente não tem.
— Confia em mim.
Às 03h11, eles estavam de novo na trilha, com lanternas camufladas e a respiração contida. O som da floresta parecia mais denso naquela hora, como se tudo estivesse assistindo. A torre surgia ao longe, meio caída, mas ainda viva. Como um velho rockeiro que se recusa a morrer.
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Mr. Bowie
AksiyonMr. Bowie é um golpista carismático, mestre da ilusão e envolvido nos mais ousados roubos dos últimos anos. Suas habilidades espetaculares em mágica e ilusionismo chamam a atenção do serviço secreto, e o caso passa a ser conduzido pelo implacável Ag...
